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27/10/2019 09:41 -03

Afinal, como pensam os conservadores que são bolsonaristas?

O HuffPost reúne declarações e postagens de integrantes do governo e dos filhos do presidente que resumem o pensamento do núcleo de Jair Bolsonaro.

Adriano Machado / Reuters
Jair Bolsonaro na cerimônia do Dia do Soldado diante do Exército em agosto.

Ao longo destes quase 11 meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro e seu núcleo político se queixam de críticas e ataques à sua forma de pensar e agir. Dizem que são perseguidos pela imprensa e rotulados de “malucos”, “radicais”, “fascistas”. O HuffPost reuniu declarações e postagens de integrantes do governo e dos filhos do presidente que resumem o pensamento do núcleo de Jair Bolsonaro. Valores, ideias, concepções de mundo. 

Afinal, como pensam os direitistas, conservadores, olavistas, bolsonaristas? Segundo o assessor de Assuntos Internacionais da Presidência, Filipe Martins, tudo pode ser igualado na mesma categoria. 

Alguns pontos para você, leitor, conseguir formular suas próprias análises sobre o que tem sido feito pelo governo, que se define como direitista e conservador.

Em cada uma das seções a seguir, referentes a temas específicos, o HuffPost utilizou frases mencionadas durante a Conferência de Ação Política Conservadora, que ocorreu em São Paulo no início deste mês, e também postagens nas redes sociais que complementam os assuntos. 

Com a palavra, os conservadores do governo Jair Bolsonaro:

Conceito de conservadorismo

“Somos um conjunto de pessoas que descobriram o prazer de pensar. Que descobriram a palavra como fonte da verdade, e a verdade como busca permanente da verdade. Ser conservador tem a ver com respeitar a vida, com aprender com a experiência e com o ser sensível, como meio de contactar o suprassensível. 

Conservadorismo é respeitar e conhecer as dádivas, é ter humildade diante do mundo, e não achar que a razão humana é toda poderosa, ilimitada e esgota a realidade. Não se trata de negar a razão, mas de negar que a razão seja tudo, que a economia seja tudo, que a relação de classes seja tudo, que o ser humano seja tudo.  

Todo conservador é o sujeito menos preconceituoso que existe. Nossos adversários é que gostam de pensar por preconceitos, por rótulos, por estereótipos, por palavras de ordem e por clichês. Para os nossos adversários existe “o gay”, “a mulher”, “o operário”, “o camponês”. Para nós conservadores existe esta ou aquela pessoa. Homens e mulheres, gays e heterossexuais, trabalhadores no campo, na indústria, etc e etc. Cada um com a sua personalidade, cada um com o seu pedaço de verdade insubstituível.

Ser conservador é ser contra a ideologia. É procurar a verdade na própria vida. Quando dizem que somos ideológicos, porque lutamos contra a ideologia, isso justamente é uma manipulação de palavras para propagar uma mentira.”

Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo

Economia 

“A atitude conservadora está na base da economia de mercado e não o contrário; não é a economia de mercado que está na base da atitude conservadora. E muito menos a atitude conservadora se esgota na economia de mercado. O capitalismo não é um sistema, no sentido de que ele não é desenhado por essa razão arrogante, mas ele surge organicamente do próprio funcionamento da realidade. 

Precisamos em primeiro lugar pensar no empresariado. O conservadorismo é a base da livre empresa, é a base da economia de mercado. Mas o problema é que a própria livre empresa tem sido penetrada pela ideologia esquerdista. O climatismo e a ideologia de gênero estão fazendo isso. Precisamos mostrar a verdade: quem está do lado da liberdade econômica — e somos nós. Somos nós que estamos do lado da liberdade econômica e da liberdade política, por causa da nossa essência conservadora, fazendo acordos de comércio que nunca foram feitos, abrindo oportunidades de investimentos que nunca foram abertas… Pela primeira vez a possibilidade de o Brasil ser  uma economia de mercado, por causa do nosso programa conservador.

O liberalismo econômico tem a sua casa no conservadorismo. Precisamos entender o globalismo como substituto do comunismo. Recuperar a bandeira da economia de mercado. Mas não caindo no erro de achar que tudo é economia. Mas trabalhando na cultura e, a partir daí, na economia.” 

Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo


Meio ambiente 

“O que a gente entende por climatismo? O climatismo está para a mudança climática, como o globalismo está para a globalização. Globalização é um fenômeno econômico que foi capturado por uma ideologia. Isso se tornou o globalismo. Mudança climática é a mesma coisa. É um fenômeno. Precisa ser estudado. Deveria ser estudado de maneira serena. Mas também foi capturado por uma ideologia. Então é preciso discutir a mudança climática e o ritmo do aquecimento global.

Pouca gente sabe, por exemplo, que o ritmo atual de aquecimento, desde o final dos anos 70, é de 0,13ºC por década. Que somado ao aquecimento que já existe hoje, desde o começo da idade industrial projetado até o final do século, daria um aquecimento de 1,9ºC em relação ao patamar dos anos 1850, até o final do século 20. Então, isso tudo que se propala, do jeito que são as emissões, do jeito que a natureza se comporta, já estamos dentro disso que é considerado a meta do aquecimento de 2ºC até o final do século. Só que ninguém fala disso.  

Vamos controlar as emissões? Bora. Bora controlar as emissões. O Brasil é responsável por entre 2% e 3% do total de emissões de dióxido de carbono. A China é responsável por cerca de 25%. No entanto o Brasil tem, assumiu e vai manter compromissos rígidos de controles de emissões. A China só começa, de acordo com o acordo de Paris, a ter que controlar emissões a partir do ano 2030. Nenhuma crítica à China, pelo contrário. Negociou muito bem. Queria que os nossos negociadores tivesses negociado tão bem como os negociadores chineses.”

Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo

LGBT

“Acharam que quando a ministra maluca, radical, pastora, homofóbica, fascista assumisse o ministério, nós íamos sair na rua numa grande cruzada contra gays. O que o meu presidente falou? Tem um departamento de gay no seu ministério? Deixa lá e vamos mostrar para o Brasil como se cuida de gay nesta nação. Respeitando eles, mas sem fazer a promoção. Protegendo, sem fazer a promoção. Estamos fazendo isso.

No PNDH 3 (Programa Nacional de Direitos Humanos 3), era para reconhecer todas as configurações familiares no Brasil. O objetivo final: reconhecer e incluir no sistema de informação do serviço público todas as configurações familiares constituídas por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais. Aí eles [PT] colocam transexuais, vírgula... Se eles tivessem colocado um ponto em transexuais, a gente não tinha gritado tanto naquela época, mas eles colocam uma vírgula e escrevem: com base na desconstrução da heteronormatividade. Então temos um decreto presidencial em vigor ainda que determina a desconstrução da heteronormatividade no Brasil.”

Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves 

 

Direitos humanos

“O presidente fez uma releitura do que é (sic) de fato direitos humanos. Cuidar de crianças é direitos humanos. Cuidar de idosos é direitos humanos. Acesso à educação é direitos humanos. O presidente começou a dialogar com o Brasil e, para a tristeza da esquerda, nunca se falou tanto em direitos humanos no Brasil como nos dias de hoje, nunca se defendeu tanto os direitos humanos no Brasil como nos dias de hoje. 

Estamos protegendo todos nesta nação. Estamos enfrentando a violência contra todos. Contra a mulher, contra a criança, contra gay, contra índio, contra quilombola; estamos protegendo todos.

Achavam que no segundo dia de governo nós estaríamos na rua batendo em negros, matando homossexuais, pedindo o fim de todas as leis de proteção à mulher. E o que acontece? O presidente machista, só este ano, já sancionou seis leis de proteção à mulher. Chora, esquerda. Chora.” 

Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves

 

“Vamos parar com essa bandidolatria, com esse negócio de colocar o criminoso num pedestal. A primeira função da pena é tirar o criminoso da sociedade. Se ele vai se reeducar ou não, o problema é dele. Ele tem esse distúrbio de valores. Mas não pode a gente continuar a ver todos os dias, como a gente vê aqui no Brasil, pessoas sendo presas, com aquela ficha criminal que dá a volta no quarteirão.” 

Líder do PSL na Câmara, Eduardo Bolsonaro (SP)

Defesa de minorias

“Em torno de 40 povos no Brasil [indígenas] ainda matam suas crianças quando filhas de mãe solteiras, quando nascem gêmeas, quando nascem com qualquer deficiência física e mental. E o povo que estava aí no poder [PT] dizia: ‘a gente não pode salvar essas crianças, porque é cultura’. Hipócritas! Enquanto deixarmos os índios matarem suas crianças, eles serão um povo reduzido, pequeno. É isso o que eles queriam. Um povo triste, reduzido e pequeno. 

Quando uma mãe enterra uma criança viva… O ritual é feito pela mãe. Você consegue imaginar a dor de uma mãe que seu filhinho nasce surdo e, em nome da cultura, o pajé manda enterrar ele vivo? Essa mãe nunca mais é a mesma. 

O que estava acontecendo no Brasil eram mulheres tristes, deprimidas, porque tinham que enterrar os seus filhos. E quando enterram essas crianças, elas não morrem na hora, choram debaixo da terra. Curumins no Brasil chorando debaixo da terra. E quem estava no poder dizia que não pode fazer nada porque é cultura. E o índio pedindo socorro, porque o índio ama seus filhos. Os nossos povos amam desesperadamente suas crianças. Mas a esquerda que estava no poder dizia que o único direito do índio era a terra, a demarcação. 

Os curumins gemeram nessa terra, mas o Deus dos curumins se chama Tupã. Tupã ouviu o clamor dos curumins e Tupã disse: chega. E Tupã fez presidente da República um homem que ama curumim, um homem que respeita os povos indígenas, um homem que veio para mudar essa nação. Esse governo veio para proteger todos. Esse governo veio para garantia de direitos. A eleição de Bolsonaro interrompeu no Brasil um ciclo de sofrimento e dor.” 

Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves

História

“A esquerda tenta reescrever a história. Vou fazer um breve resumo, pegado o tempo de Karl Marx, trazendo até a eleição de Jair Bolsonaro. Marx sintetizou as ideias comunistas, fez um manifesto e, no início do século 20, o que começou a acontecer? 1917, revolução bolchevique na Rússia. 1949, tivemos Mao Tsé-Tung, na China. 1959, Fidel Castro. E depois, em 1964, seria a vez do Brasil, se não fosse o povo nas ruas e os militares para, com muita coragem, impedir o comunismo no Brasil.  

Esse período que tivemos no Brasil, de 1964 a 1985, a esquerda chama de ditadura militar. Só que os militares chegaram ao poder não foi botando o pé na porta, tirando o presidente e assumindo a cadeira presidencial. Eles chegaram ao poder sem dar um tiro, sem matar sequer uma pessoa, porque eles tinham o respaldo popular. E em 2 de abril de 1964, o Congresso Nacional brasileiro declarou vaga a cadeira presidencial. Dia 9 de abril, tivemos uma eleição indireta, conforme dizia a Constituição da época. E então foi eleito o general Castello Branco com votos de Franco Montoro, Juscelino Kubitschek, Ulysses Guimarães, dentre outros. Esses dias que a cadeira presidencial ficou vaga, de 2 de abril até 15 de abril, que foi a posse presidencial, quem ocupou aquele local foi o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli. 

Que golpe que é esse? Que ditadura é essa em que você poderia sair, ir e voltar do Brasil quando bem entendesse? Que ditadura é essa que não pega as armas do povo? Nunca se passou pela cabeça de um presidente militar do Brasil tirar as armas dos brasileiros. O que os militares fizeram? Em 1985, devolveram o poder para a população civil. fizeram eleições diretas para presidente da República.

A luta armada começou pela esquerda, em 66, com uma bomba no aeroporto de Guararapes, no Recife. Depois disso é que veio o AI-5. (...) Aqui no Brasil, depois que a gente teve a bomba no aeroporto de Guararapes, tivemos o sequestro do embaixador americano. Como vai combater essa guerra assimétrica? Não é uma guerra de um país contra outro, onde utiliza tanques. É uma guerra interna. Por isso teve o AI-5. 

A esquerda disse que no Brasil existiu uma ditadura, perseguidos políticos, se vitimizaram e, depois de algumas décadas, quando chegaram ao poder, estavam fazendo a revolução deles, estavam implementando aqui no Brasil o desarmamento, começando com essas ideologias de ‘meu corpo minha regra’ contra o aborto, um Estado gigante, com poder central — característica de fascismo — e institucionalizando a corrupção.”

Líder do PSL na Câmara, Eduardo Bolsonaro (SP)

Cultura  

“Quem luta no front cultural precisa produzir mais cultura. Precisamos de boas obras de arte, no cinema, no teatro, e na literatura que contém aquilo que aconteceu, que contém a história real que aconteceu no Brasil nesses últimos anos. Para nós mesmos, para o exterior e para a posteridade. Precisamos de bons livros de filosofia, política, História, economia, sociologia, literatura, crítica, estratégia, assim por diante, para ajudar as pessoas a se formarem e difundirem as ideias corretas. 

Mas precisamos também ganhar a batalha entre as Forças Armadas. Aqueles que se engajam no ativismo político têm que se organizar. É preciso dirimir dissidências, unir movimentos, alinhar expectativas, debater, encontrar estratégias comuns. Esse front precisa de tudo aquilo que pudermos produzir em termos de cultura. Precisa se apropriar de tudo aquilo que foi feito até aqui. Incluindo mecanismos e estratégias utilizados na eleição”. 

Assessor de Assuntos Internacionais da Presidência , Filipe Martins

Relações Internacionais

“O Itamaraty desceu do seu pedestal, onde fingia ser uma estátua para não ter que se meter nos negócios do País. O Itamaraty não é mais uma estátua. Faz parte desse trabalho. Está junto com o povo, o Brasil, com o presidente Bolsonaro, com a brava gente brasileira. 

Essa moça, Greta Thunberg: no mesmo dia em que ela foi falar nas Nações Unidas, eu recebi uma foto de uma menina na Venezuela que tem 14 anos e pesa 14 quilos, pela fome gerada por esse regime horroroso. A Greta ali, 16 anos, quase a mesma idade, bem alimentada, bem nutrida, acolhida nas Nações Unidas. A mesma Nações Unidas que não faz nada por essa menina de 14 anos e 14 quilos na Venezuela. Nações Unidas que não faz nada contra Maduro, que aceita a candidatura de Maduro ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas — onde não vai entrar, porque o Brasil e outros países não vão deixar, não porque a ONU não vai deixar. Então eu é que perguntou: ‘How dare you?’.

Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo

 

Comunicação, mídia, internet

“Boa parte da imprensa recebia muito dinheiro do governo [petista]. Então não faz sentido você ficar implorando para ter sua opinião publicada na carta do leitor, quando você tem seu Twiter, o seu Facebook ali. Isso tudo colaborou para o tsunami que foi a eleição do Jair a presidente. 

Quando você começa uma discussão com esse pessoal, que não tem conexão com a realidade, não tem como contra-argumentar. Tem que partir realmente para o deboche. Mas não pode tomar como sério o que essas pessoas fazem. 

Isso tudo faz parte de uma coisa chamada espiral do silêncio. Se você não falar que é Bolsonaro, o que as pessoas vão pensar? O Bolsonaro não tem votos. A espiral do silêncio é exatamente isso. Você não fala, e todo mundo fica achando que o Bolsonaro está sozinho”. 

Líder do PSL na Câmara, Eduardo Bolsonaro (SP)

“Na Folha de S.Paulo, no Estadão, no Globo, em tantos outros jornais, quem quer que pense como nós, ou seja, o eleitorado nacional praticamente inteiro, é considerado um extremista de direita, indigno de ser ouvido, indigno de ser considerado. Qualquer político ou intelectual que fale como vocês entra imediatamente no hall dos tipos excêntricos e grotescos, senão dos culpados retroativos dos crimes da ditadura. 

Foi por essa razão que, nas eleições presidenciais de 2018, Bolsonaro foi eleito, mesmo sem apoio do establishment político. Ele não tinha nem mesmo as tais fake news, os tais robôs. Ele tinha vocês e é por isso que ele está lá hoje.

Existe hoje narrativa comum que abunda em setores da imprensa, com reflexos mais ou menos articulados na política e na elite do Poder Judiciário, de que nós somos um problema que precisa ser eliminado, que nossa voz precisa ser calada, que aqueles que estão na internet, nas ruas, em todos os cantos defendendo o presidente Bolsonaro precisam ser criminalizados. Essa narrativa inclui intelectuais que produzem conteúdos, jornalistas, comunicadores da internet, também ativistas, empresários, políticos e toda e qualquer pessoa que gravite em toda a rede que se convencionou chamar de conservadora ou, por que não, de bolsonarista. 

Jornalistas bem posicionados e grandes emissoras de TV viram sua influência reduzida à irrelevância absoluta. E a mídia continua completamente irrelevante. Eles ainda não entenderam nada. 

Precisamos de órgãos de mídia de peso, capazes de estabelecer novas mediações. Estamos ganhando hoje, numa luta de guerrilha, assimétrica, na qual cidadãos comuns, donas de casa, avós, mães, pais, crianças, muitas das vezes estão na internet defendendo presidente contra a desinformação”. 

Assessor de Assuntos Internacionais da Presidência, Filipe Martins