MULHERES
15/03/2020 12:18 -03 | Atualizado 06/05/2020 20:46 -03

Coronavírus, gravidez e amamentação: O que você precisa saber sobre essa relação

Gestantes de alto risco e puérperas têm mais chances de contrair a covid-19.

“Estou grávida, posso transmitir coronavírus para o meu bebê?”/ “Há alguma informação disponível sobre amamentação e o vírus?” / “Quais cuidados devo ter durante a gravidez?” / “Tenho um bebê de poucos dias em casa, eu e ele corremos o risco de pegar coronavírus?” / “Há possibilidade de má formação?”

Após a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar pandemia do novo coronavírus e mudar os protocolos de orientação de como tratar os casos de infecção, dúvidas surgiram, também, entre mulheres que estão gestantes, atravessando o período de pós-parto e amamentando seus bebês.

Com poucas informações sobre o comportamento do vírus, inicialmente, a própria OMS e infectologistas de todo o mundo indicavam que não havia evidências de que a covid-19 poderia se desenvolver de forma diferente em gestantes ou em mulheres que acabaram de dar a luz, as puérperas.

Mas este quadro mudou. Em abril, boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, apontou que gestantes de alto risco ou seja, aquelas com doenças como obesidade, hipertensão, diabetes gestacional, asma e quadro cardiológico, tem mais chances de contrair a covid-19. Assim como as puérperas, nome dado às mulheres que estão passando pelo chamado “puerpério”, período que contempla cerca de 45 dias após o parto. ⠀

O HuffPost conversou com os infectologistas Rosana Richtmann e Jamal Suleiman, do Hospital Emilio Ribas, referência no combate e tratamento do novo coronavírus e também com a ginecologista Silvana Maria Quintana, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP). Os especialistas respondem às principais dúvidas que envolvem estes dois grupos de risco.

Como a covid-19 é transmitida e qual o cuidado com gestantes?

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A especialista reforça que, “grávidas devem seguir a mesma recomendação de todos: lavar as mãos, fazer uso do álcool em gel e, principalmente, evitar aglomerações."

A covid-19 pode ser transmitida pelo contato com secreções contaminadas. Entre elas, gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo (toque ou aperto de mão e contato com objetos ou superfícies contaminadas), seguido de contato com a boca, nariz ou olhos - por estes motivos, o isolamento social é recomendado.

“Todos nós, nesse momento de pandemia, precisamos nos proteger”, diz Jamal Suleiman, infectologista do instituto Emílio Ribas, em São Paulo. Segundo o especialista, ainda não há evidências de que o vírus se manifeste de forma diferente em gestantes que não têm um quadro de risco - ou seja, aquelas que com doenças como obesidade, hipertensão, diabetes gestacional, e outras.

Porém, o especialista aponta que “especificamente às mulheres grávidas, mesmo aquelas não estão com uma gestação de risco, é importante que evitem aglomerações e não recebam visitas. E é importante frisar que, se, por acaso, ela estiver convivendo com algum sintomático respiratório [pessoa com sintomas de gripe ou covid-19], que peça para que a máscara seja usada”, diz. 

Essa atenção, segundo o especialista, se deve à flutuação da imunidade que é apresentada durante a gravidez - e pode colocar as gestantes (mesmo as que não são de alto risco) em um grupo vulnerável à doença. Durante a gestação, o corpo se adapta à presença do bebê no útero, causando uma modulação hormonal, que piora a resposta imunológica da paciente a vírus e bactérias.

“Nós falamos que elas têm ‘baixa imunidade’ porque o organismo ainda está se adaptando à presença do bebê no útero. Digamos que ele é um ‘corpo estranho’ se desenvolvendo dentro do corpo da mulher. E isso provoca uma modulação hormonal contra a rejeição, o que afeta a imunidade e a deixa mais propícia a infecções”, explica Silvana Maria Quintana, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) e membro da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).

A especialista reforça que, “grávidas devem seguir a mesma recomendação de todos: lavar as mãos, fazer uso do álcool em gel e, principalmente, evitar aglomerações. Isso inclui festas de família, encontros ao ar livre, etc.”

Por que gestantes de alto risco e puérperas são mais vulneráveis?

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"Elas entraram no grupo de risco justamente por apresentarem um quadro que pode exigir cuidados redobrados durante a gravidez", explica a especialista.

Especialistas ouvidos pelo HuffPost pontuam que as consequências da infecção do novo coronavírus para gestantes ainda são incertas e sem evidências, em especial, no que diz respeito à gravidade para mães e bebês. Contudo, estão em alerta. Isso porque a família de vírus “SARS”, à qual pertence a covid-19, pode eventualmente causar aborto, ruptura, parto prematuro, restrição de crescimento intrauterino e morte materna.

“As gestantes de alto risco são aquelas que tem diabetes, pressão alta, obesidade. Elas entraram no grupo de risco justamente por apresentarem um quadro que pode exigir cuidados redobrados durante a gravidez e, por isso, uma vulnerabilidade maior ao vírus. É algo semelhante ao que acontece com outros pacientes que já apresentam doenças pré-existentes”, explica a infectologista Rosana Richtmann, do Emilio Ribas e que atende ainda nas maternidades Santa Joana e Pró-Matre, em São Paulo.

“O fato de ela ser gestante, por si só, não faz com que ela esteja no grupo de risco. Mas não quer dizer que a gente esteja tranquilo. É sempre um quadro imunológico diferenciado. Na minha opinião, merece todo o cuidado”, pontua.

Segundo Richtmann, cuidados devem ser redobrados no momento do puerpério. “Este é um momento em que você tem uma alteração hormonal e imunológica no corpo da mulher. Então, de novo: é um momento de atenção para você estar ‘em cima’ dessas pacientes. A gente sugere que elas fiquem em casa, evitem o máximo de visitas - sabemos que é difícil, mas elas terão muito tempo para apresentar o bebê às pessoas. O momento pode esperar.”

A infectologista lembra que pessoas assintomáticas podem carregar o vírus e que visitas até na maternidade estão suspensas. ”É um direito da mulher ter um acompanhante no momento do parto, o que não pode acontecer são aglomerações e visitas. Independente da pessoas estar ou não saudável, a gente sugere que as visitas estejam suspensas nesse momento.”

É permitido levar um acompanhante no momento do parto?

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A especialista afirma que em alguns casos, se a gestante tiver contraído a covid-19, outros protocolos de atendimento são necessários.

Cada instituição de saúde tem a sua regra. “Se é uma gestante que não está infectada no momento do parto, ela tem direito, sim, a um acompanhante - é um direito de toda gestante, na verdade - ela não vai ficar sozinha”, explica a infectologista Rosana Richtmann. 

A especialista afirma que em alguns casos, se a gestante tiver contraído a covid-19, outros protocolos de atendimento são necessários, principalmente em relação ao bebê. É necessária uma avaliação multidisciplinar, considerando estado geral da paciente, idade gestacional e vitalidade fetal.

Os especialistas recomendam que seja no máximo um acompanhante por paciente, e ele que deve estar assintomático e não ter entrado em contato com pessoas contaminadas nos últimos 14 dias que antecedem a internação, além de residir no mesmo domicílio que a gestante e não possuir doenças crônicas. Máscara cirúrgica e protocolos de higienização também deve ser seguidos.

Em alguns casos e instituições, não é recomendada a presença de doulas, fotógrafos e visitantes durante a internação hospitalar, pois o aumento do número de pessoas circulando aumenta os riscos de contaminação dessas pessoas, de pacientes internadas e da equipe de saúde.

“O que não pode é ficar entrando visita. Se eu, como médica, não recomendo a visita em casa, para o hospital vale a mesma regra”, aponta a infectologista.

O ambiente hospitalar apresenta algum risco à gestante?

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Maternidades e hospitais, diante da pandemia, adotaram normas de segurança e cuidados para redução do risco de transmissão.

Nenhum estudo até o momento demonstrou que o ambiente hospitalar representa um risco em decorrência da pandemia.

Em nota técnica, a Febrasgo reforça que o ambiente hospitalar é o mais adequado para diminuir a chamada “morbimortalidade materna e perinatal”, inclusive em gestantes assintomáticas e de risco habitual.

Maternidades e hospitais, diante da pandemia, adotaram normas de segurança e cuidados para redução do risco de transmissão. A organização ainda pontua que “não se recomenda o parto de mulheres suspeitas ou confirmadas para covid-19 em domicílios ou em Centros de Parto Normal (CPN).” 

Gestantes contaminadas podem passar o vírus para o feto?

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Mesmo infectadas, lactantes não devem deixar de amamentar.

Segundo a OMS e a Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), em protocolo divulgado no início de março, a transmissão do coronavírus de mulheres grávidas para o feto foi descartada. Este contágio é conhecido como “contaminação vertical”, ou seja, direta. 

O documento destaca que o único estudo clínico disponível que relaciona mulheres, gravidez, amamentação e coronavírus, foi realizado na China e analisou amostra de seis grávidas que tinham a doença.

Foram observados o líquido amniótico, o sangue do cordão umbilical, o leite materno ― além de testes em vias respiratórias de recém-nascidos. Todas as amostras deram negativo e a possibilidade de má-formação não foi indicada.

Na epidemia do zika vírus, que começou a dar sinais no Brasil em março de 2015, mães e gestantes foram as mais afetadas. Foi comprovada a relação direta entre o vírus e o diagnóstico de microcefalia, uma má-formação irreversível no cérebro. O vírus é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti.

“Em relação ao feto, em princípio, não há nenhuma evidência de que haja algum tipo de contaminação”, reforça Jamal Suleiman, infectologista do Emílio Ribas que ainda destaca a importância de, durante a gravidez, as mulheres tomarem a vacina contra a influenza, ou seja, a vacina contra a gripe.

As gestantes, segundo o Ministério da Saúde, pertencem ao público-alvo de campanhas de imunização. Isso porque a vacina provoca um efeito “protetor” tanto para a gestante, quanto para o feto. “Pela sua condição de gestante, ela tem uma baixa imunidade. E elas devem tomar a vacina”, frisa Suleiman. 

O médico aponta que a vacina, neste caso, não ajuda no combate ao coronavírus - porque ainda não há a cura para ele. Mas que, se a gestante está imunizada contra a gripe, é possível que isso auxilie no chamado “diagnóstico diferencial” de infecções respiratórias.

“Se ela apresentar sintomas e tiver tomado a vacina, no momento da análise, eu já deixo de cogitar o risco de influenza e passo a pensar na possibilidade do coronavírus”, aponta o especialista.

O documento da Febrasgo diz que, entre as principais orientações para gestantes estão evitar aglomerações, contato com pessoas febris e apresentando sinais de infecção respiratórias. Além disso, considerar que a higienização das mãos, evitar contato das mãos com boca, nariz ou olhos são as medidas mais efetivas contra a disseminação destas infecções.

“Sabe-se que são as informações mais importantes e falam de estratégias simples, mas difíceis de serem efetivadas na prática”, aponta o artigo.

Por que é preciso tomar a vacina da gripe neste momento?

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“Nós não temos os testes disponíveis para todas as pessoas no sistema de saúde", aponta a ginecologista Silvana Maria Quintana.

A ginecologista ressalta que a vacina contra a gripe - que contempla os tipos de influenza, família à qual pertence o H1N1 - não ajuda no combate ao coronavírus, já que ainda não há a cura para ele. Mas que, se a gestante está imunizada contra a gripe, é possível que isso auxilie no chamado “diagnóstico diferencial” de infecções respiratórias.

“Nós não temos os testes disponíveis para todas as pessoas no sistema de saúde. Então, se a gestante já estiver vacinada contra a H1N1 e apresentar os sintomas, isso auxilia no momento do diagnóstico. Cogita-se, então, a possibilidade do coronavírus”, aponta. 

Caso haja a necessidade de um atendimento especializado, as doenças contempladas pela vacina contra a gripe já serão descartadas na triagem das pacientes que chegarem às unidades básicas de saúde com sintomas e apresentarem a imunização. Ou seja, o atendimento é facilitado.

Quintana chama atenção para o fato de que, independente do coronavírus, infecções respiratórias tendem a ser mais severas entre gestantes. “Ele [vírus da gripe] tende a se manifestar de forma mais intensa durante a gestação. É preciso que a vacina seja aplicada em qualquer trimestre da gravidez”. 

Além dos sintomas já conhecidos como febre, coriza e indisposição, o vírus pode causar complicações e outras infecções respiratórias mais graves, como pneumonia.

Com a vacina, um efeito “protetor” é causado tanto na gestante, quanto no feto. Este tipo de vacina só pode ser aplicada após 6 meses de idade. “A gestante, ao receber a vacina, de duas a quatro semanas antes do bebê nascer, forma anticorpos que atravessam a placenta. Então, esse bebê estará protegido do H1N1 no primeiro ano de vida”, diz.

Mulheres contaminadas devem parar de amamentar?

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Como o leite fornece anticorpos e reforça o sistema imunológico do bebê, a orientação de especialistas é dar continuidade à mamada.

Mesmo infectadas, lactantes não devem deixar de amamentar. Benefícios da amamentação superam quaisquer riscos potenciais de transmissão do vírus através do leite materno. 

Como o leite fornece anticorpos e reforça o sistema imunológico do bebê, a orientação de especialistas é dar continuidade à mamada e, inclusive, oferecê-la em livre demanda - de acordo com a necessidade do bebê.

“Até agora a recomendação é de não interromper a amamentação, muito pelo contrário. É nesse momento que o bebê está recebendo anticorpos”, diz o infectologista Jamal Suleiman.

Novamente, o infectologista destaca que, ao manter a amamentação, a recomendação são os cuidados básicos que já criam barreiras para a proliferação da doença: lavar as mãos, usar a máscara e álcool gel.

De acordo com a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano da Fiocruz as orientações abaixo, que seguem a OMS, devem ser seguidas:

 

1. Lavar as mãos por pelo menos 20 segundos antes de tocar o bebê ou antes de retirar o leite materno (extração manual ou na bomba extratora);


2. Usar máscara facial (cobrindo completamente nariz e boca) durante as mamadas e evitar falar ou tossir durante a amamentação;


3. A máscara deve ser imediatamente trocada em caso de tosse ou espirro ou a cada nova mamada;


4. Em caso de opção pela extração do leite, devem ser observadas as orientações disponíveis neste documento;


5. Seguir rigorosamente as recomendações para limpeza das bombas de extração de leite após cada uso;


6. Deve-se considerar a possibilidade de solicitar a ajuda de alguém que esteja saudável para oferecer o leite materno em copinho, xícara ou colher ao bebê;


7. É necessário que a pessoa que vá oferecer ao bebê aprenda a fazer isso com a ajuda de um profissional de saúde.

“O que deve ser feito, eventualmente, é usar a máscara quando estiver lidando com o bebê, caso apresente sintomas. E fazer o que todo mundo já está fazendo: evitar aglomerações, lavar as mãos e fazer o uso do álcool em gel. Se tiver algum sintoma, buscar assistência médica. Até o presente momento, essa é a recomendação”, orienta Suleiman. 

O especialista frisa que, caso a mãe tenha necessidade de afastamento do bebê ou não quiser amamentar, o leite pode ser ordenhado e oferecido - mesmo que a mãe apresente sintomas. Caso haja necessidade, a fórmula também pode ser introduzida, mas sempre de acordo com orientação médica. 

Devo me preocupar com o conceito de “pandemia”? 

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É importante destacar que a humanidade enfrenta pandemias há centenas de anos.

Nesse contexto, em termos práticos, ao optar por declarar uma pandemia, a OMS direciona os esforços dos países não para a detecção de novos casos, mas sim à fase de mitigação: adotar medidas para evitar mais mortes.

Este conceito é usado quando uma doença infecciosa ameaça em larga escala a população de forma simultânea em todo o mundo. O principal fator para se conceituar uma pandemia é a sua característica geográfica, e não necessariamente a gravidade da doença. A última enfrentada foi a gripe suína, em 2009.

É importante destacar que a humanidade enfrenta pandemias há centenas de anos. A primeira que se tem registro data de 1580, quando um vírus influenza se espalhou pela Ásia, África, Europa e América do Norte. 

“Tudo isso começou em dezembro. Ainda não há respostas para todas as dúvidas que surgem porque ainda há estudos que estão sendo desenvolvidos. Estamos correndo contra o tempo”, pontua Suleiman.

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