Pare de viver como se não estivéssemos no meio de uma pandemia

"Temos de mudar de mentalidade e aceitar que a pandemia não durará para sempre. Você vai voltar a jantar fora com os amigos ou passar um fim de semana na praia no futuro."

No início da pandemia do coronavírus, muitos americanos tinham grandes esperanças para o verão do Hemisfério Norte: “Talvez quando as crianças estiverem de férias o vírus estará sob controle e a gente consiga viajar”. “Talvez o clima quente diminua drasticamente a propagação do coronavírus.”

Quem dera. Mais de seis meses depois do início da pandemia, o vírus claramente veio para ficar. O verão, infelizmente, não é uma solução mágica. E fica a lição para o Brasil. Temperaturas mais altas não impediram que aumentassem os casos de covid-19, mortes e hospitalizações em várias regiões dos Estados Unidos. Ainda não temos uma vacina. Alguns especialistas dizem que o uso generalizado de máscaras pode diminuir as taxas de infecção, mas a batalha em relação ao uso das proteções faciais só se intensificou. É tudo muito preocupante, para dizer o mínimo.

Ainda assim, essas preocupações não impediram muitos americanos de procurar uma fuga. Vídeos postados nas redes sociais mostraram grandes multidões reunidas em frente ao palco em um show da banda Chainsmokers nos Hamptons, uma praia no estado de Nova York. A timeline e os stories do seu Instagram provavelmente estão cheios de pessoas postando fotos e vídeos de seus churrascos, férias, praia e piscina.

O parque Walt Disney World, na Flórida, um estado muito atingido pela pandemia, reabriu em julho com regras rígidas para os visitantes (uso obrigatório de máscaras, medição de temperatura). Vídeos nas redes sociais mostraram integrantes do elenco circulando pelo parque, vestidas como Belle e Ariel e outras princesas da Disney, sem máscara. Mesmo no calor da Flórida, vestir uma fantasia completa de Mickey ou de Sr. Incrível parece preferível.

Visitantes acenam para o Sr. Incrível durante uma aparição de personagens da Pixar no Disney's Hollywood Studios, no Walt Disney World, em 16 de julho, o segundo dia após a reabertura do parque.
Visitantes acenam para o Sr. Incrível durante uma aparição de personagens da Pixar no Disney's Hollywood Studios, no Walt Disney World, em 16 de julho, o segundo dia após a reabertura do parque.

Se você está comportado em casa, ver essas imagens é meio enlouquecedor. Um tweet recente do jornalista Louis Peitzman apontou a incongruência de ver pessoas agindo como se este fosse um verão como qualquer outro ― enquanto os casos de covid-19 aumentam.

“Se você não vai respeitar o distanciamento social, considere não postar fotos com seus amigos ou de você na praia sem máscara”, disse Peitzman. “Não porque você será julgado – embora possa acontecer! – mas por causa do efeito que isso vai ter sobre seus seguidores.”

É estranho ver as pessoas fazendo festa ou curtindo a Disney no meio de uma pandemia. Mas, como escreveu Peitzman no Twitter, ainda mais estranho é se forçar a conciliar essas imagens com a sua própria aceitação relutante da realidade. Em que pandemia essas pessoas estão vivendo? Porque certamente não é a mesma para todo mundo.

“Em geral minha reação a essas fotos é de raiva, mas lá no fundo também tem um pouco de dúvida”, escreveu Peitzman. “Passo o dia inteiro lendo estudos e acompanhando os números de novos casos, hospitalizações e mortes, e AINDA ASSIM, vejo muitas fotos de gente sem máscara. Penso que talvez o louco seja eu. Isso desgasta.”

Apesar das recomendações médicas, as pessoas claramente têm opiniões muito diferentes sobre o que é seguro e o que não é. Isso é especialmente verdadeiro para os mais jovens. A crença até agora geralmente era de que pessoas mais jovens tinham menos probabilidade de sofrer consequências graves da exposição ao coronavírus, o que levou alguns a se comportar como se fossem imortais. Essa é uma aposta arriscada: à medida que a primeira onda do vírus começa a ressurgir, a idade média dos americanos que contraíram o coronavírus diminui.

Mas é difícil que os jovens aceitem isso, diz Susan Newman, psicóloga e autora de um livro sobre a dificuldade que temos para nos impor e dizer “não”.

“Ao contrário dos adultos mais velhos, é óbvio que não faz sentido científico que os jovens não se preocupem em contrair o vírus”, diz ela ao HuffPost. “Mas o coronavírus é traiçoeiro e não se importa com sua idade, que você está ‘cansado’ e que precisa dar um tempo.

A fadiga da quarentena fez com que muita gente recorresse a uma espécie de pensamento mágico.

“O problema é que esses passatempos divertidos ou relaxantes não vão resolver o que é uma crise galopante”, disse Newman. “As horas ou a semana de férias longe do isolamento podem parecer maravilhosas, mas a longo prazo podem ser uma imprudência.”

Por vários motivos. Você pode acreditar na “imunidade de rebanho” e dizer: “Se eu pegar, peguei, não posso parar de viver minha vida”. “Mas e sua família?”, questiona Newman.

“Quando você ‘dá um tempo’ no distanciamento social e no uso de máscara, corre o risco de levar o coronavírus para casa, para aqueles com quem vive ou vê regularmente, mesmo que não tenha sintomas”, diz ela. “Vale a pena?”

Além disso, quer ficar doente numa viagem, longe do conforto de casa e possivelmente preso naquele lugar por um tempo indeterminado?

Muita gente e pouca máscara em Huntington Beach, na Califórnia. Os moradores da cidade ao sul de Los Angeles têm sido particularmente resistentes às máscaras e ao isolamento, apesar do aumento de casos na região.
Muita gente e pouca máscara em Huntington Beach, na Califórnia. Os moradores da cidade ao sul de Los Angeles têm sido particularmente resistentes às máscaras e ao isolamento, apesar do aumento de casos na região.

E é claro que o problema não está circunscrito à sua família: digamos que você vá para a praia. Você e sua família podem passar momentos maravilhosos, mas e os garçons? E a comunidade local?

E o pessoal do hotel que pode ter pessoas vulneráveis na família? E os funcionários dos restaurantes cujos chefes os obrigam a trabalhar, sob o risco de perder o emprego? E os funcionários dos hospitais sobrecarregados e com poucas condições de lidar com outro surto?

A verdade é que todo mundo quer viajar, mas este vírus exige que tenhamos uma visão mais holística de nossas escolhas pessoais e menos individualista.

“A cultura americana é conhecida pelo individualismo”, diz Melissa Wesner, conselheira e proprietária da LifeSpring Counseling Services em Towson, Maryland. “Pensamos em nós mesmos e em nossos desejos, necessidades e objetivos pessoais. Um dos problemas que está surgindo neste momento é nossa capacidade de demonstrar preocupação e compreensão pelos outros.”

Países mais coletivistas podem ter uma vantagem no combate ao coronavírus, já que tendem a priorizar o coletivo, não o indivíduo.

“São países em que o que é benéfico para os outros ou para a comunidade, em geral, vem em primeiro lugar”, afirma Wesner. “A decisão de não usar máscara, apesar das recomendações médicas, mostra que estou pensando em meus próprios desejos e necessidades e que não estou preocupado com o impacto disso nos outros.”

Não se trata de atacar quem sai de férias. Depois de tanto tempo trancados em casa, está todo mundo ficando maluco. Nunca precisamos tanto de um tempinho: estamos trabalhando sem descanso ― ou, se formos demitidos no início da pandemia, estamos procurando trabalho. Para piorar as coisas, vemos outros países que lidaram melhor com o vírus começando a reabrir sem grandes sobressaltos. “Por que aqui é diferente?”, pensamos.

“Um pouco de diversão – ou talvez um pouco de negação – às vezes pode ser útil, mas no final das contas crescemos e progredimos quando enfrentamos as coisas difíceis.”

- Amelia Aldao, psicóloga de Nova York especializada em ansiedade

Com todo esse estresse, é essencial tirar um tempo para si mesmo. Faça uma viagem curta. Procure uma trilha próxima da sua casa, ou então marque um piquenique com amigos – mantendo distância segura, claro.

Mas saiba que agora não é a hora de fazer grandes planos. Curtir a vida num barco ou numa ilha tropical ou reunir três gerações de sua família por uma semana não é responsável.

Como diz Amelia Aldao, psicóloga de Nova York especializada em ansiedade, negar o problema ou fazer grandes planos de férias não vão mudar a realidade.

“Existem muitas situações na vida que são tão difíceis, estressantes ou traumáticas, que ir para um lugar onde fingimos que não há problemas ou que as coisas não estão tão ruins pode ser psicologicamente útil”, disse ela. “Precisamos de esperança, precisamos de um sentimento de pertencimento. E às vezes os fatos não ajudam com isso.”

Mas a negação também significa subestimar os riscos, o que pode acabar criando uma situação ainda mais perigosa, diz Aldao. Ansiamos por uma fuga, mas, na verdade, o importante é encontrar um equilíbrio saudável entre fuga e realidade.

“Um pouco de diversão ― ou talvez um pouco de negação – às vezes pode ser útil, mas no fim das contas, crescemos e progredimos quando enfrentamos as coisas difíceis”, afirma Aldao.

“No caso da covid, entender e aceitar os riscos é uma abordagem mais equilibrada e psicologicamente saudável do que fingir que o risco não existe.”

Assumir essa responsabilidade é difícil, mas, em última análise, extremamente fortalecedor.

Como gerenciar nossas expectativas quando realmente precisamos de um tempo.

O primeiro passo para lidar com a pandemia no verão é aceitar que a realidade da pandemia. Fazer nada (ou quase nada) tem de ser encarado como a regra. Comece a planejar uma próxima grande viagem para quando houver segurança. Pense em seus objetivos de férias (e em geral) no longo prazo.

Lembre-se de que, se você tiver direito a férias, pode aproveitá-las mesmo que não tenha para onde ir e nem nenhum plano específico.

“Afaste-se do trabalho, desligue o celular e o computador por alguns dias”, diz Newman. “Faça caminhadas ou corridas mais longas, pinte um quarto ou termine aquele projeto que sempre ficou para depois. Você ficará surpreso como pode ser revigorante cumprir uma meta que você estabeleceu para si mesmo.”

Obviamente, dar um tapa no quarto ou na sala de estar não é o mesmo que se esparramar na areia com uma cerveja na mão. Mas pode ser uma ótima maneira de melhorar seu ânimo – sem abrir mão da segurança.

Se a vontade de viajar ou ver os amigos for irresistível, pergunte-se o que está causando esse sentimento, diz Aldao. Que necessidade emocional será preenchida por uma viagem ou uma garrafa de vinho? Em seguida, pergunte-se: Existem versões menos arriscadas dessa atividade (para você e outras pessoas) que satisfaçam a mesma necessidade?

“Por exemplo, se você está louco para ir a uma festa, você pode encontrá-los num espaço ao ar livre, guardando uma distância segura”, afirma ela.

Numa época de tantas regras e restrições, é extremamente importante nos conectarmos com o que nos motiva: por que estamos fazendo o que estamos fazendo, segundo Aldao.

Newman concorda. Essa é uma abordagem muito mais saudável para viver com o coronavírus do que simplesmente negar sua existência.

“Sair por aí como se a pandemia não existisse é uma forma perigosa de negação”, afirma Newman. “Temos de mudar de mentalidade e aceitar que a pandemia não durará para sempre. Você vai voltar a jantar fora com os amigos ou passar um fim de semana na praia. Serão muitos jantares e festas com amigos no futuro.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.