MULHERES
15/07/2020 03:00 -03 | Atualizado 15/07/2020 03:00 -03

'Me senti como se fosse lixo': Estas 3 mulheres falam do trauma do 'stealthing'

Como Arabella na série “I May Destroy You”, mulheres que são vítimas de homens que tiram a camisinha sem consentimento passam a duvidar de tudo.

Isla* se mudou para Nova York aos 18 anos para estudar numa escola de design. Tendo estudado a vida inteira numa escola pequena e conservadora no Reino Unido, ela estava ansiosa por iniciar uma fase nova e conhecer pessoas diferentes. Logo no início do primeiro semestre de aulas, Isla começou a trocar mensagens com Dean*. Eles tinham se conhecido no Tinder.

Dean tinha mais de 2 metros de altura, era mais velho e misterioso. Em pouco tempo eles tinham marcado o primeiro encontro. Isla estava empolgada. Combinaram um encontro no apartamento dele, onde as coisas esquentaram rapidamente. Para Isla, era mais do que um primeiro encontro – era a primeira transa de sua vida.

“Eu tinha expectativas altíssimas, porque parece que todo o mundo romantiza a perda da virgindade”, ela conta. Nervosa por não estar usando nenhum tipo de anticoncepcional, ela insistiu que ele usasse camisinha, e Dean acabou concordando. Foi apenas depois que o sexo terminou que Isla percebeu que ele não havia usado.

“Ele fez de conta que havia colocado o preservativo”, Isla contou ao HuffPost UK pelo telefone, um ano após o episódio.

Ela ficou chocada. “Fiquei deitada ali, literalmente chorando no escuro – acho que ele nem percebeu. Essa foi a pior parte.” Ela pegou suas coisas, saiu às pressas e começou a procurar no Google os efeitos colaterais da pílula do dia seguinte. Isla estava assustada, sozinha, e não contou a nenhuma de suas amigas sobre o que acontecera naquela noite.

BBC3 / iPlayer
Arabella e Zain em “I May Destroy You”, da BBC3.

Isla tinha sido vítima de “stealthing” – a retirada não consensual do preservativo durante o sexo, como essa prática foi definida em um estudo de 2017 publicado no Columbia Journal of Gender and Law que explorou suas implicações legais, que se aproximam do estupro.

“Stealthing” (o termo indica algo feito furtivamente e poderia ser traduzido como “golpe da camisinha”) é um estranho eufemismo para descrever algo que é uma forma de violência sexual, disse Katie Russell, porta-voz da ONG Rape Crisis no Reino Unido.

Legalmente, as pessoas consentem com a atividade sexual ou relação sexual quando concordam por escolha própria. Mas o que é crucial é que as pessoas podem mudar de ideia a qualquer momento – ou seja, o consentimento é condicional, explica Russell.

“Se uma pessoa expressou seu consentimento partindo da premissa de você usar uma forma particular de anticoncepcional – neste caso, o preservativo – e você remove o preservativo sem o conhecimento da pessoa, você está ativamente rompendo o consentimento dela e cometendo um delito sexual.”

Fiquei deitada ali, chorando no escuro – acho que ele nem percebeu. Essa foi a pior parte.Isla, 19

As pessoas que estão acompanhando atentamente o drama imperdível I May Destroy You, da BBC3 (spoilers breves pela frente) terão visto a cena em que Arabella, papel representado por Michaela Coel, descobre que seu mentor Zain tirou a camisinha quando eles fizeram sexo no apartamento dela. Quando Arabella o enfrenta para falar disso, ele pede desculpas e dispara: “Mas foi bom demais, não foi?”.

Irritada, Arabella exige que ele pague pela pílula do dia seguinte. Apenas mais tarde, quando ouve algumas mulheres num podcast ecoarem a explicação que Zain lhe deu – “pensei que você sabia. Quer dizer que você não sentiu?” – é que ela entende que o incidente foi uma forma de agressão sexual.

Não existem estatísticas oficiais sobre o “stealthing” no Reino Unido, mas Russell diz que é muito provável que a prática seja mais comum do que imaginamos, a julgar por como as denúncias de delitos sexuais geralmente refletem apenas uma pequena parcela dos incidentes que realmente ocorrem. Um estudo australiano realizado com pessoas que procuraram um centro de saúde sexual constatou que uma em cada três mulheres e quase um em cada cinco homens relataram ter sido vítimas de stealthing.

Um homem de Bournemouth, na Inglaterra, foi sentenciado em 2019 a 12 anos de prisão por estupro por ter tirado a camisinha sem o consentimento de uma mulher quando fazia sexo com ela.

olegbreslavtsev via Getty Images

Dearbhla*, 30 anos, precisou ler muitas mensagens no Twitter para reavaliar uma experiência sexual que vivera 2 anos e meio antes – uma memória que ela reprimiu.

“Eu nunca tinha ouvido falar em stealthing, só sabia que estava infeliz com o que me aconteceu naquela noite”, ela contou. “Eu não tinha o vocabulário necessário para descrever o que aconteceu. Pensei que fosse uma daquelas coisas que muitas pessoas vivenciam e das quais ninguém fala.”

Dearbhla estava se dando bem com Tom* quando os dois voltaram para a casa dela depois de saírem juntos no Natal, em Dublin. Preocupada com os riscos do sexo sem proteção, ela exigiu que ele usasse camisinha, mas ao término da transa ficou chocada ao descobrir que ele não estava usando.

Dearbhla cogitou de uma explicação plausível – que a camisinha teria arrebentado, por exemplo. Mas, quando perguntou a Tom o que acontecera, ele deu de ombros e respondeu: “É mais gostoso assim”.

O tom casual da resposta a deixou estarrecida, sentindo-se como se ela fosse lixo, diz Dearbhla – como se ela só estivesse ali para cumprir uma função. “Desde que ele estivesse satisfeito, estava tudo bem com ele. Acho difícil me conformar com isso.”

Pensei que fosse uma daquelas coisas que muitas pessoas vivenciam e das quais ninguém fala.Dearbhla, 30

Quando Dearbhla acordou na manhã seguinte, foi ao banheiro, deixando Tom na cama, dormindo. Quando voltou, ele havia ido embora. Minutos depois, alguém bateu na porta. Era Tom, parecendo constangido.

Ele havia esquecido a carteira na casa dela. “Não sei o que me chocou mais: se foi o fato de ele ter feito o que fez ou de ter fugido, como se fosse criança”.

Até aquele dia, Dearbhla achava que sabia avaliar bem o caráter das pessoas. Desde então, contou, ela mudou completamente sua maneira de enxergar os relacionamentos.

Ruby, 24 anos, de Londres, foi submetida ao stealthing com um amigo com quem passou uma noite depois de uma balada na faculdade. Também ela conta que isso enfraqueceu tremendamente sua confiança nas outras pessoas.

“Eles acham que têm direito de usufruir do seu corpo”, ela comentou, falando dos perpetradores. “Mas o sexo deveria ser uma experiência colaborativa. Deveria ser consentimento compartilhado e decisão compartilhada.”

Ruby diz ainda: “Hoje eu não me disponho mais a abrir mão do controle, nunca. Parece que as pessoas simplesmente passam por cima do que eu quero”.

Boy_Anupong via Getty Images

Durante muito tempo Dearbhla encarou o incidente com Tom com um misto de constrangimento e negação. “Eu sempre pensava ‘poderia ter sido bem pior’. É uma maneira muito ruim de pensar, porque não existe uma hierarquia de agressões”, ela comentou. “Acho que é isso que estou tentando entender agora.”

Isla, que desde que foi alvo de stealthing virou vítima de uma agressão sexual mais violenta, disse que é importante reconhecer que não existe um ranking de violências sexuais. “Objetivamente falando, uma coisa pode parecer pior que outra, mas é bom lembrar que o trauma pode afetar as pessoas de maneiras diferentes.”

As pessoas que foram vítimas de stealthing muitas vezes hesitam em usar termos como estupro ou agressão sexual, comentou Katie Russell, devido à preocupação da sociedade com a reputação e os sentimentos de uma pessoa rotulada como estuprador, priorizados em relação aos de uma pessoa sujeita a um crime traumático.

“Precisamos ter discussões mais claras e completas com as crianças desde a idade mais jovem possível, e depois mais amplamente com a sociedade, com adultos que já passaram muito da idade escolar, para realmente educar as pessoas sobre o que é o consentimento”, diz Russell. Também ela não é favor de ser criada uma “hierarquia de vitimação”.

“O consentimento não é a ausência de alguma coisa”, ela diz. “É um conceito positivo, ativo e contínuo.”

*Alguns nomes desta reportagem foram mudados e os sobrenomes foram omitidos, para preservar a identidade das entrevistadas a pedido delas.

*Este texto foi inicialmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.