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18/03/2020 08:00 -03

A Coreia do Sul surpreende o mundo com sua estratégia para conter o coronavírus

O país tinha o segundo maior número de infecções no mundo, mas em três semanas freou os contágios dramaticamente.

EFE

A Coreia do Sul tinha o segundo maior número de infecções de coronavírus no mundo, mas em três semanas freou os contágios dramaticamente graças a uma resposta que combina transparência, novas tecnologias e acima de tudo uma atitude responsável de instituições e cidadãos. 

O país asiático, que no dia 29 de fevereiro chegou a registrar 909 casos em um único dia, reportou na última terça apenas 74 novos contágios.

O presidente da Sociedade de Epidemiologia da Coreia do Sul, Kim Dong-hyun, ressaltou, como vários outros especialistas, que ainda é “cedo demais” para avaliar se a resposta do país é a correta para frear o coronavírus.

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Reunião do governo da Coreia do Sul.

De qualquer maneira, tudo indica que, com o programa de prevenção e mitigação, o país está em condições de evitar um pico agudo de casos.

O plano de ação da Coreia do Sul pode servir de lição para os países que já estão lidando com crises de saúde pública ou que estão se preparando para encará-la nas próximas semanas.

Responsabilidade coletiva

As autoridades sul-coreanas proibiram grandes concentrações, fecharam escolas e outros espaços públicos (parques, centros esportivos, centros comunitários e creches) e cancelaram todas as competições esportivas logo que se identificou o foco na cidade de Daegu, no sudeste do país. 

Em Seul, capital e maior cidade do país, com 9,7 milhões de habitantes, anunciou-se o fechamento de espaços públicos e foram proibidas as manifestações públicas por volta de 21 de fevereiro, quando havia apenas cerca de 150 casos registrados. Hoje, são mais de 8.000.

Cabe lembrar que a Coreia do Sul só impediu a entrada de quem esteve na província chinesa de Hubei, onde o vírus se originou. Nenhuma cidade ou região foi isolada, incluindo Daegu e a província próxima de Gyeongsang do Norte, principal foco de contágios no país e cujos 7 milhões de habitantes respondem por 87% do total de casos do país.

Não houve proibições de sair à rua ou de sair de  cidades, como na China, Espanha ou Itália.

“Não houve proibições de sair à rua ou de sair de cidades, como na China, Espanha ou Itália”, diz à agência de notícias Efe uma mulher cuja família está em Daegu e que pediu para ser identificada apenas pelo seu sobrenome, Kim.

“Em 20 de fevereiro, assim que se descobriu o foco da doença, a prefeitura pediu que as pessoas só saíssem de casa se fosse estritamente necessário. É isso o que a imensa maioria dos cidadãos tem feito há quase um mês”, diz ela, orgulhosa.

Transparência e muita comunicação 

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças Contagiosas da Coreia do Sul (KCDC) é uma referência mundial graças à quantidade de informações detalhadas que publica diariamente, com pontualidade impecável.

A grande quantidade de dados ajuda especialistas e cidadãos – que se sentem mais seguros quando dispõem de informações – a entender melhor o vírus e a doença.

Já o sistema de alerta nacional por meio de celulares avisa os habitantes das regiões onde se registram os casos em sua área e inclui informações detalhadas sobre os locais por onde passou a pessoa infectada.

O objetivo não é que as pessoas evitem esses lugares – eles são imediata e exaustivamente desinfetados ―, mas sim para que quem passou por lá fique atento para eventuais sintomas.

As instituições sul-coreanas também fizeram desde cedo um esforço de conscientização sobre práticas de higiene, uso de máscaras, teletrabalho, a necessidade de ficar em casa se houver sintomas e o distanciamento social. As mensagens são onipresentes nas ruas, no transporte público e nos meios de comunicação.

Desde o começo da crise, as autoridades de saúde vêm fazendo pronunciamentos na TV duas vezes por dia, anunciando o número de novos casos e mortes, bem como mudanças na situação geral do país.

Além disso, todos os governos locais fazem anúncios diários sobre a situação em suas regiões, por meio de entrevistas coletivas, mensagens de texto e notificações de emergência enviadas aos celulares.

Muitos testes

Junto com o Bahrein, a Coreia do Sul é o país que mais vem fazendo testes (mais de 5.370 por milhão de habitantes), ainda que seja bom notar que mais de 70% dessas análises tenham sido feitas entre membros da seita cristã Shincheonji, origem do foco de Daegu e um grupo de fácil rastreamento.

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Um dos centros de testes da Coreia do Sul.

Além da capacidade para realizar os testes em grandes quantidades, há um sistema rígido para determinar quem vai ser testado – para garantir que os kits de análise sejam otimizados.

Fazer muitos testes assim que se identifica um foco de contágio ajuda a ganhar tempo (para estabelecer instalações hospitalares de apoio que tratem casos menos graves). Mas a maioria dos países não terá os mesmos recursos à disposição do governo sul-coreano.

Em vários locais, só quem tinha sintomas avançados podia fazer o teste. É fundamental estabelecer um sistema (com campanhas públicas agressivas de conscientização) para garantir que as pessoas que tenham sintomas leves ou não pertençam a grupos de risco façam quarentena, apesar de não terem sido testadas.

Apoio tecnológico

O governo sul-coreano desenvolveu dois aplicativos para celulares, a fim de acompanhar os sintomas de pessoas que possam estar infectadas e, portanto, possam propagar a doença ainda mais.

Um deles é de uso obrigatório para quem chega ao país de outras zonas de risco (hoje em dia China, Hong Kong, Macau, Irã e praticamente toda a Europa).

Os viajantes são obrigados a responder um questionário diário sobre a presença de sintomas; em caso positivo, eles são direcionados a uma central telefônica que administra a realização de testes.

O outro app simplesmente alerta funcionários públicos quando uma pessoa em quarentena sai da zona de isolamento. Ainda assim, a responsabilidade de cada indivíduo é essencial neste caso, já que o download do aplicativo não é obrigatório.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost ES e traduzido do espanhol.