MULHERES
15/06/2019 08:09 -03

Quer combater o sexismo no futebol? Comece apoiando a Copa do Mundo feminina

Reconhecer a excelência do futebol profissional feminino pode incentivar o progresso em todos os níveis do esporte.

Johannes Simon - FIFA via Getty Images
Em jogo contra a Austrália, Marta Silva mostra chuteira sem cores ou patrocínio pedindo por igualdade de gênero no futebol.

A Copa do Mundo de Futebol Feminino definitivamente começou. E por mais  que estejamos melhores em termos de visibilidade, em comparação com outros anos, a divulgação e cobertura da mídia estão fracas se compararmos com a Copa do ano passado – que não usa o termo “masculino” no nome oficial do evento.

Os homens têm dificultado o avanço do futebol feminino com comportamentos que vão desde proibir a participação de mulheres no esporte no passado, até a criação de ambientes tóxicos em clubes profissionais e seleções nacionais. As leis que proíbem mulheres de jogar futebol são raras hoje, mas escândalos de assédio sexual, casos de discriminação de gênero e comentários sexistas são frequentes no mundo do esporte. As histórias recentes envolvendo as seleções colombiana, americana e brasileira e o time canadense Vancouver Whitecaps são apenas alguns exemplos disso. 

Diana Sanchez/AFP/Getty Images
Jogadoras da seleção colombiana de futebol feminino denunciaram casos de abuso sexual, assédio e discriminação. 

No nível do futebol recreativo – sem as pressões financeiras e a disparidade da cobertura da mídia e de interesse dos espectadores, problemas que afetam o futebol profissional –, as relações de gênero no futebol devem ser muito melhores. Ou não?

Em nossa condição de sociólogos interessados na modalidade, analisamos partidas de futebol de salão mistas (com homens e mulheres) em uma universidade canadense e revisitamos estudos sobre o tema já existentes.

A conclusão à qual chegamos foi que os ambientes esportivos mistos continuam a ser altamente dominados por homens e que os papéis de homens e mulheres continuam sendo diferenciados.

Em nosso estudo piloto, documentamos 1.349 passes completados em partidas, dos quais 57% ocorreram entre homens. Os passes de mulheres para mulheres formaram apenas 5% do total.

As mulheres ou acabam sendo vistas como uma exceção à visão de que os homens são melhores nos esportes ou como um exemplo que vem comprovar essa ideia.

Os passes de mulher para homem e homem para mulher representaram cada um cerca de 19% dos passes completados (geralmente dois homens e duas mulheres jogaram no campo externo, além de um goleiro homem).

Observamos várias ocasiões em que jogadores homens optaram por jogadas menos evidentes no lugar de passar a bola para uma colega de time mulher que estava em uma posição boa no campo.

Além disso, as mulheres eram frequentemente relegadas a papéis secundários, como colocar a bola em campo de novo quando tinha saído da quadra, e raramente participavam de contra-ataques rápidos, por exemplo.

Há muitas explicações possíveis para essas disparidades, como vieses de gênero arraigados, mais experiência de futebol ou diferenças biológicas de base sexual (variáveis que não pudemos isolar por meio da observação direta).

Contudo, independentemente dos fatores em jogo, não podemos ignorar que as ações altamente valorizadas no jogo se enquadraram fortemente em uma categoria de gênero.

Mike Carlson, Filel/AP Photo/CP Images
A seleção de futebol feminino norte-americana recentemente moveu uma ação contra a U.S. Soccer Federation por discriminação de gênero, por queixas que incluem disparidade de remuneração.

Em um esporte supostamente inclusivo e “misto”, o fato de homens terem marcado 90% dos gols e realizado 80% dos lances é problemático.

As ligas mistas parecem reafirmar estereótipos já existentes e, por isso, fazem pouco para contestar as desigualdades de gênero no esporte. As mulheres ou acabam sendo vistas como uma exceção à visão de que os homens são melhores nos esportes ou como um exemplo que vem comprovar essa ideia.

Estudiosos do esporte analisaram ligas mistas com modificações de regras que visam igualar as condições de jogo de homens e mulheres (por exemplo as regras sobre ordens de tacadas no softball, contar os touchdowns de mulheres como nove em vez de seis pontos no “flag football”), mas esses esforços chamaram ainda mais atenção para a disparidade de gênero e desvalorizaram o desempenho de atletas mulheres altamente habilidosas. Por isso mesmo essas regras foram apelidadas de “sexismo benevolente”.

Um estudo realizado há 20 anos sobre futebol chegou a conclusões semelhantes às nossas e chamou a atenção para o fenômeno conhecido como “stacking”: a colocação de homens em posições mais centrais no campo e o rebaixamento das jogadoras mulheres para posições mais marginais.

Hannah Peters/FIFA via Getty Images
A secretária geral da Fifa, Fatma Samoura, discursa na Convenção de Futebol Feminino da Fifa em Paris, na quinta-feira 6 de junho de 2019.

E o “stacking” não ocorre apenas nos campos de futebol. A maioria dos cargos políticos e executivos no futebol é ocupada por homens. Fatma Samoura é desde 2016 a primeira mulher a ser secretária-geral da Fifa, mas o Conselho da Fifa (o órgão decisório central da federação) é composto de 37 membros, apenas seis dos quais mulheres. Nenhuma dessas mulheres ocupa uma das oito vice-presidências da entidade.

Foi apenas em outubro de 2018 que a Fifa lançou a Estratégia do Futebol Feminino, seu primeiro esforço para promover o futebol feminino ao nível mundial. Mesmo nesta Copa do Mundo Feminina, 14 das seleções nacionais participantes são treinadas por homens.

Uma abordagem centrada nas mulheres

NurPhoto via Getty Images
A jogadora brasileira, Marta Silva, já foi eleita por 6 vezes a melhor jogadora do mundo.

É claramente difícil cortar os laços de longa data entre o esporte mais popular do mundo e o patriarcado. Hoje o torcedor mediano pode estar mais consciente dos problemas de racismo e homofobia no futebol do que no passado, mas as questões de gênero e sexismo no esporte permanecem em grande medida relegadas ao segundo plano.

Assim, o chamado lançado por estudiosas feministas radicais por estratégias separatistas é altamente pertinente ao futebol. O combate à igualdade norteado por uma abordagem centrada nas mulheres evitaria o “sexismo benevolente” do esporte misto e exigiria imediatamente que as mulheres tivessem espaços de representação no campo e fora dele. Esse esforço ganharia peso ainda maior com a mudança cultural mais ampla, se bem que as perspectivas disso ocorrer muitas vezes parecem pequenas.  

O número médio de espectadores nas partidas da maior liga feminina de futebol da Alemanha é 850 pessoas. E isso num país cuja seleção feminina já foi campeão europeia, olímpica e mundial. Mas acontecimentos recentes nos dão alguns motivos para ter esperança.

Em março deste ano mais de 60 mil torcedores lotaram o estádio Metropolitano de Madri para assistir ao jogo mais aguardado dos melhores times de futebol feminino da Espanha, o embate entre Atlético Madri e Barcelona. Foi um novo recorde de público mundial. Na França, o país que sedia a Copa Feminina deste ano, 26 mil torcedores marcaram em abril um recorde de público da liga nacional feminina do país.

No Brasil, ainda não existe uma mobilização grande e contínua do público para assistir à modalidade. Mas o país já chegou a números significativos. Segundo o Dibradoras, blog especializado na modalidade, em Manaus (AM), um estado em que os times locais de futebol não atraem mais de mil pessoas para o estádio, uma equipe feminina já colocou mais de 25 mil pessoas na Arena da Amazônia para um jogo do Brasileiro.

De acordo com a ESPN, em julho de 2017, o time Sereias da Vila, de Santos, conseguiu quebrar um recorde do time masculino. O time enfrentou o Corinthians na Vila Belmiro pela partida de ida da final do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino diante de um público de 15 mil pessoas. Até então, o maior público recebido pelo time masculino da baixada tinha sido contra o The Strongest, da Bolívia, pela Libertadores, com 13.132 pessoas. 

E a popularidade crescente do futebol feminino pode acabar também beneficiando as relações de gênero nas situações de esporte misto. Uma mudança de percepção no palco mundial pode ajudar a enfraquecer estereótipos e levar mais igualdade aos jogos amadores, incentivando os jogadores homens a enxergar suas colegas mulheres como colegas de equipe em pé de igualdade com eles.

A Copa do Mundo de Futebol feminino pode não ser um dos eventos que mais recebe atenção da mídia, como nunca foi, mas deve ser festejada pelo que é: uma exibição de excelência no futebol das melhores jogadoras do mundo, um exemplo do que atletas podem realizar como jogadoras em campo e exemplos a ser seguidos por outras mulheres fora de campo, um passo na direção correta da igualdade na participação e apreciação do esporte.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canada e traduzido do inglês.