Como lidar com o medo diante de uma decisão e o que significa 'seguir a intuição'

Para a nossa análise mais racional, uma lista de prós e contras é suficiente. Mas a parte mais emocional da nossa escolha é mais difícil de ser aprendida ou ensinada.

Passar por uma mudança pode ser assustador. Mesmo quando a transformação é positiva, ainda assim dá medo. É o medo do desconhecido, que vem com o pensamento: “não sei o que vai acontecer”. É medo do processo, que vem com a indagação: “e se durante a mudança tiver muito sofrimento?”. E é o medo do fracasso, que é a angústia de passar por toda uma fase de transição e, no fim, não ter o resultado esperado.

O medo, inclusive, é uma de nossas emoções mais ancestrais. E ele surge como um mecanismo de proteção e sobrevivência para que a gente resista, tanto individualmente quanto coletivamente.

Mas o medo tem se transformado ao longo do tempo. Se antes a gente vivia ameaças de extinção, hoje vivemos medos ligados a ameaças afetivas, financeiras, de autoestima e realização.

Justamente por isso, grandes mudanças, muitas vezes, nos exigem grandes reflexões. Mas o que será que devemos levar em conta em todo esse processo? E como não torná-lo tão desgastante emocionalmente?

“Acho que a primeira escolha importante é dar o passo e abrir mão do controle, pois não sabemos o que o futuro nos reserva”, explica Vivian Wolff, especialista em desenvolvimento humano, em entrevista ao HuffPost Brasil.

De acordo com ela, lembrar da impermanência da vida e praticar a aceitação são fundamentais em um processo de mudança, quer ele seja turbulento ou não.

Como ouvir a própria intuição para escolher que caminho seguir?
Como ouvir a própria intuição para escolher que caminho seguir?

O que você deveria levar em conta na hora de tomar uma decisão

Em termos científicos, podemos entender a tomada de decisão como um processo cognitivo que envolve análises emocionais e racionais de nossas experiências passadas. Aliado a isso, consideramos os riscos e suas implicações para o presente e para o futuro.

São vários os fatores que podem influenciar cada uma dessas etapas, tais como: a falta ou excesso de informações; complexidades ou não do conteúdo; os contextos de incertezas; nosso valores e crenças; o raciocínio; e os recursos emocionais de cada indivíduo.

Mas como, de fato, tomar uma decisão? Bom, para alguns casos, a famosa lista de prós e contras, que parece simples, é uma ótima ferramenta. Em outros, principalmente quando envolve contextos mais subjetivos, ela se torna insuficiente.

Isso porque, por muito tempo, o ser humano achou que ele só decidia de forma racional. Foi, principalmente, com os avanços dos estudos em psicologia, teorias comportamentais e economia que a gente passou a entender que nossas decisões são muito mais emocionais do que a gente pensa.

“Precisamos levar em conta a influência do inconsciente em nossas decisões. Aliás, poucas são as decisões conscientes que tomamos”, explica a especialista em neurociência Cecília Barreto.

E quando falamos em inconsciente, estamos falando, principalmente, dos nossos vieses cognitivos.

“Os vieses são espécies de ‘leis’ que o nosso cérebro cria para diminuir o trabalho dele. Existe todo um algoritmo para que eu não precise ficar tomando consciência de todas as decisões o tempo todo. Porque a consciência exige muito esforço da parte mais elaborada do nosso cérebro. Para evitar isso, há todos esses vieses para automatizar grande parte dessas decisões”, argumenta a especialista.

Os vieses impactam o nosso dia a dia das pequenas às grandes decisões. E, segundo Barreto, o que a gente precisa fazer é não deixar que a nossa vida seja refém de um deles. Ou seja, a gente precisa trazer para a consciência as nossas decisões.

″É nesse sentido que a decisão mais emocionalmente inteligente é aquela em que você consegue unir a razão e a emoção”, defende.

Para a nossa análise mais racional das decisões, não tem muito mistério. Como disse anteriormente, uma lista de prós e contras é suficiente. Mas a parte mais emocional da nossa decisão é mais difícil de ser aprendida ou ensinada. Ela é a nossa intuição.

“A nossa intuição, na realidade, é muito mais científica e biológica do que a gente pensa. Ela é uma espécie de grupo de ‘dicas’ que o nosso inconsciente nos dá por conta de todos os aprendizados passados que estão na gente, mas que eu nem sempre consigo me lembrar de forma consciente. Também são os aprendizados coletivos que foram passados evolutivamente por conta do nosso desenvolvimento como sociedade e até mesmo por nosso material genético”, explica Barreto.

E como lidar com a falta de controle e frustração

Mas e como a gente lida com o descontrole em todo esse processo de decisão? Aqui vai o spoiler: a gente não lida. A gente simplesmente aceita o fato de que não dá para controlar tudo, muito menos em um processo de mudança.

Muitas pessoas dizem que a grande sabedoria da vida é você compreender as coisas sobre as quais você tem controle e aquelas que você não tem. E aí você entende como você pode agir sobre elas.

“O controle, em si, é uma grande ilusão. E o nosso cérebro sofre muito por isso. Tem muitos estudos que falam sobre como a sensação de ter controle já diminui a ansiedade”, argumenta a especialista em neurociência.

Já que eu não posso ter controle de tudo, o que eu preciso fazer para me sentir melhor em um processo de tomada de decisão? Uma boa estratégia, segundo Barreto, é aumentar aquela esfera sobre a qual eu sinto que tenho controle.

“Em um dos estudos sobre ansiedade e ilusão de controle, eles usam o exemplo de idosos que estão se aproximando da morte. Aqueles idosos que começaram a cuidar de uma plantinha no asilo se sentiram muito mais felizes e melhores porque eles tinham uma coisa na vida deles que estava sob controle”, compartilha.

Talvez, então, seja assim que a gente precise aprender a agir na nossa vida. Entender que, diante de uma grande decisão e uma oportunidade de mudança, a gente precisa ressaltar aquilo que está sob o nosso controle — e agir sobre isso. E, é claro, sem esquecer de ouvir a nossa intuição.