MULHERES
01/06/2019 01:00 -03 | Atualizado 01/06/2019 01:00 -03

A melhor Copa do Mundo de futebol feminino está prestes a começar

O torneio de 2019 vai destacar a importância crescente do futebol feminino e a necessidade de ainda mais investimento no esporte.

HuffPost Illustration/Getty Images
Fique de olho em craques impressionantes como a francesa Amandine Henry, a australiana Sam Kerr, a brasileira Marta e a americana Alex Morgan (da esquerda para a direita).

Quatro anos depois de a seleção de futebol feminino dos EUA conquistar sua terceira Copa do Mundo, as americanas vão chegar ao torneio de 2019 como favoritas absolutas para virar tetracampeãs.

Mas elas vão encarar alguns dos maiores talentos da história do futebol feminino.

A Copa de 2019 será a oitava desde que a Fifa lançou o torneio feminino, em 1991, e terá lugar na França a partir de 7 de junho. Nada menos que seis seleções acham que têm condições de disputar o título. Algumas outras têm o potencial de jogar bem e surpreender. E algumas outras seleções novas também vão querer ser vistas.

Esse nível de competição, além da participação de um número maior de seleções nacionais – serão 24 este ano — é um sinal do crescimento do futebol feminino no mundo nas quase três décadas passadas desde a primeira Copa. E comprova que mais investimentos poderiam fortalecer ainda mais a popularidade do futebol feminino no mundo.

Possibilitado por investimentos maiores das federações nacionais, pela ampliação das ligas nacionais e por um engajamento incansável com o esporte, principalmente por parte das mulheres que o praticam, esse crescimento provavelmente fará da Copa 2019 a mais emocionante da história do futebol feminino. E pode até resultar numa nova potência suprema no esporte: as seleções mais bem cotadas incluem vários países, especialmente França e Inglaterra, que têm a esperança de conquistar sua primeira Copa feminina.

Mas se depender das campeãs atuais, elas não vão conseguir.

A seleção americana, que vai estrear na Copa no dia 11 de junho enfrentando a Tailândia, ainda é a melhor do mundo, especialmente quando suas jogadoras estão com a bola. E isso acontece com frequência.

No ataque, Alex Morgan e suas colegas Tobin Heath e Megan Rapinoe são capazes de deixar as defensoras adversárias desnorteadas e acumular gols. Quando a seleção precisa de reforços no ataque, a treinadora Jill Ellis pode recorrer a Christen Press, veterana de outra Copa, à estrela em ascensão Mallory Pugh ou ainda a Carli Lloyd, heroína de 2015, para subjugar as defensoras cansadas. Qualquer treinador daria tudo para contar com esse grupo de seis atacantes.

Veja alguns de seus melhores momentos:

A questão para os Estados Unidos é o que acontece atrás dessas atacantes, especialmente quando enfrentam adversárias mais temíveis do que as americanas encararam nos treinos classificatórios ou nos amistosos pré-Copa.

Liderado por Lindsey Horan ― uma craque legítima, jogadora mais votada da Liga Nacional de Futebol Feminino em 2018 – e pela arrasadora Julie Ertz, o meio de campo é imbatível, mas pareceu desconjuntado em alguns momentos dessas partidas classificatórias, especialmente na hora de mandar a bola para as atacantes. Ellis vai precisar que Rose Lavelle jogue como a força criativa que ela é capaz de ser, senão ela será obrigada a mudar a escalação para que a craque Sam Mewis possa entrar em campo mais vezes.

A defesa americana também é uma questão em aberto. Depois de sofrer sete gols em quatro partidas nesta primavera contra outras seleções que estarão na Copa, elas não deixaram suas últimas quatro adversárias marcarem nenhum gol. Isso é sinal de progresso ou apenas que a concorrência estava mais fraca?

Os EUA têm em Crystal Dunn e Kelly O’Hara duas defensoras que são capazes de complementar o ataque tanto quanto jogar na defesa. Mas, enquanto a corajosa Becky Sauerbrunn vai disputar sua terceira Copa, qualquer de suas três potenciais colegas no centro da defesa vai estar jogando pela primeira vez num palco tão grande. E a seleção americana tem um rosto novo no gol. Somando tudo isso, há questões suficientes em aberto para deixar os torcedores americanos pelo menos um pouco preocupados.

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Alex Morgan (camisa 13) lidera um ataque americano de talento que pode conduzir a seleção feminina dos EUA para seu quarto título mundial.

Mas essa situação não é novidade para Jill Ellis e sua seleção. As americanas estavam jogando mal e fora de sintonia na fase de classificação para a Copa de 2015 e até as quartas de final do torneio. Mesmo assim, acabaram derrotando a Alemanha e o Japão para levar o troféu para casa.

A seleção americana tem condições de repetir o feito mais uma vez. Mas que ninguém se surpreenda se outra equipe nacional ocupar seu lugar no trono.

 

As seleções favoritas

França: A França possui uma das melhores academias de formação de jogadoras, possivelmente sua melhor liga feminina, e tem no Olympique Lyonnais com certeza seu melhor time de futebol feminino. A única coisa que ainda lhe falta é uma Copa. Agora, Les Bleues terão a chance de ganhar seu primeiro título mundial em seu próprio país, um feito que nenhuma seleção, masculina ou feminina, conseguiu desde a seleção feminina americana em 1999.

Um sinal da força francesa: a treinadora Corinne Diacre não escalou para a seleção a maior goleadora da liga francesa, Marie-Antoinette Katoto, optando por atacantes mais experientes em lugar da craque de 20 anos que marcou 22 pontos na temporada passada.

Quatro jogadoras do Lyon formam a espinha dorsal desta seleção: a centroavante Eugenie Le Sommer, a meio-campista Amandine Henry, a zagueira Wendie Renard e a goleira Sarah Bouhaddi carregaram seu time para um título europeu em maio. Ganhar a Copa do Mundo em seu próprio país este ano faria da França a campeã do futebol masculino e também feminino.

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Amandine Henry (camisa 6) e a seleção francesa vão disputar o primeiro título mundial do país no futebol feminino.

Inglaterra: Como é o caso na França, o futebol feminino da Inglaterra se beneficia de anos de desenvolvimento encabeçado por seus clubes ricos e pela Football Association (FA) inglesa. Depois de sofrer uma derrota muito triste na semifinal quatro anos atrás, este ano as Três Leoas (o apelido da seleção feminina inglesa) são colocadas entre as favoritas.

A Inglaterra tem um ataque forte, com Nikita Paris, Ellen White e Beth Mead formando um trio potencialmente poderoso. Ela se destacou na primavera deste ano quando as Leoas derrotaram as seleções do Japão e do Brasil e empataram com os Estados Unidos para chegar à vitória na Copa SheBelieves.

 

Alemanha: A seleção bicampeã não leva o troféu para casa desde 2007, e, apesar do ouro conquistado na Olimpíada do Rio, em 2016, sua hegemonia no futebol feminino europeu se enfraqueceu um pouco. Mas a Alemanha ainda é a segunda no ranking mundial e tem tudo para se igualar aos Estados Unidos em julho, virando tricampeã mundial. A capitã Dzenifer Maroszan é a estrela da equipe: essa meio-campista, terceira colocada na votação da melhor jogadora da Fifa em maio, é uma das maiores craques do mundo.

 

Japão: O Japão está um pouco no segundo plano se comparado às outras seleções favoritas, mas convém não duvidar muito de seu valor. O Nadeshiko, apelido dessa seleção, pegou a equipe americana de surpresa e ganhou a Copa em 2011, chegando à final novamente quatro anos atrás. A seleção atual é jovem e inexperiente. Conquistar uma medalha de ouro nas Olimpíadas de 2020 em Tóquio é uma de suas maiores prioridades. Este ano ela já derrotou o Brasil e empatou com os EUA e a Alemanha. É bem possível que alcance sua melhor forma exatamente no momento certo.

 

As seleções que podem surpreender

Holanda: Se há uma seleção pronta para explodir no cenário mundial este ano, é a holandesa. É a segunda vez que a Holanda vai participar da Copa – ela perdeu para o Japão nas oitavas de final quatro anos atrás ―, mas nenhuma outra seleção progrediu mais desde então. A Holanda derrotou a Suécia e a Inglaterra a caminho de um título europeu em 2017 e tem em Vivianne Miedema e Danielle Van de Donk duas das jogadoras mais instigantes que vão para o campo na França.

Brasil: As brasileiras chegaram à final da Copa de 2007 e ganharam medalhas de prata nas Olimpíadas de 2004 e 2008, mas ainda não ganharam o título máximo. Será que 2019 pode ser o ano delas? Se isso acontecer, será graças à geração atual de craques: Formiga, Cristiane, Barbara e mais especialmente Marta – seis vezes eleita jogadora do ano e provavelmente a maior jogadora de futebol feminino de todos os tempos. Todas elas provavelmente vão participar de sua última Copa este ano. As brasileiras podem surpreender, mas seus resultados recentes não foram bons: o Brasil perdeu nove partidas consecutivas a caminho da França, todas contra times da qualidade das seleções que elas terão que derrotar se quiserem ter um resultado melhor que a decepcionante eliminação nas oitavas de final quatro anos atrás.

 

Austrália: A seleção australiana é boa o suficiente para levar o título para casa? Talvez não. Suas jogadoras serão as mais bem vestidas da Copa, ou pelo menos as que terão os uniformes mais diferenciados? Sem sombra de dúvida. E elas contam com Sam Kerr, uma das melhores atacantes do mundo, uma jogadora que é emocionante assistir em campo. A Austrália dificilmente será a campeã. Mas The Matildas, outra seleção que se beneficiou dos investimentos crescentes em sua liga nacional, são boas, capazes de dar trabalho às adversárias, e Sam Kerr é um terror. Seleção alguma que as enfrentar em qualquer ponto desta Copa poderá encarar a partida despreocupada.

É bom ficar de olho também nas seleções do Canadá e da Suécia. 

As histórias

 

Investimento no futebol feminino: Alguns poucos países dominam o futebol feminino por uma razão muito simples. Liderados pelos Estados Unidos, esses países vêm injetando mais dinheiro e atenção no esporte que seus pares. Mas sua hegemonia vem diminuindo, com mais países investindo mais dinheiro e atenção do que antes no futebol feminino.

Em alguns casos o esforço começou há uma década. Os talentos que França, Inglaterra, Holanda e Austrália vão levar à Copa são os frutos de investimentos e esforços concentrados de federações nacionais e clubes desses países.

Uma vitória da França ou da Inglaterra seria especialmente significativa: nos dois países as mulheres foram proibidas de jogar futebol em times organizados durante a maior parte do século 20, mas sua persistência em enfrentar décadas de discriminação oficial acabou forçando as federações nacionais e os maiores clubes a ceder. Agora qualquer um desses dois países pode estar prestes a ser campeão mundial de futebol feminino pela primeira vez (e, no caso da Inglaterra, isso representaria o primeiro título importante no futebol desde 1966).

Em outros países o investimento no futebol feminino é ainda mais recente. A Espanha tem uma liga feminina desde 1988, mas ela só entrou para sua liga principal em 2015. Hoje em dia a federação espanhola e os clubes espanhóis, incluindo o tão famoso Barcelona, estão abraçando o futebol feminino de maneira raramente vista em boa parte do mundo.

Alguns anos atrás a craque americana Julie Foudy argumentou que países menores com poucas chances de ganhar espaço no futebol masculino deveriam encarar o investimento no esporte feminino como um grande mercado ainda não explorado.

Esta Copa inclui a seleção da Tailândia, país cujo futebol masculino nunca se qualificou para uma Copa, e a da Jamaica, cujos futebolistas homens só se qualificaram uma vez antes. É pouco provável que suas seleções femininas avancem muito nesta sua primeira participação, mas o simples fato de que vão jogar na França, no tipo de palco futebolístico que esses países raramente ou nunca alcançaram, já pode dar mais destaque ao futebol em suas casas.

A presença pela primeira vez do Chile – cuja seleção masculina não se qualificou para a Copa no ano passado – e o retorno da Argentina, cujas meninas do futebol não se qualificavam desde 2007, pode ajudar a chamar mais atenção ao futebol feminino também na América do Sul, continente louco pelo esporte, e provar que mesmo o investimento mais modesto pode ajudar essas seleções a avançar.

 

Salários iguais, atenção igual: Esses avanços não significam que já houve investimento suficiente, fato que vai lançar uma sombra sobre esta Copa do Mundo, mesmo que seja fantástica. A seleção mais famosa do mundo, a americana, vai viajar à França no meio de mais uma briga com a Soccer Federation dos EUA por paridade salarial com os jogadores homens. E a maior história desta Copa do Mundo, antes mesmo de ela começar, será uma atleta que não estará presente.

A atacante norueguesa Ada Hegerberg, a jogadora do ano do momento, está concretamente fazendo greve contra sua federação nacional para protestar contra o tratamento desigual dado à equipe feminina nesse país.

Em um mundo sensato, esse fato faria os cartolas noruegueses prestarem atenção. Uma seleção norueguesa com Hegerberg poderia ter sido uma força temível na França; sem ela, provavelmente não será boa o suficiente para representar uma ameaça às verdadeiras potências do esporte. Assim, um país que chegou a ser líder do futebol feminino – a Noruega ganhou a Copa de 1995 – hoje está se fazendo notar mais por sua relutância em promover algum avanço.

Depois da indignação expressa na Copa de 2015 devido às disparidades de remuneração entre jogadores homens e mulheres, a Fifa anunciou que dobraria os valores que paga às mulheres este ano. Mas esse aumento ainda é menor do que o que ela deu aos homens no ano passado. O sindicato global dos jogadores de futebol criticou a Fifa, dizendo que “para muitos administradores homens do futebol, o futebol feminino ainda é um esporte que tende a ser esquecido”.

Apesar disso, é possível vislumbrar alguns pequenos indícios positivos. Em comercial promovendo sua seleção feminina, a Associação de Futebol alemã reconheceu que não tem feito o suficiente: “Jogamos por um país que nem sequer conhece nossos nomes”, dizem as jogadoras no anúncio.

A Nike criou uniformes para jogadoras mulheres pela primeira vez. A Visa, uma das maiores patrocinadoras da Fifa, anunciou que gastará mais dinheiro com o futebol feminino, e a Adidas vai pagar às jogadoras que patrocina na seleção vencedora o mesmo valor que deu aos jogadores homens na Copa do Mundo de 2018.

O potencial do futebol feminino é comprovado e evidente. O esporte só precisa que patrocinadores, federações e a Fifa o levem a sério. 

 

Possíveis recordes: Se você quiser ver história sendo feita, fique de olho no Brasil. Aos 41 anos de idade, a meio-campista Formiga vai participar de sua sétima Copa do Mundo, tornando-se a primeira futebolista, mulher ou homem, a fazê-lo. E com 15 gols marcados, a atacante Marta já é a maior goleadora de todos os tempos na história das Copas femininas. Assim, qualquer gol que ela venha a fazer na França vai elevar seu recorde. E, se marcar dois gols, Marta vai superar o alemão Miroslav Klose para se tornar a maior goleadora, mulher ou homem, em Copas do Mundo. A canadense Christine Sinclair está a apenas quatro gols de distância de um recorde de gols marcados em partidas internacionais. 

 

Não perca estas partidas

A etapa de grupos inclui três partidas em que equipes que estão entre as dez melhores do ranking da Fifa vão se enfrentar. Todos esses jogos devem ter consequências importantes para a etapa do mata-mata do torneio.

 

Austrália-Brasil, quinta-feira, 13 de junho (Fox)

Inglaterra-Japão, quarta-feira, 19 de junho (Fox Sports 1)

Holanda-Canadá, quinta-feira, 20 de junho (Fox)

 

França e Coreia do Sul vão se encontrar na partida de abertura da Copa, no dia 7 de junho.

 

A tabela completa está aqui.

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.