OPINIÃO
03/10/2019 03:00 -03 | Atualizado 03/10/2019 12:52 -03

'Coringa' é tudo isso mesmo, mas dá argumento a seus acusadores

Duro, triste, tenso, violento, pessimista, filme abre espaço para discussões quanto a suas intenções, mas é inegavelmente bom.

Não há dúvidas, Coringa, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (3), é o filme do momento. Aquele que todo mundo quer ver. Ainda mais depois de conquistar - para a surpresa geral da nação - o Leão de Ouro na última edição do prestigiado Festival de Veneza. E em uma edição presidida por Lucrecia Martel, uma cineasta argentina totalmente identificada com o cinema mais autoral.

O prêmio deu um status a Coringa que um “filme de super-herói” jamais teve. Nem mesmo, quem diria, os Batman de Christopher Nolan. Atraindo um público ainda maior de pessoas à beira de um ataque de nervos de tão ansiosos que estão para assistir.

Porém, ao mesmo tempo em que desperta a curiosidade de muitos, Coringa também gerou uma boa quantidade de detratores, descontentes com a forma como o diretor Todd Phillips retrata o famoso vilão da DC Comics, acusando o filme de enaltecer a violência e dar legitimidade a um grupo que vem crescendo em popularidade advindos das profundezas dos fóruns online: os incels (homens que não conseguem ter uma relação amorosa e que colocam a culpa em homens e mulheres que conseguem).

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Joaquin Phoenix se entrega ao papel de Coringa de forma tão doentia quanto seu personagem.

Para boa parte desses críticos, esses homens “involuntariamente celibatários” que vivem de destilar seu ódio contra as mulheres que os rejeitam, se identificarão com a imagem desse novo Coringa, que é mais vítima que algoz. E, até certo ponto, têm razão.

Que fique bem claro, Coringa é um ótimo filme, mesmo que se aproprie de elementos demais de Taxi Driver (1976), filme que homenageia. Mas é exatamente nas discrepâncias entre essas duas obras que brota a discussão sobre a “periculosidade” do filme de Phillips.

Travis Bickle (Robert De Niro) e Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) têm muito em comum, mas na história dos dois há uma grande diferença de narrativa. Enquanto nunca vemos o anti-herói de Taxi Driver sofrer na mão de ninguém a não ser ele mesmo, Fleck apanha de todas as formas.

Ele é humilhado, pisado, cuspido, sua mãe mente para ele, o único amigo que pensa ter o trai. Ele busca o amor. Ele quer levar um sorriso para o rosto das pessoas. Mas só encontra rejeição. O Coringa se transforma no Coringa porque foi provocado até ultrapassar seu limite. 

Claro que isso nos faz ter uma empatia por Fleck que em momento nenhum do clássico de Martin Scorsese desenvolvemos por Bickle. “O Coringa era até um cara de bom coração”, pensamos. É aí que mora o perigo.

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Nada é mais desesperador que a risada compulsiva de Arthur Fleck.

Mas, calma. As coisas não são tão simples assim. É verdade que nos afeiçoamos pelo personagem lindamente interpretado por Joaquin Phoenix no auge de sua arte, mas é justamente essa visão humana do super vilão a grande sacada de Coringa. Entender as razões que fazem alguém ser quem é não nos faz concordar com suas ações. Se fosse assim, serial killers seriam admirados como deuses por legiões de pessoas. Eles são personagens fascinantes, sim... Mas nós concordamos com seus assassinatos? Não, né.

Passado em Gothan City (mais conhecida como Nova York) de 1981, um período especialmente decadente da cidade, Coringa é um estudo de personagem com uma carga social quase inexistente nos filmes de seu gênero. Ele é duro, triste, tenso, violento e pessimista, e pode definir de uma vez por todas um rumo para a DC no cinema. O filme de Phillips prova que à DC resta sepultar um universo como o de sua rival Marvel e se concentrar em obras adultas e independentes.

Coringa não é uma matinê. Não serve de escada para outro filme na construção de uma mitologia pop adolescente. Ele é um filme com sustância e têm suas contradições. Que ser com um mínimo de complexidade não as tem? Ser a plataforma para infinitas discussões é a qualidade de grandes filmes, e Coringa é um desses.