MULHERES
07/07/2019 09:10 -03 | Atualizado 07/07/2019 09:15 -03

Copa 2019: O mundial da visibilidade para as mulheres - dentro e fora de campo

Por que este campeonato foi tão importante para as mulheres, atletas e para o esporte como um todo.

A Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019 chega ao fim neste domingo (7). A partida do título, que será disputada entre EUA e Holanda, ocorre em Lyon com estádio lotado - ingressos esgotados há tempos. A expectativa para o encerramento não podia ser melhor após um mês de um evento de ponta que atraiu atenção de milhões de espectadores e torcedores pelo mundo. Coisa que o esporte faz mesmo. No entanto, a movimentação não era tão comum em torno dessa modalidade.  

Na última edição do evento, em 2015, no Canadá, as coisas já começaram a mudar e houve mais atenção e cobertura por parte da imprensa. Mas foi no mundial deste ano que o assunto realmente ganhou mais espaço e conseguiu ampliar alguns debates e reflexões sobre o setor. 

A seguir alguns dos destaques que mostram por que a Copa deste ano foi o evento da visibilidade para as mulheres e para o esporte.    

Maior espaço na mídia

Nacho Doce / Reuters
No Brasil, pela primeira vez a TV Globo, maior emissora do país, transmitiu todos os jogos da seleção em TV aberta, ampliando consideravelmente o alcance dos jogos.

Não foi a primeira vez em que se falou sobre isso, claro, mas certamente foi a vez em que mais se falou. O evento, que ocorre desde 1991, teve um espaço diferente em 2019. No Brasil, pela primeira vez a TV Globo, maior emissora do país, transmitiu todos os jogos da seleção em TV aberta, ampliando consideravelmente o alcance dos jogos. Fora isso, pela TV paga e internet, foi possível acompanhar as outras partidas do campeonato.

Outro destaque é que a mídia não se limitou a transmitir os jogos. Foram feitas também matérias e reportagens sobre o assunto. “Acho que é um processo crescente, se olharmos para a cobertura da copa de 2015 já conseguimos ver uma mobilização muito grande em produzir conteúdo e informação com mais qualidade. E neste ano a gente viu uma mudança muito significativa, as pessoas estão muito mais relacionadas com essa seleção, sabem dizer nomes de jogadoras, inclusive algumas iniciantes”, avalia Aira Bonfim, historiadora e pesquisadora da área.  

Daniela Alfonsi, diretora de Conteúdo do Museu do Futebol, destaca também o tratamento que o evento teve. “Foi notável a preocupação da mídia esportiva, dominada por repórteres, narradores e comentaristas homens, em não errar ao apresentar os jogos femininos. Ainda que lapsos tenham ocorrido, como o ‘autoriza o árbitra’ no jogo de estreia do Brasil, houve uma clara proposta de falar sobre o jogo feminino tal como se fala sobre o jogo masculino, com profissionalismo. Essa mudança no tom é fruto da pressão que vem do público mais engajado com a causa da igualdade de gênero, que não perdoa – nem deveria – discursos machistas”.  

Ainda que lapsos tenham ocorrido, como o ‘autoriza o árbitra’ no jogo de estreia do Brasil, houve uma clara proposta de falar sobre o jogo feminino tal como se fala sobre o jogo masculino, com profissionalismo.Daniela Alfonsi, diretora de Conteúdo do Museu do Futebol

Além disso, no Brasil, também foi a primeira vez que uma mulher assumiu o posto de comentarista dos jogos na TV aberta e houve grande preocupação em enviar equipes para a cobertura e abrir espaço para profissionais mulheres. 

Recordes de vendas de ingressos e audiência 

Jean-Paul Pelissier / Reuters
Mais de 1 milhão de ingressos foram comprados por fãs de futebol de todo o mundo, com muitos jogos esgotados.

Junto com o espaço que conseguiu na mídia, vieram os números - super - positivos do evento. Neste ano, foi registrado recorde de ingressos vendidos e diversas marcas expressivas de audiência.

Ignacio Toro, diretor de marketing do World Football Summit, o principal evento internacional da indústria do futebol, destaca esse alcance. “Esta Copa do Mundo estabeleceu recordes históricos em diferentes áreas. Mais de 1 milhão de ingressos foram comprados por fãs de futebol de todo o mundo, com muitos jogos esgotados. No público de TV, na Inglaterra, o recorde foi batido 4 vezes: 6,1 milhões [de espectadores] contra a Escócia, 6,9 milhões contra Camarões, 7,6 milhões contra a Noruega e 11,7 milhões contra os EUA (50% do público disponível no Reino Unido), tornando-se o evento mais visto no Reino Unido durante 2019. Nos EUA, vimos picos de 9 milhões de espectadores; Itália um recorde de 7,3 milhões de espectadores; e Alemanha quase 8 milhões.”

O Brasil também registrou recordes de audiência com mais de 30 milhões de espectadores na partida contra a França, mostrando que as pessoas estavam sim interessadas em acompanhar o evento. 

 Interesse do mercado e de grandes marcas

Marcio Machado via Getty Images
Pela primeira vez na história, a seleção Brasileira teve um uniforme exclusivo e à venda no varejo. 

Atraiu ainda uma avalanche de investimentos publicitários. “A Copa do Mundo 2019 está sendo um marco importante não apenas para o futebol feminino, mas para o esporte. Vimos um aumento expressivo em relação à cobertura da mídia e estamos vivenciando o despertar das marcas para as atletas femininas, ainda que não se compare ao valor dado aos jogadores”, avalia Carlota Planas, CEO e fundadora da Be Universal, uma plataforma exclusiva para atletas femininas que ajuda a impulsionar suas carreiras.  

Neste ponto, houve inclusive recorde registado no mundial, como destaca o diretor de marketing do World Football Summit. Se você olhar para o setor de varejo, a camisa USA Women se tornou a camisa mais vendida da Nike em uma temporada”. No Brasil, também ocorreu uma novidade nessa área. “A seleção Brasileira teve um uniforme exclusivo e à venda no varejo pela primeira vez na história, desde que a CBF criou a equipe em 1988”, conta Daniela.  

Aira acrescenta a relevância da presença dos patrocinadores. “Tem gente que percebeu que isso seria um grande mercado. Não tem por que não investir em um público que compõe 50% da população. As empresas estão colhendo frutos dessa aposta”.  Para Daniela, essa já é, inclusive, uma das contribuições que o evento deixa. “Acredito que o principal legado é o interesse publicitário: marcas que se posicionaram sabem que não podem ignorar o tema daqui para a frente”. 

Acredito que o principal legado é o interesse publicitário: marcas que se posicionaram sabem que não podem ignorar o tema daqui para a frenteDaniela Alfonsi

 Avanço técnico da modalidade

Richard Heathcote via Getty Images
Alex Morgan, da seleção dos Estados Unidos, foi um dos destaques.

O desempenho das equipes no mundial também chamou atenção. “Na área de esportes e performance, esta Copa mostrou a rápida evolução que o futebol feminino tem experimentado. Jogadoras talentosos, treinadoras e árbitras de primeira linha e um evento esportivo que está elevando o nível cada vez mais”, explica Ignacio. 

Daniela também coloca essa questão como um dos pontos altos do evento. “Um dos destaques foi sobre o avanço técnico da modalidade, especialmente ao ver as seleções europeias e a norte-americana em campo. Foi o principal comentário sobre a Seleção Holandesa, que venceu outra mais tradicional no jogo feminino, a Sueca, na semifinal e todos ressaltaram como isso foi fruto de organização e investimento”

Mas a especialista faz uma crítica ao Brasil nesse quesito. “Gostaria, no entanto, que nossa mídia falasse com mais crítica sobre a situação do futebol feminino no Brasil, o quanto nos distanciamos do nível técnico que outros países alcançaram. O Brasil está perdendo destaque mundial (e não apenas no feminino, se olharmos com menos paixão...) e quem é da área sabe o quanto isso é fruto de um sistema de comando dentro das organizações que precisa ser urgentemente mudado.” 

 Destaque de lideranças femininas

VI-Images via Getty Images
Sarina Wiegman, treinadora da Holanda, é exemplo de que as transformações na modalidade vieram a partir de uma perspectiva feminista.

Este foi também o mundial que colocou em evidência mulheres ocupando todos os postos dentro do esporte. “Nesse último afunilamento, das 8 seleções, 5 tinham mulheres nas direções das equipes. Isso é inédito, isso é importante, isso é significativo. Então se é difícil uma mulher ser jogadora, é muito mais difícil ascender a esses cargos de comando e direção porque se naturalizou que a mulher era incapaz de estar nesses lugares”, explica Aira. 

Para Daniela, além de importante, isso não é um acaso. “As 4 finalistas da Copa são treinadas por mulheres e isso não é uma mera coincidência. As grandes transformações na modalidade vieram a partir de uma perspectiva feminista, mais do que feminina. Sabemos que a desigualdade de gênero é estrutural na nossa sociedade ocidental e a mudança não virá de quem naturaliza essa desigualdade ou de quem teima em não vê-la”.

Neste domingo, EUA e Holanda entram em campo com suas treinadoras: Jill Ellis e Sarina Wiegman.

 Universo fora do campo

Alex Grimm via Getty Images
Marta com chuteira sem logo em prol da igualdade de patrocínio no esporte. 

Já está claro que a Copa do Mundo entregou um evento esportivo de qualidade e de interesse das pessoas. Mas não foi só isso. O mundial levantou ainda diversas outras discussões de assuntos relevantes para o esporte e para as mulheres.

Chamou atenção do mundo para a falta de recursos, de investimentos e de visibilidade do futebol feminino e com isso atraiu interesse da mídia e de patrocinadores. Porque, no fim, é isso que falta para que as próximas gerações tenham ídolos de referência no futebol feminino. Não é uma questão de ‘mulher não sabe jogar futebol’, e sim de que as crianças não crescem tendo acesso às jogadoras de futebol como têm aos jogadores. Não passa na televisão aberta, não sai na capa dos jornais... É uma questão de falta de visibilidade, e isso está ficando cada vez mais claro. Outros esportes como o tênis, a ginástica, o atletismo e o vôlei estão à frente e o futebol vai chegar lá também”, avalia Carlota.

Não é uma questão de ‘mulher não sabe jogar futebol’, e sim de que as crianças não crescem tendo acesso às jogadoras de futebol como têm aos jogadores.Carlota Planas, CEO e fundadora da Be Universal

Daniela corrobora esse movimento. “Outro destaque foram as desigualdades fora de campo: salários, patrocínios, condições de treinamento e carreira. Acho que em 2019 o assunto foi realmente levado à sério, sem cair naquele discurso de que essa realidade é fruto da ‘falta de interesse pelo produto’. Os recordes na venda de ingressos e nas audiências dos jogos, espero, que enterre de vez essa falácia”. 

 Algumas jogadoras realmente abraçaram causas extra-campo como Marta, que usou uma chuteira sem patrocínio com o símbolo azul e rosa da campanha #GoEqual, da qual a atacante faz parte e que chama a atenção para a questão da igualdade de gênero no futebol. Outras atletas também se envolveram em debates como a francesa Wendie Renard que foi alvo de comentários racistas - e respondeu com mensagens de encorajamento às novas gerações - e a americana Megan Rapinoe que se envolveu em discussões com o presidente de seu país, Donald Trump. 

Esses desdobramentos fora de campo mostram que não se está falando apenas de futebol. É algo maior do que isso. “Este evento transcende o campo esportivo, pois define a agenda de diversidade, inclusão e oportunidades para meninas e mulheres através do futebol e seus valores inerentes ao fair play, trabalho em equipe e resiliência. Também contribuiu para mudar percepções e imagem do futebol feminino, em particular com o fato de que o futebol é para meninas/mulheres e meninos/homens igualmente”, finaliza o diretor de marketing do World Football Summit.

Abriu portas para novas gerações

VALERY HACHE via Getty Images
"Temos que continuar desnaturalizando a ideia de que mulher e futebol não combina, qualquer pessoa é capaz de se envolver com isso."

Agora, com o fim da Copa do Mundo neste domingo, parece que a briga passa a ser outra. A unanimidade é que, apesar dos bons resultados e boa repercussão, ainda há muito a ser feito e o assunto não pode cair no esquecimento.

“[O próximo desafio é] não deixar que a repercussão da Copa do Mundo fique apenas em 2019 e se limite ao evento organizado pela FIFA. [Tem que] continuar chamando atenção do público, cobrando das federações, dos clubes, das seleções, da mídia, de patrocinadores. [Tem que] apoiar outros esportes em que a categoria feminina ainda não tem o merecido reconhecimento ou representatividade, como por exemplo a Fórmula 1”, defende Carlota. 

Aira destaca que após esse primeiro passo é momento de novas reflexões. “Se a gente pedia visibilidade, a gente conseguiu visibilidade. Agora é pensar criticamente para onde deseja caminhar o futebol praticado pelas mulheres. Temos que continuar desnaturalizando a ideia de que mulher e futebol não combina, qualquer pessoa é capaz de se envolver com isso seja em qual âmbito for, como jogadora, técnica, torcedora, pesquisadora. Acho que temos que mobilizar reflexões mais aprofundadas sobre o esporte que a gente quer no futuro”. 

Se a gente pedia visibilidade, a gente conseguiu visibilidade. Agora é pensar criticamente para onde deseja caminhar o futebol praticado pelas mulheres.Aira Bonfim, historiadora e pesquisadora

Para Ignacio, o desafio está em conseguir realizar uma mudança mais estrutural. “A indústria do futebol e do esporte precisa reconhecer que a participação das mulheres melhora o setor, agregando diversidade de talentos e ideias, independentemente do esporte. O próximo passo é estabelecer metas claras na agenda do futebol e do esporte, alocando recursos financeiros e humanos”. 

A bola já está em campo. Que venha a próxima partida.