A importância de conversar e poder falar o que sente durante a pandemia do coronavírus

"O que está marcando este período de isolamento é a pessoa que mora com outras pessoas mas se sente sozinha", conta voluntária do CVV.

Neste momento eu estou escrevendo este texto em casa. Provavelmente você está em casa, seus amigos, parentes, colegas de faculdade e de trabalho também estão. Vivemos um momento sem precedentes na História recente em que estamos longe uns dos outros, sem contato social.

Ao mesmo tempo, estamos nos falando mais por telefone, WhatsApp, e aplicativos de conversas em grupo são mais populares do que nunca. Estamos nos apoiando como dá. Mas vamos ser sinceros; estamos mesmo nos apoiando?

Como falar, escutar, estar presente no dia a dia das pessoas nesta situação? Eu não sei você, mas eu nunca imaginei que viveria tudo isso, nunca estive preparado e não sei se podemos realmente dizer que estamos bem nessa, que estamos nos apoiando de verdade.

Quando pensamos em apoio e ouvir o outro, quem melhor para falar sobre isso que os voluntários do CVV - o Centro de Valorização da Vida? Foi pensando em compartilhar um pouco de conhecimento que nos ajudasse a se comunicar mais e melhor neste momento tão difícil que eu conversei com a engenheira Adriana Rizzo, 51, de Araraquara (SP), voluntária do CVV há 20 anos.

Toda semana ela doa 4 horas do seu tempo para ouvir pessoas anônimas que precisam falar algo e não têm companhia. Em nossa entrevista, comecei perguntando qual diferença ela sentia nos atendimentos neste momento de pandemia para quando ainda vivíamos uma vida “normal”.

Eu, sendo muito sincero aqui, imaginava que ela fosse me falar sobre pessoas que estão sozinhas em casa sem companhia de ninguém sem possibilidade de contar com uma conversa de um conhecido. Para minha surpresa, a resposta foi muito mais dura.

“O que mais acaba marcando neste momento da pandemia é a pessoa que mora com outras pessoas, está rodeada por outras pessoas, mas se sente sozinha neste ambiente. Às vezes a gente não consegue se relacionar com as pessoas que estão próximas da gente. Isso é uma coisa que acaba me marcando.”

Neste momento tudo eu que tinha planejado para a entrevista com a Adriana não fazia tanto sentido. Ficou claro que o ato de conversar de verdade é só mais um dos problemas que essa pandemia está agravando.

Você já se sentiu sozinho mesmo rodeado por outras pessoas?
Você já se sentiu sozinho mesmo rodeado por outras pessoas?

E mais do que nunca, precisamos ter com quem falar

Então, Adriana chamou atenção para um ponto muito importante e infelizmente recorrente em algumas conversas: “a gente está muito acostumado a alguém contar uma coisa e a gente já ter uma resposta pronta pra situação”.

Você já se pegou numa situação assim? Repare. Você começa a contar algo muito legal, muito maneiro, de repente a pessoa vira e fala: “ah, muito bom, também já aconteceu a mesma coisa comigo”. E ela simplesmente ignora tudo que você falou antes e puxa outro assunto ignorando tudo que você disse. É cada um por si, falando sem trocar e sem ouvir.

Sem contar quando o assunto envolve uma opinião contrária. Por exemplo, uma amiga ou amigo vai ter contar uma história sobre algo que você não gosta e você nem espera a pessoa terminar o raciocínio e solta frases como “mas isso é errado”, “eu avisei”, “eu não gostava dessa pessoa mesmo”, “estava na cara que não era uma boa ideia”, “por que você não fez diferente?”, entre outras frases e perguntas que colocam o seu pensamento na frente das ideias do outro.

“Isso acaba afastando as pessoas, uma hora você não aguenta mais não poder falar o que você quer”, pontuou Adriana. ”É muito comum, principalmente se é contrário ao que você pensou. Isso faz que as pessoas se afastem dos outros e se sintam mais sozinhas. Se eu vou contar um negócio pra você e você só me julga, melhor eu não contar. A ideia é essa.”

Se seguirmos nessa toada, vamos todos ficar sozinhos em nossos pensamentos e experiências, cada vez mais rodeados por outras pessoas, cheios de amigos nas timelines das redes sociais, mas se sentindo cada vez mais sós. Ainda mais agora em que as pessoas estão em casa isoladas.

Mas se você está lendo este texto e tem interesse em mudar essa realidade, que tal ouvir de verdade tudo o que seu amigo ou parente quer te contar? Como fazer isso? Com a experiência de quem ouve pessoas há duas décadas, Adriana dá uma dica simples, mas muito certeira:

“Se a pessoa te procurou pra contar alguma coisa, ela está confiando em você, então ela espera que você escute ela de verdade e compreenda. Muitas vezes ela vai contar coisas que não fazem parte do seu dia a dia e que talvez não tenham importância pra você mas têm pra ela. Então, nesse momento, que a gente possa evitar criticar, julgar, sem condenar o que ela está te falando. Poderia ser um ganho se a gente conseguisse fazer isso no dia a dia, o que não é fácil.”

Num momento de isolamento social e tanta insegurança, falar ajuda muito.

Eu sei que você deve estar aí em casa com problemas, angústias, dificuldades pra pensar no futuro, sem saber o que falar com as pessoas etc. Mas, sem querer colocar mais uma atividade na sua rotina, te pergunto: como você está lidando com seus amigos e familiares neste momento?

Sabe aquele amigo com quem você não troca ideia desde o começo do isolamento social? E aquele colega de trabalho que você sabe que mora sozinho e não está saindo pra nada, será que não está precisando de trocar uma ideia à toa, jogar uma conversa fora? Que tal fazer uma lista de pessoas para mandar uma mensagem perguntando como elas estão?

“De repente só um ‘oi, como você está’ no WhatsApp já pode ser interessante para a pessoa saber que você se importa com ela e que ela pode contar com você de alguma maneira”, concorda Adriana.

Em nosso papo, a voluntária do CVV contou algo que eu percebo que está acontecendo com as pessoas ao meu redor e é uma espécie de comportamento constante nos atendimentos recentes dela: o medo do futuro. A insegurança de não saber até quando vai a quarentena e a pandemia, em que não sabemos e não podemos ter certeza alguma do que o futuro nos reserva.

E, pode parecer que estamos repetindo a mesma coisa, mas, de novo, conversar é muito importante. “Dividir, falar, externar o que você sente com alguém, que nem sempre é fácil, pode ajudar as pessoas a se sentirem melhores. Algumas situações acabam sendo um peso para você e quando você conta para alguém isso pode clarear suas ideias. Parece uma missão muito complicada, mas ao contar para alguém você está organizando na cabeça para poder falar, então ela acaba ficando mais clara para você depois.”

E, se muita gente tem dificuldade pra falar - inclusive, leitor, pode ser o seu caso - às vezes o melhor jeito de fazer contato é escrever. Como o CVV também conta com atendimento por e-mail e chat, as pessoas muitas vezes escolhem esse caminho, principalmente os mais introvertidos.

“O que a gente percebe é que algumas pessoas preferem escrever. Escrevendo as pessoas são um pouco mais diretas, falam mais diretamente o que elas estão sentindo”, explica Adriana.

Fica a dica: se alguém te mandar um textão, não tenha preguiça de ler, você pode até responder com áudio, mas é importante dar atenção pra quem puxa aquele assunto aparentemente bobo, mas importante neste momento.

E o mesmo serve pra você; se preferir, mande mensagens escritas para seus amigos, em vez de ligar ou mandar aquele áudio. O importante é se comunicar como achar melhor.

Como procurar ajuda do CVV

O Centro de Valorização da Vida foi fundado em São Paulo em 1962 como uma associação civil sem fins lucrativos e em 1973 foi reconhecido como Utilidade Pública Federal.

A instituição presta serviço voluntário e gratuito e é muito conhecida por trabalhar com prevenção ao suicídio, mas seu foco é no apoio emocional. “A gente não atende só pessoas que estão necessariamente pensando em suicídio, a gente quer atender como uma prevenção bem antes, sobre tudo que está incomodando as pessoas”, afirma Adriana.

O atendimento é feito 24 horas por dia por telefone, chat, e-mail ou Skype de forma anônima, ou seja, os voluntários não vão perguntar sequer o nome para quem liga em busca de uma escuta. Cerca de 3.400 voluntários de 24 estados realizam por volta de 250 mil atendimentos por mês.

“A gente quer entender o que está acontecendo com ela e proporcionar um momento em que ela possa falar sem julgamento.” A voluntária reforça que muitas vezes as pessoas ligam apenas para contar como foi o dia delas, depois agradecem e desligam. E está tudo bem.

Caso você ou alguém que você conheça precise de ajuda, ligue gratuitamente para 188, ou converse por chat ou mande um e-mail pelo site cvv.org.br. Você também pode enviar uma carta para um posto de atendimento, veja o endereço da sua cidade neste link.