LGBT
17/12/2019 15:24 -03

Ser uma pessoa não-binária e participar de um concurso de beleza é uma revolução

O. Stecina participou de concurso em outubro de 2019, apesar de não se identificar como mulher -- e mostrou que não existe uma só maneira de ser não-binária.

O. Stecina
“Fiquei muito empolgada em abraçar meu lado feminino, mesmo não sendo mulher”, diz O. Stecina, uma adolescente não-binária que participou do concurso Miss Colorado USA.

Concursos de beleza já não despertam o mesmo entusiasmo. A ideia de julgar mulheres com base em ideais de beleza a estereótipos de gênero antiquados parece cada vez menos relevante. Nossa sociedade continua a evoluir, entendendo e aceitando identidades e abordagens de gênero que virtualmente não existiam algumas décadas atrás.

Mas não é assim que O. Stecina, uma adolescente de 19 anos, enxerga os concursos de beleza. Ou, pelo menos, não é assim que Stecina enxerga sua participação em um concurso desses.

Stecina, que não se identifica nem como homem nem como mulher e prefere o uso de pronomes neutros ― e se identifica como uma pessoa não-binária, participou do concurso Miss Colorado USA no final de outubro.

O que é não-binário?

Pessoa cuja identidade de gênero ou expressão de gênero não está limitada às definições binárias de masculino ou feminino. Algumas podem sentir que seu gênero está “em algum lugar entre homem e mulher” ou que é totalmente diferente dos dois pólos.

“Eu meio que tinha pensado na ideia de participar de um concurso desses antes de me dar conta de que sou uma pessoa não-binária”, disse Stecina ao HuffPost. “Queria me dar permissão de ser bonita além dos limites do que se considera uma mulher. Quero acabar com esses estereótipos de gênero, então estamos falando de beleza em todos os gêneros. E também parece meio absurdo – é a última coisa que esperariam de mim, então a ideia era ainda mais interessante [risos].”

Stecina, que não sabia quase nada sobre essas competições, tinha como missão derrubar a imagem estereotipada das participantes de concursos de miss – mulheres “insípidas, vaidosas, bonecas Barbie”.

O. Stecina
Stecina posa com Madison Dorenkamp, a Miss Colorado USA de 2019.

Stecina fez uma campanha de crowdfunding para arrecadar o dinheiro para fazer a inscrição. Amigos e parentes tinham reservas, mas apoiaram a ideia. Mas as dúvidas vieram após o anúncio oficial de que participaria do concurso. 

“Recebi alguns comentários horríveis na campanha de crowdfunding, mas depois me acostumei”, afirmou ao HuffPost. “Acho que as pessoas me tratam melhor depois de me conhecer. Essas ameaças são vazias. Quando me veem como pessoa, em geral [as pessoas] melhoram.”

Stecina não se abalou com as críticas – pelo contrário. Sua vontade de participar do concurso só aumentou. “Queria que o mundo tivesse um exemplo de pessoa não-binária nessa arena, queria provar que tinha muita gente errada”, disse. “Ninguém vai me fazer desistir com comentários maldosos ou dizendo no Instagram que eu deveria me matar. Vou seguir em frente.”

Antes de competir, porém, havia um obstáculo importante. As regras do evento – organizado pela Future Productions – diz que as participantes devem ser legalmente reconhecidas como mulheres.

“Na minha carteira de identidade, tem um ‘X’ no lugar do gênero, então o estado do Colorado me reconhece como não-binário”, afirma Stecina. “Mas a mulher [da Future Productions] com quem conversei me defendeu. Tivemos de dar um jeitinho, mas acredito que não seja tão incomum como você pode imaginar. Foi a primeira coisa que esclareci. Perguntei num email: ‘Só pra avisar, não sou menina. Posso competir mesmo assim?’ E eles disseram: ‘Claro, queremos te ver’.” 

Participar do concurso foi uma experiência transformadora para Stecina, que fez amigos e adorou o clima todo. As outras competidoras e a equipe da organização foram muito receptivas, e Stecina elogia especificamente o mestre de cerimônias, que sempre usou pronomes neutros.

Stecina não foi muito longe no concurso. Mesmo observando que as finalistas todas pareciam enquadrar-se nos padrões “tradicionais” de beleza e de gênero, existiu uma ótima oportunidade para o início de uma mudança.

“Uma das competidoras tinha paralisia cerebral, e ela recebeu tanto amor durante o concurso”, conta Stecina. “Acho que temos muitas chances de brilhar nessas competições estaduais. Se houver mais gente entrando nesse mundo, em vez de nem pensar na ideia por causa das expectativas da sociedade, certamente vamos ter mais variedade.”

Stecina também ganhou um prêmio – o Prêmio do Diretor, conferido a quem demonstra mais gentileza e atitude positiva.

O. Stecina
Stecina posa com a família nos bastidores do concurso.

“Não sabia muito o que esperar”, afirma Stecina. “Estava feliz só por poder colocar minha participação no meu currículo e ter algumas fotos. Mas saber que as pessoas gostaram de mim também foi muito legal.”

A experiência mudou a opinião de Stecina sobre concursos de beleza – mas, acima de tudo, como enxerga sua identidade de gênero. Stecina afirma que o clima foi menos tenso que outras competições que já participou no passado e não tinham a ver com beleza.

“Fiquei muito feliz em abraçar meu lado feminino, mesmo não sendo mulher, se é que faz sentido dizer algo assim”, diz Stecina. “Quando você sai do armário, é difícil – você sente a necessidade de se distanciar da pessoa que era e tornar-se completamente andrógino. Mas não existe uma só maneira de ser não-binária. Foi muito empoderador entrar em contato com esse meu lado, maquiada, usando vestidos lindos. Não costumo me maquiar, mas adoro a ideia de me arrumar. Foi incrível permitir-me sentir mais orgulho do meu lado feminino, em vez de tentar escondê-lo.” 

Stecina curtiu até mesmo os sapatos de salto alto, apesar de não ter planos de voltar a usá-los tão cedo – “odeio”, disse ela, rindo. “Acho que estou mais à vontade para me arrumar e experimentar coisas que antes eram não estavam no meu radar. Adoro o que consigo fazer artisticamente.”

Stecina estuda cinema de documentários na faculdade e não tem interesse em seguir participando de concursos de beleza. Mas oferece um conselho para outros não-binários: se joguem.

“Acho que muitos não-binários têm medo de que sua identidade sempre vá ser o foco da atenção em tudo o que fazem, mas é importante experimentar coisas novas, ocupar novos espaços, mesmo achando que não são lugares para eles”, afirmou Stecina. “O mundo está se tornando um lugar mais acolhedor. Se você quiser subir naquele palco, tem tanto direito quanto uma pessoa cis. O mais importante é sentir-se empoderado. Permitir-se passar por uma experiência como essas, que pode ser meio assustadora, é muito empoderador.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.