ENTRETENIMENTO
25/09/2019 04:00 -03 | Atualizado 25/09/2019 04:00 -03

'Coringa' é um monte de nada

Mas, no mainstream da Hollywood de hoje, o nada vende bem.

Warner Bros.
Joaquin Phoenix, esquelético, é o ator mais recente a encarnar o vilão já tantas vezes representado.

Arthur Fleck toma sete remédios para problemas psicológicos. Ele ri incontrolavelmente, uma gargalhada estridente que sobe aos céus (ou mergulha até o inferno). Quando dança, é com os braços desajeitados esticados e o tronco encolhido numa postura maníaca. Ele curte maquiagem de palhaço e tem uma relação de co-dependência com sua mãe, de saúde frágil. Ele quer ser um comediante de stand-up, mas não entende as piadas. Quando as pessoas não o ignoram, o detonam. Seu desenvolvimento atrofiado é punido por um mundo que não se solidariza com quem tem uma doença mental. E Arthur Fleck quer morrer.

Mas então um amigo lhe dá uma arma. Eles estão em Gotham City (também conhecida como Nova York) em 1981, uma época em que o crime e o caos são implacáveis. É preciso se proteger na cidade, e de repente Arthur se anima de uma maneira que não havia feito antes. Suas transgressões resultantes chegam aos noticiários noturnos, e Arthur se sente visto, percebido. Ele muda seu nome para Coringa e vira o herói de pessoas que prefeririam pôr fogo nas ruas a promover a paz.

Arthur é um personagem de filmes, mas poderia perfeitamente bem ser alguém que aparece nos jornais noturnos reais, um dos muitos atiradores em massa ou “incels” (celibatários involuntários) rebeldes que expuseram o ethos vil da América. Ele carrega um fardo, é desprezado, é lunático. Coringa, uma história sobre a origem do vilão mais famoso do cânone de Batman, é um filme convencido de sua própria importância, apesar de o diretor Todd Phillips (Se Beber, Não Case!) insistir que “não é um filme político”.

O problema é o seguinte (e há tantos!): o Coringa não precisava de uma história sobre sua origem. A maioria dos vilões não precisa. Michael Myers é apavorante porque o Halloween original nos dá poucos indícios sobre o que motiva sua orgia matadora. Darth Vader era superior antes de sua noite escura da alma resultar em queimaduras horrendas com lava. E o Coringa, tão convincentemente macabro quando encarnado como anarquista ensandecido por Jack Nicholson (Batman) e Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas), é mais convincente sem todo o drama envolvendo sua mãe.

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"Os atores do cinema e televisão tendem a achar que grandes flutuações em seu peso são sinônimos de transcendência."

Vamos encontrar Arthur (Joaquin Phoenix, esquelético) pela primeira vez sentado diante de um espelho, aplicando pancake branca. É seu trabalho. Ele faz números de palhaço de circo em hospitais infantis e agita cartazes dizendo “Liquidação Total!” diante de estabelecimentos comerciais que estão prestes a fechar.

Quando aparece sem a maquiagem, o contraste é chocante. Conversando com uma psicóloga do serviço de saúde pública (Sharon Washington) que lhe faz perguntas padronizadas sobre seu bem-estar, Arthur está pálido e emaciado, com o rosto marcado por uma expressão de desalento profundo. “O pior de ter uma doença mental é que as pessoas querem que você aja como se não tivesse”, diz em seu diário.

Uma introdução tão empática parece assinalar que veremos um psicodrama complexo, mas este nunca chega a se concretizar. Todd Phillips, que escreveu o roteiro em parceria com Scott Silver (8 Mile – Rua das Ilusões), mostra que possui a compaixão necessária e uma verve estilística sombria, criando algo que é em parte filme de horror, em parte balada doméstica.

Aquele comentário sobre doença mental vira devastador quando as consultas da terapia de Arthur são canceladas por falta de verbas. Quando um homem solitário e angustiado perde sua única fonte de apoio, ou algo que se assemelha a isso, a quem pode recorrer? Mas é também nesse ponto que o filme desperdiça o que talvez quisesse nos dizer sobre a vilania crescente, perdido no meio de uma confusão de clichês sobre um homem que vai enlouquecendo.

Será que alguém quer que filmes baseados em HQs sejam tão destituídos de humor? Não é uma pergunta apenas da boca para fora. Imagino que certos fãs devotos da DC Comics dirão que uma arenga pessimista é exatamente o que eles querem. Mas Coringa tem um centro oco, tanto que apresenta Arthur como protagonista que vira anti-herói, sem muita nuance para conduzir essa evolução.

Ele saúda seus demônios das maneiras mais tenebrosas possíveis, e, nesse processo, se descobre. Aquela descoberta, aquela explosão de violência, leva a uma imagem perturbadoramente celebratória: o Coringa cercado por discípulos que o adoram, postados aos pés de seu novo deus ao som de uma trilha sonora em crescendo composta por Hildur Guðnadóttir (Chernobyl).  

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Seria Coringa um filme "perigoso"?

Coringa, que assisti no Festival Internacional de Cinema de Toronto, não é propriamente dito um mau filme. Desafiando a fórmula que leva a maioria das adaptações de HQs, boa parte do filme é muito bem feita. O filme exala estilo, revelando influências de Taxi Driver, O Rei da Comédia e Ilha do Medo (Martin Scorsese é um de seus produtores). Em uma sequência especialmente chamativa, o Coringa desce uma longa escadaria externa, quase dançando, sua roupa vermelha e amarela em destaque contra um céu cinzento e sombrio.

Mas esse estilo em muitos momentos se perde devido ao subtexto confuso. Mesmo depois de Arthur virar um assassino real, nada é tão assustador assim; isso torna o filme perturbador de uma maneira que Todd Phillips provavelmente não pretendeu que fosse.

Quando Arthur apunhala um homem no pescoço, ouvimos Rock and Roll, de Gary Glitter, uma canção cheia de ritmo normalmente ouvida em eventos esportivos. Quando ele sufoca uma pessoa, um flash se acende na tela, como que para banhá-lo na luz calorosa do sol. É isso o que se quer que esses crimes transmitam? Alguma espécie de descoberta ou avanço existencial?

Muito se dirá sobre a performance de Phoenix, que já está lhe rendendo comentários sobre merecer um Oscar. Seu corpo está magro a ponto de parecer doentio. Suas omoplatas se projetam em ângulos perturbadores. Sua barriga é tão côncava que provoca desconforto no espectador. Francamente, é muito. Os atores do cinema e televisão tendem a achar que grandes flutuações em seu peso são sinônimos de transcendência, mas raramente é o caso.

É fascinante ficar observando Phoenix, mas ele recorre a chavões bastante óbvios para mostrar a loucura. Tendo visto este personagem tantas vezes até agora, incluindo no péssimo Esquadrão Suicida, de 2016 (em que ele foi representado por Jared Leto), fica claro que não restam muitas dimensões do Coringa ainda a ser exploradas.

Há um limite ao que pode ser acrescentado pelos atores coadjuvantes ― Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Brian Tyree Henry, Marc Maron. E uma versão mal-pensada de Send in the Clowns, de Stephen Sondheim, acrescenta ainda menos.

Ao proporcionar a Arthur Fleck algo que concretamente é uma jornada de herói, Coringa precisa sobreviver ao teste crucial do que constitui um discurso cultural moderno. Sucesso garantido nas bilheterias, o filme será recebido com indignação por algumas pessoas e com empolgação por outras.

Temendo que admiradores jovens enxerguem a metamorfose de Arthur Fleck como um chamado às armas em um momento em que massacres a tiros são comuns na América, alguns já descreveram Coringa como um filme perigoso. Essa sugestão me parece exagerada, mas isso não significa que a questão não seja complexa.

O que nos resta é algo que é mais moderado do que dirão seus detratores mais ferrenhos, e mais sinistro do que conseguem apreender seus admiradores mais declarados. Em última análise, Coringa é um monte de nada. Mas, no mainstream da Hollywood de hoje, o nada vende bem.

Coringa estreia nos cinemas brasileiros no dia 3 de outubro.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.