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08/01/2020 08:05 -03 | Atualizado 08/01/2020 11:33 -03

O que, de fato, pode acontecer com a escalada do conflito entre EUA e Irã

Nova guerra mundial? Ciberataques? Ações contra países aliados? Especialistas avaliam cenários diante do poderio dos 2 países.

Wana News Agency / Reuters
Guarda iraniano com a bandeira do Hezbollah (um dos grupos, também chamados de proxies, financiados pelo Irã,) no funeral do general Qassem Soleimani.

Na madrugada desta quarta-feira (8), o Irã lançou mísseis contra duas bases usadas por militares americanos no Iraque, em retaliação ao ataque que matou o general Qasem Soleimani, o segundo homem mais poderoso do regime, na última semana.

A resposta eleva ainda mais o temor de um confronto de grandes proporções.

Mas, afinal, quais os reais riscos de uma nova guerra? 

Em um comunicado da Guarda Revolucionária iraniana lido na TV estatal após os ataques às bases de Al Asad e Erbil, o grupo do qual Soleimani era o mais importante líder, disse que “a vingança feroz” tinha “começado”.  

A primeira reação do governo americano foi afirmar que já esperava um ataque como esse e que avaliava a resposta. “Essas bases já estavam sob alto nível de alerta por suspeita de que o regime iraniano planejava ataques a nossas forças na região.”

O presidente Donald Trump disse, pelo Twitter, que faria um pronunciamento nesta manhã, mas que “por enquanto, está tudo bem”. O governo americano não divulgou se o ataque iraniano deixou mortos ou feridos. 

“Mísseis lançados pelo Irã em duas bases militares no Iraque. Avaliação de baixas e danos acontecendo agora. Por enquanto, tudo bem. Nós temos a mais poderosa e bem equipada força militar em qualquer lugar do mundo, de longe”, escreveu Trump.

Vingança em mais de uma operação

A possibilidade de estourar uma nova guerra mundial em decorrência do conflito entre Irã e Estados Unidos, de acordo com especialistas ouvidos pelo HuffPost, é baixa. No entanto, há uma série de possíveis consequências, que envolvem outros países, como Iraque, Arábia Saudita, Rússia e China.

A expectativa em torno da promessa de ‘vingança’ do Irã e de reação dos Estados Unidos também envolve apostas em torno de ataques militares, de uma série de ciberataques e de uma corrida iraniana para desenvolver o programa nuclear.

O Irã havia anunciado que considerava “13 cenários de vingança” e que ela viria “não em apenas uma operação”. As opções de retaliação, segundo o presidente do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Shamkhani, “mesmo sobre o cenário mais fraco, pode ser um pesadelo histórico para os americanos”.

“Posso apenas prometer à nação iraniana que a vingança não deverá acontecer em apenas uma operação”, disse Shamkhani à mídia estatal. 

Já Trump havia ameaçado atacar “muito rapidamente e muito forte” caso os iranianos atingissem alvos americanos em vingança por Soleimani. 

“Que sirva de alerta de que se o Irã atacar quaisquer americanos ou instalações americanas, nós temos 52 locais iranianos como alvo (representando 52 reféns americanos feitos pelo Irã muitos anos atrás), alguns deles de alto nível e grande importância para o Irã e para a cultura iraniana, e esses alvos, e o próprio Irã serão atingidos muito rápido e com muita força”, escreveu no domingo {5}.

Nesta terça, o presidente americano voltou atrás na ameaça de atingir alvos “de grande importância para a cultura iraniana”.

ATTA KENARE via Getty Images
Iranianos se reúnem em luto pela morte do general Qassem Soleimani.
ATTA KENARE via Getty Images
Iraniana expressa que quer "vingança" em cartaz na procissão do funeral de Soleimani em Kerman.

 

O que mais pode acontecer?

Na avaliação do professor de Segurança Internacional do curso de Relações Internacionais da Unesp Sérgio Aguilar, o Irã, apesar de ter forças armadas numerosas, guarda revolucionária e sistemas de mísseis, não tem poder suficiente para se contrapor à capacidade militar norte-americana.

Para ele, uma ação militar dos EUA no Irã teria o mesmo resultado das invasões do Afeganistão e do Iraque: vitória dos EUA e seus aliados e queda do regime teocrático. Geraria, em sua análise, uma insurgência interna contra os ocupantes e uma ocupação infindável que geraria ainda mais instabilidade na região.   

A coordenadora de projetos do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Monique Sochaczewski, também destaca a disparidade entre as forças, que resultaria em uma “guerra assimétrica”. “O Irã é um país importante na região, mas meio fraco estrategicamente”, afirma, acrescentando que o Irã costuma usar “proxies” em seus ataques, que são grupos que ajuda a financiar, como o Hizbollah, no Líbano, e os Hutis, no Iêmen.

Nova guerra mundial

Na avaliação da especialista, não há uma nova guerra mundial no horizonte. “Aqui no Brasil as pessoas estão mais desesperadas do que na própria região. (...) É preciso ter cautela nas análises muito corridas. Familiares de amigos em Israel, que é adversário imediato do Irã, estão de prontidão, mais atentos que o normal, mas estão mais preocupados com enchentes que geraram vitimas fatais e ameaças de novas chuvas do que com o próprio Irã”, afirma. 

O professor da Unesp endossa a opinião de Sochaczewski. Para ele, nem os iranianos nem o governo norte-americano pretendem se envolver em uma guerra em larga escala. “Uma guerra nesse nível só aconteceria no caso de um Estado, ou uma coalizão de Estados, realmente impactar a segurança em escala mundial, o que não é o caso do Irã.”

Ele destaca que há outras forças importantes, como Rússia, China e União Europeia, que servem de freio para o ímpeto norte-americano. E há a questão interna, como apoio e a autorização do Congresso. “A movimentação de meios militares para a região indica com certeza dissuasão, mas não indica com certeza a propensão de uma ação militar em larga escala.” 

Programa nuclear

Uma outra preocupação é que, com o anúncio de Teerã que estava rompendo o acordo estabelecido em 2015 para frear seu programa nuclear, é a possibilidade de que o Irã realmente chegue a desenvolver uma bomba atômica.

Para Sochaczewski, a insistência no discurso nuclear tem mais tom de retórica. O Irã está em uma situação econômica delicada. Em novembro, houve anúncio de aumento de 50% no preço do combustível, seguido de uma forte reação negativa da população. “Todas essas questões vêm de sanções importantes que estão baqueando o governo iraniano”, diz.

A narrativa, continua a professora, tem sido de que vai ter reação. “Esse enterro com milhares de pessoas tomando as ruas, com mortos, tem mais tom de demonstração de que o general era uma figura importante. Há quem diga que possa retaliar contra interesses norte-americanos, contra a comunidade judaica ou na própria região, contra Arabia Saudita através de seus proxies. Não acredito, porque isso impactaria sobretudo internamente e o Irã está em um momento econômico difícil com vários protestos contra o governo”, afirma.

Wana News Agency / Reuters
Multidão acompanha o funeral de Soleimani, em Teerã, no Irã.  

Ciberataques

Há ainda a possibilidade de ataques cibernéticos. O próprio Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos (DHL) soltou um alerta, em 4 de janeiro, de que o Irã mantém um robusto programa cibernético e que pode executá-lo contra os EUA.

“Irã é capaz de, no mínimo, promover ataques temporários contra pontos de infraestrutura dos Estados Unidos. (...) Um ataque à segurança pode vir com pouco ou nenhum alerta”, diz trecho do boletim. 

A comunidade americana, de acordo com reportagem da revista New Yorker, está ciente de que uma nação não cria uma força militar em poucos anos, mas pode ganhar muita capacidade cibernética neste período. Hackers iranianos já violaram serviços de instituições financeiras como Bank of America e JPMorgan Chase, em 2012 e 2014, respectivamente. 

Ainda segundo a reportagem, “infraestruturas como sistemas de água e redes elétricas são especialmente vulneráveis a ciberataques, não só porque são alvos de alto valor, essenciais para sustentar a vida como a conhecemos, mas porque são em grande parte desprotegidos”. 

Um estudo da University of Cambridge, publicado em 2015, apontou que um ciberataque ao sistema de energia de 15 dos 50 estados Estados Unidos deixaria 93 milhões de pessoas no escuro e geraria um prejuízo de até US$ 1 trilhão.

O ataque também geraria “aumento nas taxas de mortalidade à medida que os sistemas de saúde e segurança seriam desligados; queda no comércio, com os portos fechados; interrupção do abastecimento de água à medida que as bombas elétricas não funcionariam; e caos nas redes de transporte, já que a infraestrutura entra em colapso”.  

Jogo de poder

Os próximos passos, segundo Aguilar, professor da Unesp, dependem também dos demais atores. “Os rivais regionais do Irã - principalmente Israel e Arábia Saudita – podem se sentir mais incentivados a perseguir seus interesses estratégicos, o que normalmente indica uso da força por parte desses dois países. A ação desses países pode provocar uma reação do Irã mas também de Estados e grupos a ele aliados”, analisa.

No entanto, os passos a seguir deverão levar em conta a opinião de outros países, como Rússia e China. “Já ficou demonstrado em casos anteriores (Síria, Ucrânia) que a Rússia defende seus interesses com o uso do seu poder militar e que as potências ocidentais não se atrevem a confrontar o Kremlin. Então, qualquer ação militar direta contra o Irã tem que ser ‘combinada’ com esses dois atores”, pontua.

O caso da Coreia do Norte

Em 2017, uma outra escalada na tensão entre os EUA e um de seus inimigos, a Coreia do Norte, já havia gerado o alerta de uma possível nova guerra mundial. Em menos de um ano, o conflito foi pacificado. Na época, no entanto, as autoridades norte-coreanas chegaram a afirmar que guerra nuclear era “questão de tempo”.

Horas antes dessa declaração, um avião bombardeiro B-1B americano havia se juntado a caças que já sobrevoavam a Coreia do Sul. O exército sul-coreano tinha afirmado que a ação conjunta com os Estados Unidos mostrava firme intenção e capacidade de punir a Coreia do Norte pelo teste com armas nucleares e mísseis.

KCNA KCNA / Reuters
Depois de quase iniciarem uma guerra nuclear, o presidente Donald Trump e 

A possibilidade de um conflito nuclear colocou um mundo em alerta, mas diferente do cenário atual, em que só os EUA têm armamento nuclear, a Coreia do Norte também tem sua bomba atômica.

Meses depois da expectativa de um cenário catastrófico, no entanto, o líder norte-coreano Kim Jong-un se encontrou com o líder sul-coreano Moon Jae-in em um sinal de compromisso para cessar os testes nucleares.

A aproximação ocorreu nos Jogos Olímpicos de Inverno de PyengChang, após a Coreia Norte se mostrar aberta a mandar uma delegação. Um mês após os jogos, em março de 2018, a Coreia do Sul anunciou em Washington que Kim Jong-un estava aberto a um encontro com Trump. Desde então, eles já se reuniram três vezes.