Por que na quarentena estou pensando tanto em comer?

Um debate sobre como a nossa relação com a alimentação mudou no isolamento.

Depois de mais de 80 dias em casa, posso dizer com completa certeza que não consegui, durante meus dias de isolamento até aqui, passar mais de 24 horas sem pensar, com frequência, em comida. A intensidade com que a alimentação ganhou espaço no cotidiano durante este período não é, porém, exclusividade minha.

Nos últimos dias, até a cantora sertaneja Marília Mendonça postou no Twitter que só pensa em comer.

Depois da publicação, não demorou muito para uma legião de seguidores compartilhar o mesmo sentimento:

Mas por que será que, na quarentena, pensamos tanto em comer?

Para responder a essa questão, falei com a psicóloga clínica Iana Ferreira. Ela explicou que o isolamento causado pela covid-19 é uma situação de estresse e que recorrer a comida em condições extremas é mais comum do que imaginamos.

“A gente vive um momento que exige muito mais energia para resolver situações do cotidiano. Quando o nosso corpo e a nossa mente começam a notar que está tudo diferente, consequentemente vão caracterizar a situação como estressora. Por isso, a comida funciona como uma ação que vai diminuir a ansiedade que estamos sentindo”, justifica.

Ansiedade causada pelo momento inusitado da pandemia requer mais energia para nosso organismo.
Ansiedade causada pelo momento inusitado da pandemia requer mais energia para nosso organismo.

Não é exagero da minha parte dizer que tenho uma lista de restaurantes que gostaria de visitar quando pudermos sair na rua novamente. Também admito que assisto muitas receitas na internet e que elas me dão certa paz. Às vezes, me arrisco até a cozinhar (algo que não fazia antes com frequência por falta de habilidade).

A sensação que a comida me traz, claro, tem explicação. É que quando a gente come, libera hormônios de prazer. “Toda festa ou encontro social tem no mínimo café e bolacha. A comida tem muita relação com memórias boas. Por isso, buscamos nela o relaxamento”, explica Ferreira. “Se formos mais atrás, na infância, nosso primeiro momento de prazer na vida é a amamentação”, completa.

O que vivemos neste momento de quarentena é o que a nutrição chama de fome emocional.

“Estamos mais estressados, ansiosos e tristes, por isso vinculamos os sentimentos à vontade de comer. Não é necessariamente fome e não tem nem estômago roncando, mas ainda assim você quer.”

- nutricionista Aryane Emerick, da startup n2b

Mas até que ponto é ok pensar tanto em comida?

Com o noticiário brasileiro, que envolve crises sanitária e política, somadas ao isolamento que entrou no terceiro mês, tá justificado se sentir ansioso e comer um pouquinho mais. O que não pode acontecer é o excesso se tornar um hábito. “Se isso começa a ganhar muita proporção, você acaba produzindo outros estresses e problemas”, diz a psicóloga.

É que “comer seus sentimentos” não ajuda muito. “Vira uma válvula de escape em que você não escapa de nada e não chega a realmente resolver a ansiedade. É temporário, comer libera alguns hormônios e dá uma sensação de saciedade, mas o prazer passa e o que te levou a ficar ansioso segue contigo”, diz ela.

É o mesmo processo que ocorre durante este período com o consumo de bebidas alcóolicas. Ao comer compulsivamente (ou beber), a gente nem percebe o gosto das coisas, ingere sem prestar atenção e, às vezes, fica com efeitos que podem ser ruins até fisicamente.

O conselho de Ferreira é encarar os problemas de frente: “O que está te causando estresse e ansiedade? Cada um vive a quarentena de uma forma particular, mas o ideal é refletir sobre o que está pegando pra você. É o relacionamento familiar? O medo da doença? Insegurança financeira? Solidão?”. Tratar a questão pela raiz é o que de fato te fará controlar a fome emocional e todos os outros sentimentos.

No entanto, tudo começa quando você toma a consciência de que o que estamos vivendo é algo bem maluco e inédito. “É importante entender as características do agora e se situar dentro do que é possível. Não tente ter a mesma performance de antes e respeite os novos desafios; tentar se adaptar é uma forma de disparar menos gatilhos”, aconselha.

E o que pode ajudar a controlar os excessos?

“O ponto principal é caprichar em frutas, verduras e legumes para manter uma boa imunidade”, aconselha a nutricionista Aryane Emerick, da startup n2b. “Ricos em fibra, estes alimentos vão dar a saciedade necessária pra gente não sentir vontade de comer o tempo todo.” Também é importante se hidratar e ter comidinhas mais saudáveis sempre por perto.

Além dos lanches e doces, outros alimentos também liberam hormônios de bem-estar, como banana, cacau e vegetais verde escuro. Não é que quando sentir vontade de comer chocolate vai comer brócolis, calma. “Se essas coisas forem consumidas ao longo do dia, vão inibir um pouco a vontade de comer doces. O ideal é manter uma alimentação equilibrada, mas sem restrições”, diz a nutricionista.

Esportes também são uma saída para liberar toda a energia acumulada, mesmo que em casa. Agora, se mesmo assim estiver difícil lidar com tantos sentimentos e fome, o ideal é procurar uma equipe multidisciplinar. “O psicólogo cuida dos gatilhos emocionais e o nutricionista, da alimentação. Em conjunto, os dois abrangem a pessoa como um todo”, aconselha Emerick.

Alerta para um outro mal da questão: a gordofobia

Outro fato que merece atenção na relação alimentação versus quarentena é a gordofobia explícita nos memes sobre engordar durante o isolamento. Ativista da causa, Alexandra Gurgel, do @alexandrismos, explica por que é tão ofensivo e cafona fazer piada com isso.

“Se pararmos pra analisar, este é o mesmo pensamento de quem imagina que vai emagrecer 10 kg em uma semana. É resultado da cultura da dieta que nos faz achar que é preciso ter um corpo de tal jeito porque ele é o ideal”, explica.

E não para por aí: a questão pode indicar uma compulsão e um medo pessoal. “Falar que você vai acabar a quarentena gorda só mostra que você não tem uma boa relação com a comida. Comer compulsivamente não é uma coisa de pessoas gordas, mas sim de quem tem problema alimentar”, analisa. Segundo ela, o meme gordofóbico “desumaniza o corpo do gordo” e o marginaliza.

“As pessoas precisam entender que existem corpos diferentes, que essas são características físicas e que tá tudo bem. Não é porque uma pessoa é gorda que ela come excessivamente e engorda 40 ou 50 kg em um mês”, finaliza.