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08/09/2019 14:47 -03 | Atualizado 08/09/2019 14:56 -03

Conversas em sigilo colocam em xeque tese de Moro para ter divulgado áudio de Lula, aponta Folha

Reportagem publicada neste domingo (8) indica que Lula relutou em aceitar cargo no governo Dilma e destaca tentativa de articulação política com Michel Temer.

Adriano Machado / Reuters
Ano passado, Moro afirmou que agiu em 2016 com a presunção de estar fazendo a coisa certa. 

A tese do ministro da Justiça, Sérgio Moro, para ter divulgado em 2016 conversa privada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi colocada em xeque neste domingo (8) com a publicação de mais registros de mensagens obtidas pela Folha de S.Paulo em parceria com o site The Intercept Brasil.

Na época em que divulgou a conversa na qual o ex-presidente trata com a então presidente Dilma Rousseff sua nomeação para ministro da Casa Civil, o juiz argumentou que o telefonema mostrava intenção de Lula usar o cargo para obstruir as investigações contra ele.

A reportagem da Folha, no entanto, mostra que conversas mantidas em sigilo indicam que o ex-presidente relutou em aceitar o cargo no governo Dilma.

“As anotações mostram que Lula estava empenhado em buscar uma reaproximação com Temer e o MDB e indicam que seus acenos eram bem recebidos pelo vice-presidente, na época visto como fiador da transição para o novo governo que seria formado se Dilma fosse afastada do cargo”, diz a reportagem.

Lula foi interceptado pela Polícia Federal em duas conversas com o então vice-presidente Michel Temer. Em uma das ligações, o petista busca articulação política, promete ser um parceiro e atuar como “irmão de fé” do emedebista. Temer responde dizendo que “sempre teve bom relacionamento” com Lula.

Ainda segundo a Folha, foi por causa das interceptações que a Lava Jato teve conhecimento do conhecimento de Dilma para que Lula fosse para o governo. Por saber com antecedência, a força-tarefa da operação teve tempo para preparar o levantamento do sigilo das investigações e das escutas telefônicas.

A reportagem também indica fragilidade jurídica do caso. Após o vazamento do áudio de Lula, procuradores questionaram, segundo a Folha, a legalidade da decisão.

“Para [o procurador] Andrey Borges de Mendonça, seria difícil defender a divulgação da conversa de Dilma por causa do horário em que ocorrera, mas a maioria discordou. (…) Deltan [Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato] entrou tarde na discussão e se alinhou com Carlos Fernando. ‘Andrey No mundo jurídico concordo com Vc, é relevante”, disse. “Mas a questão jurídica é filigrana dentro do contexto maior que é político’”, diz a reportagem.  

‘Juiz pode entender que outro errou’

Em março do ano passado, questionado por jornalistas  sobre a divulgações das conversas no programa Roda Viva, Moro se defendeu. Disse que agiu com a presunção de estar fazendo a coisa certa. “Houve recursos e acabou entendendo que eu não poderia ter feito aquela divulgação. Um juiz pode entender o que outro errou”, pontuou.

À Folha, Moro disse que não soube dessas conversas de Lula e que teve acesso apenas ao material enviado pela autoridade policial à Justiça. “Se o Ministério Público Federal também participou da seleção, o ministro da Justiça desconhece, mas, se ocorreu, isso seria igualmente lícito”, disse o ex-juiz.

Em nota, a Lava Jato endossou argumento semelhante. “Disse que cabe à polícia selecionar as interceptações relevantes para as investigações e que ‘não houve seleção de áudios pelas autoridades quando do levantamento do sigilo’ do caso de Lula.”

Neste domingo (8), a defesa de Lula afirmou que a reportagem expõe “grosseiras ilegalidades praticadas pelo ex-juiz Sergio Moro e pelos procuradores da Lava Jato”.