COMPORTAMENTO
31/01/2019 18:22 -02 | Atualizado 31/01/2019 20:29 -02

Por que falar de tragédias como a de Brumadinho com as crianças

"Brumadinho é a pauta do momento. E a criança precisa saber o que está acontecendo porque ela faz parte da sociedade."

Reuters

Lidar com notícias ruins não é fácil, e a tarefa se torna ainda mais difícil quando um dos interlocutores é uma criança. Diante disso, é inevitável que, em meio a tragédias como a de Brumadinho, que ocupam grande parte do noticiário nacional - já são 110 mortes confirmadas - e preocupam a todos os brasileiros, surja a dúvida: o tema deve ser discutido com as crianças?

Para Stephanie Habrich, fundadora do Jornal Joca, publicação voltada para jovens e crianças, a resposta é ‘sim’. É imprescindível que os pais dialoguem com os pequenos, só assim eles poderão interpretar os fatos e construir opinões sobre os temas.

“Falar sobre tragédias é importante também para as crianças. Elas estão expostas a essas informações e são bombardeadas pelas notícias, seja na escola ou na televisão. Mas será que elas sabem interpretar tudo o que está sendo dito? Será que ela fica ansiosa por não saber direito o que está acontecendo? O mais importante é que a criança entenda e crie uma opinião sobre o tema em discussão”, explica.

Para a professora Ana Lucia Horta, terapeuta familiar e coordenadora da Especialização em Família da Unifesp, no entanto, é preciso um método. Primeiro é preciso analisar a quantidade de informação que a criança é capaz de absorver.

“As crianças estão vivendo isso. Mas a gente não deve explicar para a criança o que ela não nos perguntar”, diz. ”É preciso trabalhar em cima da capacidade de entendimento que ela tem sobre a vida: ela já tem os sentimentos mais elaborados? Ou é algo mais abstrato? Como ela está vivenciando isso?”, questiona.

Habrich fundou o Joca inspirado nas publicações francesas de mesmo tipo. A única diferença dele para uma mídia tradicional é que o texto traz uma contextualização maior da notícia, e não só o fato mais recente.

Em 2015, por exemplo, após o atentado terrorista em Paris que deixou mais de 130 mortos e inúmeros feridos, um jornal infantil francês editou um suplemento especial para explicar o que era o terrorismo.

 

É preciso trabalhar em cima da capacidade de entendimento que ela tem sobre a vida: ela já tem os sentimentos mais elaborados? Ou é algo mais abstrato? Como ela está vivenciando isso?Ana Lucia Horta, terapeuta familiar e coordenadora da Especialização em Família da Unifesp

A tentativa era responder algumas perguntas básicas que deveriam ter sido pauta de diálogo entre adultos e crianças: O que aconteceu naquele dia? Por que houve o ataque? O que vai acontecer agora? Como isso afeta a minha vida? 

Após o rompimento da barragem em Brumadinho na última sexta-feira (25), que deixou mais de 80 mortos e centenas de desaparecidos, o Joca usou as suas páginas para tentar responder perguntas similares.

“Brumadinho é a pauta do momento. E a criança precisa saber o que está acontecendo, não só porque ela é criança, mas porque ela faz parte da sociedade. Ela precisa ter sua própria voz e compreender o seu papel na sociedade. É preciso entender para depois agir”, explica Habrich. 

Reprodução/Joca
Página do Joca, jornal para crianças e adolescentes, com reportagem sobre Brumadinho.

No espaço do jornal, figuras, diagramas e textos foram usados para explicar o que aconteceu após o rompimento da barragem e trazer outras referências, como o caso de Mariana, para contextualizar a tragédia socioambiental.

De acordo com a fundadora, notícias podem servir como ferramentas para iniciar o diálogo com as crianças, seja na sala de aula ou em casa. 

“A criança também pode e deve dividir, criar e sustentar as suas opiniões. Elas têm argumentos ricos. Isso traz segurança e pertencimento para elas. Não é preciso fazer um bicho de sete cabeças ou tentar esconder a realidade como forma de protegê-las”, explica.

 

Brumadinho é a pauta do momento. E a criança precisa saber o que está acontecendo, não só porque ela é criança, mas porque ela faz parte da sociedadeStephanie Habrich, fundadora do Jornal Joca

 

Apesar da tristeza que acomete o momento, discutir sobre as tragédias podem se tornar oportunidades para ensinar e elaborar conceitos abstratos como responsabilidade, solidariedade e empatia.

“O mais importante é você trazer referências e dar a oportunidade para que a criança pesquise e questione os temas que ela tiver mais curiosidade. Quanto mais informação você tiver, mais protegido você vai estar das notícias falsas, tão comuns hoje em dia”, diz a fundadora.

Veja algumas dicas de como conversar com as crianças sobre tragédias, de acordo com a psicóloga Ana Horta:

1. Não evite o assunto. Isso só piora a situação e pode fazer com que as dúvidas sejam acumuladas

2. Entenda a fase de amadurecimento da criança. Se for preciso simplificar alguns conceitos, faça isso. 

3. O mais importante é explicar o que aconteceu, explicar as consequências e explicar o que está sendo feito a partir disso.

4. Não omita informações e mantenha a calma. Isso ajudará com que o nível de ansiedade dos pequenos diminua.

5. Procure se informar. É importante que as crianças tenham acesso a diversos tipos de argumentos.