OPINIÃO
15/12/2019 05:00 -03 | Atualizado 15/12/2019 09:12 -03

Congelei óvulos aos 34 anos em uma maratona de agulhadas e de baques emocionais

Leia aqui sobre meu caro e desgastante processo de congelamento de óvulos.

Acervo Pessoal/Isabela Azevedo
A jornalista Isabela Azevedo estudou bastante sobre congelamento de óvulos antes e durante o processo.

“Quando você vai ter filhos?” Essa frase está no top 5 das perguntas mais ouvidas pelas mulheres acima dos 30. A amiga, a tia, a mãe, a ginecologista, a sogra, a mídia, o algoritmo do Facebook... Todo mundo está preocupado com a fertilidade da mulher moderna, que adia a maternidade em prol de projetos profissionais e pessoais. Moderna que sou, resolvi dar uma de esperta e passar a perna na sociedade e no relógio biológico: congelei meus óvulos. Mas essa ideia não era tão simples e genial como eu pensava.

Essa história começou em 2017, quando eu tinha 32 anos. Na época, eu percebi que precisaria de mais uns 10 anos se quisesse cumprir todos os itens da minha lista “o que fazer antes de ter filhos”. Como o procedimento é muito caro (de R$ 15 mil a R$ 20 mil), comecei a fazer uma poupança.

Os especialistas em reprodução humana recomendam o congelamento até os 35 anos. Depois disso, dizem, os óvulos começam a perder qualidade. Neste ano de 2019, aos 34 anos, e depois de passar dois anos pensando no assunto e juntando dinheiro, procurei uma clínica em Brasília.

O dia da consulta foi meu primeiro choque. Esperei uns 20 minutos olhando ansiosa para um quadro repleto de fotos de bebês fofos e pensando: “O que estou fazendo aqui?”... Eu sempre gostei de crianças, mas ter filhos era uma ideia distante e, para ser sincera, nunca tinha parado realmente para pensar se queria ou por que queria ter um neném.

Acho que muitas de nós, mulheres, engravidamos simplesmente porque “está na idade certa” ou porque “vou me arrepender se não tiver filhos”, sem refletir se aquilo é um real desejo do nosso coração. Neste momento da minha vida, eu certamente teria me sentido mais confortável e empolgada olhando para um quadro com cartões-postais do mundo inteiro.

Dos vários exames que a minha médica pediu, um deles é considerado o mais fiel retrato do estoque de óvulos: o anti-mulleriano. Esse hormônio é produzido dentro dos ovários, nos folículos antrais e pré-antrais, onde estão os óvulos. As mulheres já nascem com toda a sua reserva ovariana e anualmente elas perdem milhares de óvulos, mesmo ovulando só uma vez por mês ou tomando pílula anticoncepcional. Por isso, a taxa desse hormônio só tende a cair ao longo da vida e zera na chegada da menopausa.

O resultado do meu exame anti-mulleriano indicava 0,75 ng/ml. Dei um google básico para ver o que isso significava e percebi que minha taxa não estava das melhores. No retorno à clínica, perguntei à minha médica o que ela achava desse número. “Não está anormal, mas está baixo, quando você pretendia engravidar naturalmente?”, ela me questionou. “Com uns 39?”, respondi titubeante. Ela fez um sinal negativo com a cabeça. “Com uns 37?”, insisti esperançosa. Ela repetiu o gesto. “Então me fala uma idade, doutora”. Ela deu o veredito: “Você já devia estar tentando”. Que baque.

O normal, segundo os especialistas, é que esse índice esteja acima de 1 ng/ml. Para minha idade, o ideal é que ele estivesse maior que 1,5 ng/ml ou 2 ng/ml. Fiquei bem abalada. Eu, que só queria fazer uma espécie de seguro-fertilidade, sem pressão, me vi correndo contra o relógio. Ter filhos passou da categoria “dúvida” ou “possibilidade” para “sonho dourado”.

Comecei o tratamento em seguida, a partir do segundo dia da menstruação, com injeções de hormônios para estimular o desenvolvimento dos folículos. Todo mês, vários folículos costumam crescer nos ovários, mas só um deles se torna o dominante e libera o óvulo. O objetivo dos medicamentos injetáveis é que o maior número possível de folículos visíveis acima de 2 mm se desenvolvam e possam gerar óvulos maduros. No início do tratamento, a ecografia indicava que eu tinha 11 folículos com esse tamanho. Nem todos, porém, dariam um óvulo maduro ao fim do procedimento.

Isabela Azevedo/Acervo Pessoal
Isabela aplicou as injeções de hormônios nela própria ao longo de 13 dias.
Os médicos costumam recomendar que as mulheres congelem pelo menos 20 óvulos para ter 85% de chance de ter um bebê. Ao fim desse processo danoso para o corpo, a mente e o bolso, eu consegui 7 óvulos maduros. Ou seja, todo esse esforço me deu 30% de chance de ter uma fertilização in vitro com sucesso. Isso não dá nem meio bebê.

Eu mesma aplicava as injeções na minha barriga toda noite. E, a partir do sexto dia de tratamento, passei a injetar outro medicamento também pela manhã, desta vez para impedir a ovulação e consequente perda dos folículos estimulados. No início eu estava até tranquila, mas logo comecei a sentir os efeitos de tantas injeções: inchaço, dor de cabeça, cólicas e sensibilidade emocional. Meus olhos enchiam de lágrimas só de ver um bebê fofo na rua.

No décimo dia de injeções, quando eu já estava no limite do desconforto com meu corpo e num mau humor do cão, o exame indicava que a estimulação hormonal havia sido insuficiente, já que nenhum dos meus folículos havia atingido 18 mm, o tamanho mínimo ideal para o procedimento. Resultado: mais três dias de remédio, o que significava menos R$ 2.300 na conta, mais inchaço, mais mau humor e mais enxaqueca.

No décimo terceiro dia, apliquei pela noite uma última injeção de um medicamento destinado a promover o amadurecimento final dos óvulos. Exatas 35 horas depois, eu estava me submetendo a uma anestesia geral leve para a captação das células.

Durante esses longos 13 dias de estimulação hormonal, eu não conseguia pensar em outra coisa que não fosse esse tratamento. Li tudo que havia sobre o assunto na internet (incluindo artigos científicos), entrei em grupos no Facebook de mulheres que tentam fertilização in vitro e passei a seguir médicos especialistas em reprodução humana ultra popstars no Instagram. Alguns mostram, inclusive, os presentes que ganham das pacientes, incluindo canetas Mont Blanc e mimos da Calvin Klein.

Como jornalista, minha sede de informação é imensa e eu fui entrando, aos poucos, num estado totalmente dominado pelo medo de não conseguir ser mãe. Os médicos costumam recomendar que as mulheres congelem pelo menos 20 óvulos para ter 85% de chance de ter um bebê. Ao fim desse processo danoso para o corpo, a mente e o bolso, eu consegui 7 óvulos maduros. Ou seja, todo esse esforço me deu 30% de chance de ter uma fertilização in vitro com sucesso. Isso não dá nem meio bebê.

Logo que o procedimento acabou, quando eu ainda estava meio grogue da anestesia, a médica me falou que haviam sido coletados 8 óvulos (só 7, como eu disse, seriam de fato maduros, mas isso eu só saberia no dia seguinte, depois da análise em laboratório). Em seguida, ela me sugeriu que eu fizesse um novo ciclo de estimulação para captar mais uma leva de óvulos. Ah, tá. Deixa eu pegar outros 20 mil reais que estão sobrando na minha conta e vamos já marcar a próxima, doutora! Mole, mole.

Saí de lá num baixo astral danado, com a sensação de ter gasto rios de dinheiro e ter passado por um procedimento extremamente desgastante para (quase) nada. Porque, afinal de contas, o tratamento só teria real eficácia se eu congelasse uns 15 a 20 óvulos (o que estatisticamente também não garante nem um bebê sequer).

O resultado, no entanto, era esperado para uma mulher como eu, com baixa reserva ovariana. Já uma paciente com exames normais certamente teria muito mais sorte e provavelmente estaria bem confiante na eficácia do seu “seguro-fertilidade”. Naquela tarde mesmo, encontrei uma conhecida que fez o congelamento na mesma clínica que eu. Ela é dois anos mais velha e conseguiu, numa tacada só, 23 óvulos. No lugar dela, eu certamente estaria respirando mais aliviada e esse meu desabafo poderia estar tomando rumos bem diferentes.

Isabela Azevedo/Acervo Pessoal
Após testes, injeções e consultas, apenas 7 óvulos de Isabela foram congelados — o recomendável seria de 15 a 20.

Minha tristeza, no entanto, vai além da questão financeira e da frustração pelo sucesso parcial do procedimento. Durante todo esse processo, eu fiquei emocionalmente arrasada. Esta foi a primeira vez, nos meus 34 anos de vida, que me senti ficando... velha. Chorei muitas vezes durante esses 15 dias de tratamento pensando o quanto a natureza é injusta com as mulheres. Homens mais velhos, inclusive idosos, conseguem ter filhos com facilidade. O meu pai, por exemplo, teve o último filho na casa dos 60 anos. E eu, beirando os 35, no meu auge, sou pressionada a tomar uma decisão importante dessas sem me sentir preparada. Que raiva.

Eu me sinto tão jovem ainda, tenho tantos planos, há tantos lugares do mundo que gostaria de conhecer, tantos livros que queria ler, tantos cursos que tenho vontade de fazer, tantas memórias que ainda amaria construir com meu namorado antes de pensarmos em ter um bebê... “Mas você ainda pode fazer tudo isso com filhos”, alguns podem dizer. Sim, mas seria MUITO mais difícil, cansativo e caro.

Hoje, algumas semanas depois do tratamento, tentei refletir se eu me arrependia ou não de ter congelado meus óvulos. Não encontrei uma resposta definitiva. Não fiquei mais tranquila para tentar ter filhos perto dos 40, já que minha reserva ovariana é baixa, assim como meu estoque de óvulos congelados. Ao mesmo tempo, não me vejo juntando dinheiro novamente para tentar coletar mais uma leva. Por outro lado, é melhor ter 7 óvulos congelados antes dos 35 anos do que nenhum, já que resolvi não tentar ter filhos imediatamente.

Outra questão que ainda me deixou intrigada foi o resultado do anti-mulleriano. Os médicos dizem que essa taxa só pode cair a partir dos 35. Mas eu vi vários relatos de mulheres que repetiram o teste depois de alguns meses ou anos e o número aumentou. Também li artigos científicos que relacionam o baixo nível desse hormônio à pouca quantidade de vitamina D na corrente sanguínea (meu caso) ou ao uso muito prolongado de anticoncepcional (meu caso também, já que tomei pílula por duas décadas sem interrupção e só parei seis meses antes do tratamento). Por isso, ainda tenho esperança de que minha fertilidade não esteja tão ruim assim daqui a um ano, quando pretendo repetir os exames.

Então, me vejo agora mais ou menos como estava antes de iniciar toda essa maratona de agulhadas: deixando a decisão de ter e quando ter filhos para Deus, para o universo, para os astros e me concentrando em viver o presente. Tenho me policiado para blindar os ouvidos das pressões externas e espero fazer o possível para não tomar decisões precipitadas por conta do medo de não conseguir ser mãe. Agora é torcer para ser feliz com o destino que a vida me proporcionar.

Este depoimento é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.