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30/03/2020 02:00 -03 | Atualizado 30/03/2020 07:52 -03

Bolsonaro perde apoio dentro do governo por postura na crise do coronavírus

Militares buscaram o vice-presidente Hamilton Mourão para expressar preocupação e apoio. Na Câmara, já há mais de 15 pedidos de impeachment contra o presidente.

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro modula seu discurso no caminho contrário ao que o mundo vem fazendo para conter a pandemia do coronavírus, no Brasil, bem próximo dele, inicia-se uma espécie de sondagem para o caso de um afastamento do chefe do Executivo.

Na semana que passou, quando o mandatário elevou o tom sobre o que chama de “gripezinha”, o vice-presidente Hamilton Mourão foi procurado por militares de alta patente do Exército, Marinha e Aeronáutica. Além de expressar preocupação com o momento, colocaram-se à disposição de Mourão no caso de um impeachment ou renúncia de Bolsonaro. 

O HuffPost falou, entre sábado (27) e domingo (28), com participantes desse encontro e interlocutores de Mourão, sob a condição de anonimato. A conversa inicial se deu logo após o pronunciamento de Bolsonaro em rede nacional de rádio e televisão, na última terça-feira (24), mas outros encontros voltaram a ocorrer na sequência. 

A avaliação do núcleo militar é que, sob o pretexto de se mostrar como um político diferenciado, o presidente está colocando vidas em risco. Contudo, para eles, Bolsonaro parece não estar levando em conta que muito será perdido e que, quando se fala em perdas humanas, isso “vale mais do que qualquer crise econômica”, disse um dos interlocutores. 

Em Brasília, não são apenas os militares que já traçam cenários para o futuro. A conversa que o comando militar teve com Mourão, por exemplo, ocorre com outros ministros também: O que fazer caso o presidente seja afastado?

Auxiliares de Bolsonaro no Planalto e pela Esplanada avaliam que, desta vez, o presidente pode estar esticando a corda para além do limite. Ninguém acredita, porém, que o presidente vá abrir mão do cargo por meio de uma renúncia, como sugeriu recentemente uma antiga aliada de Bolsonaro, a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP), que chegou a ser cogitada a vice dele nas eleições de 2018. 

Embora alguns processos de impeachment já tenham sido protocolados nos últimos dias, desde a fala de Bolsonaro à nação, e mesmo que haja outros, mais antigos, aguardando avaliação da equipe técnica da Câmara dos Deputados - são mais de 15 solicitações na Casa -, não há clima político para isso no momento.

EVARISTO SA via Getty Images
Mourão foi procurado por alta cúpula das Forças Armadas por preocupação com comando da crise do coronavírus por Bolsonaro.

Responsável por dar o sinal verde para o andamento de processos de impeachment, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já disse mais de uma vez não estar disposto a isso. Ao menos por enquanto. Ele diz a interlocutores que o procuram para tratar do assunto que, no meio de uma crise sanitária, a prioridade do País é salvar vidas e não “domar o presidente”.

A avaliação de Maia e também do núcleo militar é compartilhada nos bastidores do Congresso. Não é hora para se falar em tirar o presidente do cargo. Para parlamentares ouvidos pelo HuffPost, um processo como esse agravaria a crise política e, pior, institucional na qual o País está mergulhada. 

Economia X Saúde 

O pronunciamento de Bolsonaro, que contou com o aval de seu filho Carlos, teve a intenção justamente de incitar o apoio da base bolsonarista. Ao apostar em falas voltadas ao “sustento da família” para justificar sua tese de que “será só uma gripezinha” para a maior parte da população, o presidente joga para essa plateia e ganha apoio de muita gente que, de fato, tem sido prejudicada pela paralisação do País. 

O governo tem anunciado medidas de socorro a pequenos e médio empresários e trabalhadores informais, mas elas ainda não foram implementadas de fato. O ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a público neste fim de semana, negou estar doente, e chegou até mesmo a dizer que, se pudesse, ficaria em quarentena. Mas disse que manter todos em casa por mais de 3 meses pode ser fatal para a economia. 

Neste domingo (29), o chefe da Economia destacou ainda que, se em duas ou três semanas, no máximo, o pacote econômico do governo não começar a sair do papel, “nós teremos falhado”. 

Há preocupação por parte do mercado. O analista sênior da Eurasia Group Silvio Cascione diz que não se pode afirmar que o presidente está “inviabilizado”, mas que “com certeza piorou o ambiente não só para o enfrentamento à crise, mas para a agenda política depois dela”. 

“O comportamento dele está causando muita preocupação [ao mercado]. Está acirrando a disputa com o Congresso, o que aumenta a incerteza sobre a agenda econômica e também o risco de que o controle da epidemia leve mais tempo”, destacou ao HuffPost. 

Na avaliação de Cascione, a preocupação de Bolsonaro com a economia e os efeitos do coronavírus é “pertinente”. “Mas está sendo comunicada de uma forma muito agressiva e aumentando o risco de que as pessoas se exponham ao vírus”, ponderou.

Sergio Moraes / Reuters
Elevação do tom do presidente sobre coronavírus alarmou integrantes do governo. 

Criadouro de crises 

Enquanto a equipe de Bolsonaro que trabalha de forma paralela na crise do coronavírus e busca um equilíbrio ao lidar com o temperamento do chefe, as atenções esta semana estarão voltadas para o futuro do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. 

Ao anunciar os dados do País no sábado (28), o chefe da pasta desconstruiu o discurso que Jair Bolsonaro vem adotando desde o início da crise do coronavírus. Destacou que a cloroquina ainda está em pesquisa e desaconselhou seu uso a não ser para casos graves, criticou protestos que pedem reabertura de comércio, defendeu o isolamento social e repetiu inúmeras, incontáveis vezes: “fiquem em casa”. 

Foi uma fala política, recheada de recados e até alfinetadas. “Eu espero e rezo para que aqueles que falam que não vai ser nada, que vai ser só… só… só um pequeno estresse, que isso passa logo e acaba, rezo todo dia para que estejam corretos nas suas avaliações”, afirmou Mandetta. 

No núcleo político, acredita-se que o ministro está por um triz. Horas antes de falar no sábado, esteve com o presidente e outros ministros em uma reunião no mínimo tensa. Disse ao chefe que não ficaria mais em silêncio quando ele minimizasse a pandemia e fosse de encontro às orientações técnicas e científicas. Conforme pessoas que participaram do encontro, seria com base nestes critérios e somente neles que Mandetta se posicionaria dali em diante. 

Ele foi apoiado por ministros da ala civil que estavam no encontro no Palácio da Alvorada, como Rogério Marinho (Desenvolvimento Social) e Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública). 

Após Mandetta atualizar a situação da Saúde no País, pessoas que estiveram com o presidente em seguida afirmaram que ele ficou “furioso”. Embora tivesse sido confrontado pelo subordinado antes, não se esperava que o fizesse de forma tão “enfática”, “incisiva” e “direta”, “com tantos recados”. 

Apesar disso, até este domingo (29), havia dúvidas sobre como Bolsonaro tinha recebido os recados de Mandetta dados por meio da imprensa. Depois de conversas com o clã e amigos muito próximos, ele decidiu então romper as orientações do Ministério da Saúde e de seu ministro. Foi para a rua, teve contato com apoiadores, tirou fotos e defendeu o uso de cloroquina. 

À noite, o Twitter considerou as duas postagens que o mandatário fez com os registros de suas visitas a Taguatinga e Ceilândia, bairros próximos ao centro de Brasília, impróprias, e as retirou do ar.