MULHERES
15/12/2019 07:00 -03 | Atualizado 13/04/2020 12:40 -03

Congelamento de óvulos: Processo permite 'pausar' relógio biológico das mulheres

Conheça todos os custos — emocionais, físicos e financeiros — da técnica recente que possibilita adiar decisão pela maternidade.

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Congelamento de óvulos é procedimento anterior à fertilização in vitro para mulheres que decidem adiar a gravidez.

Em menos de duas décadas, o número de mulheres no Brasil que adiaram a maternidade e decidiram ter filhos bem depois dos 30 anos deu um salto de mais de 70%. De acordo com o IBGE, no início dos anos 2000, cerca 615.705 crianças nascidas vivas tinham mães entre 30 a 44 anos. Quase 20 anos depois, no final de 2018, o número de crianças com mães nessa faixa etária era de 1.054.016.

Em paralelo, houve uma redução de 75% para 63% no número de mulheres que já tinham filhos entre 15 e 29 anos, quando comparados o início e o fim desta década. 

O corpo da mulher sempre foi e continua sendo palco de uma contradição estrutural. Divididas entre a realização profissional e a dedicação à maternidade — e cientes da dificuldade em encontrar um parceiro que assuma a responsabilidade da paternidade, brasileiras estão deixando para depois a decisão de ter filhos. 

E isso só é possível graças aos avanços na medicina que permitem a elas “pausar” o seu relógio biológico — ou que, pelo menos, vendem essa promessa.

Independentemente da motivação para adiar a maternidade, a técnica de congelamento de óvulos tem ganhado cada vez mais espaço nas clínicas de reprodução humana. A sua popularização fez crescer em 192,6% a realização desse tipo de procedimento entre 2012 e 2018 no País, segundo os dados da Huntington Medicina Reprodutiva.

Mas o dilema das mulheres em relação a se tornarem mães, mesmo para aquelas que passaram pelo processo de congelamento, ainda permanece.

Descrito ora como “grito de liberdade”, ora como “lembrete de uma derrota”, o congelamento é uma técnica recente (só deixou de ter o caráter experimental nos Estados Unidos em 2013), que vem despertando a curiosidade por sua promessa sedutora de, literalmente, congelar a idade fértil da paciente — mesmo sem uma garantia de sucesso em uma gravidez futura.

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Processo de congelamento de óvulos no Brasil saltou quase 200% de 2012 a 2018.

A experiência das mulheres que buscam o congelamento de óvulos

Aos 33 anos, a nutricionista Mariana Poletto decidiu que era a hora de procurar a sua ginecologista para conversar sobre fertilidade. 

Indecisa se gostaria ou não de ter filhos futuramente, ela optou por investir no congelamento de óvulos como uma possibilidade de “ganhar alguns anos”. 

“Encarei o congelamento como um grito de liberdade”, compartilhou, em entrevista ao HuffPost. “As mulheres acham que congelar óvulos é assumir uma derrota porque chegaram aos 30 e poucos anos, não são casadas e não têm filhos. Para mim, é o contrário. Eu queria morar fora, viajar, namorar sem compromisso. Mas o relógio biológico não está no meu controle; então, eu vejo o congelamento como um ‘bônus’ que eu posso pagar para aproveitar a vida como uma mulher jovem, independente e solteira, que é a fase que eu estou vivendo agora, sem ter o fantasma da questão biológica e da decisão da maternidade me atrapalhando”, continuou.

A médica Tatiana Rodriguez tinha 37 anos quando entendeu que já havia se dedicado suficientemente à sua carreira e estava pronta para conciliar a vida profissional com a maternidade. 

Ela tentou engravidar espontaneamente por 6 meses, mas não conseguiu. Decidiu congelar os óvulos enquanto ainda testava a gestação natural, mas, de acordo com ela, essa não foi uma decisão tão simples.

“Os meus dilemas eram em relação ao motivo que me levava ao congelamento. Me questionava, por exemplo, se eu poderia viver a maternidade de outras formas, como por meio da adoção de uma criança. Foram alguns meses refletindo sobre isso com o meu parceiro. Mas a conclusão que eu cheguei foi: ‘se existe o recurso disponível, por que não usá-lo?’. Por que deixar a critério da sorte algo que eu já tinha tinha como certo que eu queria viver, que era a maternidade?”, explica.

Já Joana* sentiu a vontade de congelar óvulos após o término de um relacionamento quando tinha 36 anos. Na época, ela passava por uma fase conturbada em sua vida e acabou adiando o procedimento por algum tempo. Em uma consulta de rotina quando tinha 40 anos, sua ginecologista questionou se ela tinha realmente vontade de ter filhos, pois estava chegando ao limite da qualidade de sua reserva ovariana.

“Eu resolvi fazer o congelamento porque eu sempre tive a ideia de ser mãe. Essa vontade diminuiu bastante nos últimos anos, mas ainda existia a possibilidade. Mesmo sem estar certa dessa decisão, e só de poder ter a autonomia de decidir se eu quero ou não, já me dá um alívio”, afirmou.

Mariana, Tatiana e Joana* são alguns dos perfis de mulheres que procuram as clínicas de reprodução nos principais centros urbanos do País e dedicam o tempo e o dinheiro necessários na busca da tão sonhada autonomia em relação à maternidade. 

O procedimento, que conta com uma fase de estimulação hormonal e de punção dos folículos (leia mais abaixo) é descrito como “simples” e “seguro” por parte dos especialistas. 

″É um procedimento feito há bastante tempo, mas se tornou mais comum nos últimos 10 anos quando as técnicas de congelamento de óvulos avançaram”, explica Thaís Rodrigues, médica especialista em reprodução humana.

Os resultados dos testes foram apresentados em diversos trabalhos científicos até que, em 2013, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva deixou de considerar o procedimento de congelamento de óvulos como algo “experimental”.

“Há 10 anos, eu recebia pacientes mais velhas ou que enfrentavam algum tipo de câncer para fazer o congelamento. Elas tinham pouco acesso às informações. Agora, essa discussão está em todo lugar. E cada vez mais pacientes me procuram abaixo dos 36 anos, que é a idade mais indicada”, argumenta Rodrigues. 

Perguntas e respostas sobre o congelamento de óvulos 

Como funciona o procedimento?

Para conseguir congelar os óvulos, as mulheres precisam passar, incialmente, por uma estimulação ovariana. Durante o procedimento, a mulher recebe os hormônios FSH e LH, que já circulam normalmente no organismo. Os efeitos colaterais desse período são irritação, ansiedade e inchaço. O procedimento dura, em média, 10 dias, e, geralmente, é iniciado no primeiro dia do ciclo menstrual.

 

O objetivo da estimulação hormonal é desenvolver diversos folículos, que são a “casa” dos óvulos, para que eles possam amadurecer com qualidade. Na segunda etapa, a mulher realiza diversos exames de sangue para avaliação hormonal e ultrassonografias para acompanhar o desenvolvimento adequado dos folículos.

 

Em seguida, ela recebe uma medicação específica para o amadurecimento do folículo. Em um espaço de 36 horas após a medicação, é realizada a punção ovariana, procedimento que “aspira” os folículos que se desenvolveram para que sejam manipulados em laboratório. “Durante a punção, a paciente é sedada. O procedimento é tranquilo e dura entre 10 e 15 minutos. O exame é similar ao ultrassom transvaginal, mas nesse procedimento existe uma agulha conectada que é carregada até o ovário para realizar a aspiração dos óvulos maduros”, explica o médico Matheus Roque, especialista em reprodução humana. 

 

Quem pode congelar congelar óvulos?

A maioria das mulheres pode congelar óvulos, a não ser que a paciente tenha alguma uma doença que seja contraindicação para a estimulação ovariana.

 

O procedimento é especialmente recomendado às mulheres que estão em tratamentos de cânceres e desejam preservar a fertilidade, uma vez que os procedimentos de quimioterapia e radioterapia prejudicam a reserva ovariana. 

 

Existe idade ideal para congelar óvulos?

Não existe idade ideal, mas a qualidade do óvulo e a quantidade da reserva ovariana estão diretamente ligada s à idade materna.

 

A fertilidade feminina começa a diminuir por volta dos 25 anos e tem declínio acentuado após os 35 anos. De acordo com pesquisas em fertilidade, a chance de uma mulher de 25 anos engravidar naturalmente em um ciclo menstrual é de 25%. Já a de uma mulher de 40 anos é de 8%.

 

Então, quanto mais jovem ela congelar, maior a quantidade de óvulos disponíveis e, consequentemente, maiores as chances de gravidez caso a mulher decida descongelá-los. Isso porque a taxa de gravidez entre os óvulos descongelados e os óvulos frescos é a mesma.

 

″É fundamental que o profissional de saúde mostre claramente os dados sobre as taxas de gravidez baseadas na idade e na quantidade de óvulos congelados para a sua paciente. A definição se valerá a pena insistir no procedimento é subjetiva e cabe à mulher em conjunto com o seu médico”, explica o especialista Matheus Roque. 

 

Quantos óvulos é a média ideal para congelar?

Esse número varia de mulher para mulher, mas uma quantidade satisfatória seria de 15 a 20 óvulos após as estimulações. Porém, a média entre as pacientes é de 8 a 12 óvulos.

 

Existe prazo de validade para os óvulos congelados?

Da mesma forma que não existe uma idade ideal, os óvulos podem permanecer congelados por tempo indeterminado. Em média, a taxa de sobrevivência de óvulos congelados em mulheres até 35 anos é entre 90% e 95%. Para mulheres que fizeram o procedimento acima de 35 anos, a taxa é entre 35% e 90%.

 

O congelamento de óvulos é garantia de gravidez?

Não, a gravidez não é certeza. Se a mulher não engravidar naturalmente, ou decidir por adiar a maternidade, os óvulos congelados servem como um recurso, e não uma garantia, de uma possível gravidez quando ela decidir ser um momento propício. 

 

Existem riscos no processo do congelamento?

Os especialistas afirmam que são mínimos os riscos no processo, devido ao avanço da tecnologia utilizada no procedimento. As principais complicações estão relacionados a possibilidade de sangramento, infecção e torção ovariana na fase da punção. Também há um risco baixo de Síndrome da Hiperestimulação Ovariana (SHO) na fase da estimulação hormonal.

 

Qual a média de custo do procedimento?

O investimento inicial, que contempla as fases de estimulação hormonal, a punção e o congelamento, custa em média R$ 20 mil. Após isso, há uma taxa anual de manutenção que varia entre R$ 800 a R$ 1.200, a depender da clínica. Quando a mulher decide por descongelar os óvulos e realizar o processo de fertilização in vitro, o custo desse procedimento é de cerca de R$ 18 mil.

 

O procedimento é coberto pelo SUS?

Não. Mas há unidades específicas de hospitais que oferecem o procedimento para mulheres em tratamento contra o câncer, como o Hospital Estadual Pérola Byington, em São Paulo.

 

*Fonte: Dra. Sofia Andrade, especialista em Reprodução Humana e professora de Ginecologia e Reprodução Humana da Uneb (Universidade do Estado da Bahia)

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Gasto com congelamento de óvulos gira em torno de R$ 20 mil, sem contar taxa anual de manutenção e gasto com fertilização.

Os efeitos do processo de congelamento no corpo da mulher

Os efeitos do processo, principalmente da estimulação hormonal, variam de mulher para mulher. Há aquelas que se adaptam bem à estimulação hormonal, para outras, os efeitos colaterais são quase insuportáveis: inchaço, irritabilidade e desconforto profundo são alguns deles.

“Minha médica me aconselhou fazer um segundo processo de estimulação hormonal, porque eu tive poucos óvulos aptos para o congelamento. Mas eu não estava disposta a passar por tudo aquilo de novo. Foi um desconforto absurdo e eu nem sei o quanto [de efeitos colaterais] essa quantidade de hormônio no meu corpo pode me trazer a longo prazo”, preocupa-se Joana.

Questionada qual seria a sua sensação caso resolva descongelar, mas não consiga realizar a fertilização dos seu óvulos, a paciente respondeu que “estava consciente” que a chance de gravidez era baixa.

″É muito difícil eu tentar explicar essa sensação. Por um lado, eu senti uma paz enorme quando fiz porque senti que garanti minha autonomia. Por outro, eu sei que existe a chance de não dar certo e não foi fácil tomar essa quantidade de hormônio. Acho que só no dia que eu experimentar, talvez, essa frustração eu consiga entender melhor o que ela significa”, avalia.

O dilema da gestação frustrada

Os avanços nos estudos permitiram um maior controle da técnica, porém, a gravidez após o descongelamento dos óvulos não é garantia para nenhuma das pacientes. Em relação a isso, a especialista em reprodução Thaís Rodrigues explica que o principal papel de médicos como ela é “gerenciar expectativas”.

“O congelamento é uma opção que aumenta as chances de gravidez. Mas não quer dizer que é uma certeza. Ninguém pode passar essa noção de garantia para a paciente”, explica.

De acordo com Rodrigues, faz parte da responsabilidade do profissional de saúde informar os dados da maneira correta, e cabe à mulher avaliar se quer insistir no procedimento.

“Elas costumam lidar bem com isso. Por exemplo, quando a paciente não consegue a reserva de 12 a 15 óvulos para o congelamento, que é o indicado, ela aceita muito bem a indicação de uma segunda indução da ovulação.”

No ano passado, após realizar dois processos de congelamento, Tatiana Rodriguez viveu na pele essa frustração. Ela decidiu descongelar parte dos seus óvulos, mas não obteve sucesso com a segunda etapa do processo para a gravidez: o desenvolvimento do embriões.

“Eu e meu companheiro criamos muitas expectativas, então foi uma fase muito difícil, mesmo tendo a consciência que não existia a garantia do sucesso. Eu queria continuar tentando, mas a minha médica indicou uma pausa no tratamento para que pudesse relaxar um pouco. É bem triste, mas seguimos. Não desistimos do nosso plano”, desabafa.

Tatiana conta que o que mais ajudou a superar a decepção de não engravidar foi ter outros objetivos, que não apenas a maternidade. “Continuei trabalhando, ocupando a cabeça e, é claro, tive o apoio dos meus amigos e familiares.”

E é nesse espaço entre a expectativa e a frustração que muitas mulheres se sentem cobradas a fazer o máximo possível para serem bem-sucedidas na gravidez. Mas a questão novamente é biológica; desde o seu nascimento e vida embrionária, cada mulher tem uma quantidade de óvulos disponíveis — ainda na barriga da mãe, um bebê tem de 6 milhões a 7 milhões de folículos. E eles vão envelhecendo ao longo do tempo até acabarem; aos 38 anos, o número cai para cerca de 28 mil folículos.

Diante desse contexto, o que muita gente tem se questionado é se fatores externos, como estilo de vida e a alimentação, podem influenciar ou não no envelhecimento oocitário.

Alguns livros e palestras até sugerem que uma mudança radical de vida poderia retardar esse envelhecimento ou, ao menos, minimizar os prejuízos desse “relógio biológico”.

“A gente vê muita coisa de medicina não alopática crescendo nessa área de infertilidade e de preservação de fertilidade. É sabido que os principais determinantes de qualidade oocitária têm correlação com a idade materna e doenças associadas, por exemplo, alterações genéticas ou a falência ovariana prematura”, explica a ginecologista Marina Gonzales.

Segundo Gonzales, já existem estudos que sugerem que as mudanças de estilo de vida podem, sim, fazer efeito, mas como medidas complementares. A médica deixa claro que nenhuma delas pode ser entendida como algo “milagroso” e que, no final das contas, a idade materna ainda é o grande divisor de águas.

Estresse oxidativo, tabagismo, sobrepeso, ansiedade, sedentarismo e consumo excessivo de álcool são alguns dos fatores que podem comprometer a qualidade do óvulo. Até a terapia de acupuntura também tem entrado como tratamento adjuvante e pode agregar alguma melhora neles.

“No campo da fertilidade, tudo é um conjunto. E isso é uma parte do conjunto. Essas medidas são válidas porque melhoram não só a qualidade oocitária, mas a qualidade de vida”, explica Gonzales.

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Idade materna é divisor de águas para gravidez, mesmo após congelamento de óvulos.

Adiar a maternidade é a ‘prova’ de que é impossível ser bem-sucedida e ter filhos?

“Congele os seus óvulos, liberte a sua carreira.”

Essa era a manchete da Bloomberg em 2014 quando gigantes da tecnologia, como Apple, Facebook e Microsoft, anunciaram que passariam a oferecer um subsídio de milhares de dólares para parte de suas funcionárias que quisessem congelar os seus óvulos.

Mas isso não se aplica à política de benefícios dessas empresas no Brasil. Por aqui, a farmacêutica Ferring é um dos casos isolados que oferece desde 2017 o mesmo tipo de subsídio.

Desde então, diversos textos surgiram nas redes sociais apoiando e criticando a medida, mas todos refletiam sobre até que ponto é válido postergar a maternidade em nome da carreira.

“Eu acho que ainda é um desafio conciliar a maternidade com a carreira, mesmo se você tem um companheiro que te ajuda. A mulher sempre fica sobrecarregada e por isso entendo as mulheres que optam por não ter filhos, mas a maioria ainda tem esse desejo. Nós estamos adiando a maternidade por todos esses motivos, mas nosso corpo não acompanha o nosso ritmo, e por isso fazemos uso desses recursos que viabilizam uma maternidade posteriormente”, explica Tatiana Rodriguez.

Para a psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar e autora de O Mal-estar na Maternidade, quando as mulheres correm atrás da melhor performance possível tanto na carreira profissional, quanto na maternidade, elas tentam resolver uma injustiça que é estruturalmente enraizada em nossa sociedade: o fato de que a responsabilidade pelos filhos sempre será maior para elas.

“Esse discurso de ‘a super-heroína’ que é CEO e uma mãezona é uma ilusão e nos adoece. A gente pode até ter um monte de heroínas, mas todas elas vão estar tomando antidepressivos em algum momento. Do jeito que as coisas são organizadas socialmente, a maternidade não acontece sem custo na carreira. Essa conta não fecha”, crítica.

Prova disso é o estudo da Fundação Getúlio Vargas realizado com 247 mil mulheres que aponta que 48% delas foram demitidas após 12 meses da licença-maternidade.

Para Iaconelli, a depender da carreira e do tipo de sucesso que a mulher almeja, retardar a maternidade é a única opção. “Não dá para ter os dois 100% — e para o homem não é assim. Na nossa cultura, a responsabilidade do filho é sempre dela. O homem consegue estar 100% no trabalho porque ele tem uma mulher fazendo essa função em casa”, diz.

A psicanalista defende que, enquanto não se fizer uma “revolução” em relação aos cuidados das crianças, não será possível para as mulheres experimentarem os seus potenciais inteiramente no mercado de trabalho.

“As mulheres sempre trabalharam, acontece que o trabalho doméstico e a carga mental que ele traz nunca foram valorizados. E reproduzir esse discurso da ‘CEO heroína’ é tentar fechar uma conta que não é só responsabilidade das mulheres, mas também dos homens e da sociedade”, argumenta.

Reproduzir esse discurso da ‘CEO heroína’ é tentar fechar uma conta que não é só responsabilidade das mulheres, mas também dos homens e da sociedadeVera Iaconelli, psicanalista, diretora do Instituto Gerar e autora de “O Mal-estar na Maternidade”.

A busca pelo parceiro ideal e a decisão por adiar a maternidade

Desde que a discussão sobre adiar ou não a maternidade ganhou força no mercado de trabalho, muitas mulheres decidiram esperar. Mas boa parte delas tomou essa decisão não apenas pensando em sua carreira, mas também porque enfrentava dificuldade em encontrar o parceiro ideal para dividir a jornada de criar uma criança.

Marcia Inhorn, antropóloga e pesquisadora da Universidade de Yale, é uma das autoras do estudo que demonstra que, para 85% das mulheres entrevistadas, o plano da gravidez foi adiado por “falta de parcerias estáveis com homens comprometidos com o casamento e a paternidade”. 

Nos consultórios brasileiros, o perfil mais comum de atendimento é o de mulheres heterossexuais de 36 a 45 anos de idade, que saíram de um relacionamento e que já são bem-sucedidas. 

Elas estão em um patamar profissional estável, já tiveram um companheiro, mas o relacionamento não deu certo e por isso adiam a maternidade.

É o caso de Joana*. “A maternidade não é mais tão concreta na minha vida. Não seria mãe sozinha, porque acho que é muito difícil você dar qualidade de vida e ter a responsabilidade de criar uma criança”, explica.

Para aquelas que decidem seguir com o sonho da maternidade, independentemente de parceiro, há a possibilidade da produção independente com o sêmen de um doador anônimo.

O procedimento consiste na fecundação do óvulo da mulher, descongelado ou fresco, pelo sêmen doado em um laboratório. Depois de fecundado, o embrião é transferido para o útero da mulher, e ocorrem as próximas etapas da gravidez.

Enquanto um número significativo de mulheres encontra no congelamento mais uma ferramenta para se sentirem empoderadas, para outras, o procedimento gera uma sensação de frustração em comum. 

“Por que eu acabei assim?”. Essa foi uma das perguntas que mais surgiram durante a pesquisa de Inhorn em Yale.

Sim, elas se concentraram em suas carreiras, conquistaram espaço e estão lutando por mais autonomia, mas isso não significa dizer que a maternidade é sempre uma questão bem resolvida.

“Não foi algo que você fez. É algo que você e milhares de outras mulheres vivem”, conclui Inhorn.