Como o poliamor me preparou para ser mãe

Tive vários tipos de relacionamento com várias pessoas. Todas essas experiências me ensinaram a ser a melhor mãe possível.

Quando tinha 20 e poucos anos, era fã do poliamor, ou “a prática de ter múltiplos relacionamentos íntimos, sejam sexuais ou apenas românticos, com o pleno conhecimento e consentimento de todas as partes envolvidas”, como diz o Psychology Today. Houve ocasiões em que tive uma parceira “principal” e outros relacionamentos “secundários”, mais casuais. Também fiz parte de um trio romântico. Nós três saíamos juntas e dormíamos na mesma cama. Um certo ano, mantive três relacionamentos sérios ao mesmo tempo. Todas as pessoas envolvidas se conheciam, e duas delas também namoravam entre si. Foi um mestrado autodidata em dinâmica humana.

Na época, era o estilo de vida mais libertador que eu conseguia imaginar. Mas, cinco anos mais tarde, depois de passar por vários rompimentos dramáticos e de ter um emprego que me consumia em tempo integral, descobri que a monogamia funcionaria melhor para a minha vida romântica, sexual e familiar.

Hoje, estou num relacionamento monogâmico e comprometido. Tenho uma filha de 10 anos e um filho de 2 anos e meio, além de outro bebê a caminho. Mesmo que não pratique mais o poliamor, fico feliz quando lembro dessa parte da minha vida. Dei-me conta de que o poliamor me preparou para ser mãe.

Eis o que aprendi:

Como equilibrar (e programar) as necessidades de várias pessoas ao mesmo tempo

O poliamor me ensinou a navegar a complexa teia de necessidades de várias parceiras românticos. Passávamos incontáveis horas discutindo o que queríamos – mais atenção individual, dormir junto uma vez por semana etc. ― e como fazer isso acontecer dentro dos limites das agendas de cada um.

Tudo ia bem quando deixávamos claras as nossas expectativas.

Na minha família atual, as conversas com minha parceira e minha filha de dez anos são parecidas com as de dez anos atrás. Descobrimos que minha filha precisa de uma rotina diária para se acalmar, então fizemos uma lista para ela, começando com “escovar os dentes” e terminando com “ir para a cama”. Minha parceira, um espírito livre, aprecia ter um dia por semana sem nenhuma programação definida, para a família fazer o que der vontade (ironicamente, planejamos que dias serão estes). Nosso filho precisa brincar ao ar livre todos os dias, senão é impossível fazê-lo para dormir. E também preciso passar um tempo sozinha para manter minha sanidade.

Esse processo de destilar nossas necessidades em itens práticos e programáveis ajuda cada pessoa a obter o que precisa e, de modo geral, melhora a harmonia familiar.

Como entender e priorizar meus sentimentos

Quando era pequena, eu ― como tantas pessoas que são socializadas como mulheres em nossa sociedade ― não aprendi a expressar e a dar prioridade às minhas necessidades. Costumava colocar a felicidade dos outros em primeiro lugar e só pensar em mim quando todo mundo já estava satisfeito. Praticando o poliamor, logo ficou claro que essa não era uma forma viável de existir em relacionamentos mútuos. Se não fosse clara sobre meus próprios limites a respeito, por exemplo, das práticas de sexo seguro, todos os meus relacionamentos sofreriam as consequências. Por tentativa e erro, criei a autoconfiança necessária para articular e expressar o que sentia e o que queria.

Não quero ser o tipo de mãe que se sacrifica pelos filhos. Quero que meus filhos aprendam a valorizar e a expressar seus próprios sentimentos e necessidades. A melhor maneira de fazer isso é dando o exemplo.

Quando me sinto sufocada ou exasperada com a maternidade (especialmente durante essa experiência intensa da pandemia), cuido de mim mesma. Ligo a TV para as crianças para que elas me deixem sozinha por meia hora. Aí consigo escrever minhas frustrações no meu diário ou tomar um banho de sais. Peço a ajuda da minha parceira e saio para uma caminhada na floresta ou então ligo para minha melhor amiga, que está sempre disposta a ouvir minhas reclamações.

Aprendi que meu relacionamento principal é comigo mesma – se cuido de mim, consigo cuidar dos outros, e minha família toda se beneficia.

Tudo bem ter sentimentos diferentes por pessoas diferentes

Não é possível sentir exatamente a mesma coisa por pessoas diferentes. Embora em muitos casos eu amasse e valorizasse minhas parceiras na mesma medida, a qualidade de nossas conexões e o que eu apreciava em cada uma delas variava muito. Com uma parceira, eu adorava sair para dançar até as 2h, e ela sempre soube me fazer rir. Com outra, minha coisa favorita era tomar chá e ler poesia.

Os sentimentos também são diferentes em relação à minha filha de 10 anos, que conheci quando ela tinha 5, e ao meu filho de 2 anos e meio, que conheço desde a concepção. Não que o ame mais ― é apenas um relacionamento diferente. Meu filho quer ficar comigo a noite toda e pula em meus braços todo empolgado quando fica mais de uma hora longe de mim. Minha filha quer fazer experimentos científicos e me explicar as complexidades da série Harry Potter.

Houve momentos em fiquei preocupada com essas diferentes conexões que sinto com cada um dos meus filhos. Lamentei a perda daqueles primeiros anos fofinhos e ricos em oxitocina com minha filha. Mas também sei que nosso relacionamento único tem pontos fortes que me ajudam a entendê-la e a pessoa que ela está virando. Se você não tem a expectativa de sentir exatamente as mesmas qualidades de amor e conexão com seus filhos, fica livre para enxergá-los como indivíduos e permitir que floresça a autenticidade de cada relacionamento.

Como comunicar-se de forma eficaz

Entender seus próprios sentimentos nem sempre é suficiente. Nos meus tempos de poliamor, pratiquei com rigor a arte da comunicação. A comunicação saudável não é monolítica. Todo mundo carrega traumas e histórias do passado, e muitas vezes filtramos nossa experiência por meio de nossa bagagem. Para alguns, dizer “Eu preciso de um pouco de espaço” parece uma necessidade claramente declarada. Para outros, parece uma rejeição de partir o coração.

Aprender sobre as expectativas de comunicação das minhas diferentes parceiras me ajudou a treinar a melhor maneira de transmitir minhas necessidades e emoções sem tropeçar em palavras que pudessem gerar ansiedade ou mal-entendidos.

As mesmas habilidades se aplicam aos meus relacionamentos minha parceira e meus filhos. São pessoas diferentes, cada uma com suas próprias maneiras de receber informações. Estou aprendendo a ser clara e comedida com minha filha, para que ela não se sinta criticada. Estou aprendendo a falar com meu filho em uma linguagem simples de criança e a me comunicar com minha parceira de maneiras que nos lembrem de que somos parceiras e amantes românticas, não apenas pais.

O ciúme é uma cebola

Navegando vários relacionamentos ao mesmo tempo, aprendi que o ciúme é uma emoção com muitas camadas. Para compreender nosso próprio ciúme, temos de descascar as camadas que provocam lágrimas e examinar o há por baixo. Para mim, muitas vezes, a primeira camada sob o ciúme era uma necessidade não-atendida de atenção ou intimidade com uma parceira, e a conexão dela com outra pessoa estava exacerbando a dor do meu desejo. Sob esse sentimento de necessidade não atendida normalmente havia alguma insegurança profunda que remontava à minha infância e não tinha nada a ver com o momento presente.

Pensar no ciúme como uma cebola é extremamente útil para navegar a dinâmica dos irmãos. Reconheço que quando minha filha fica com ciúmes da atenção que damos ao nosso filho, isso não tem nada a ver com ele ou conosco. Tento ajudá-la a descascar as camadas da cebola para chegar ao cerne de sua dor e curar o que realmente motiva aqueles sentimentos de ciúme.

A necessidade de entender a dinâmica da opressão

As dinâmicas de raça, classe e gênero são importantes. Elas afetam cada um de nós e têm efeitos profundos em nossos relacionamentos. Na minha experiência, os relacionamentos não funcionam bem a longo prazo se a dinâmica da opressão for invisível. Em meus tempos de poliamor, minhas parceiras e eu reconhecíamos as identidades interseccionais uma dos outras e fazíamos o máximo para manter em mente essas dinâmicas.

Como mãe branca de crianças chicanas, faço um esforço constante para impedir que as ideias racistas que absorvi ao crescer em nossa sociedade impactem negativamente minha parceira e meus filhos. Também tento lembrar que, como mãe, tenho uma posição de poder em relação aos meus filhos. Embora seja frequentemente apropriado tomar decisões por eles, também pode ser opressor (e irritante para minha pré-adolescente cada vez mais independente). Reconhecemos essas dinâmicas de poder dentro da família e sempre tentamos agir com justiça e compaixão.

Como navegar as diferentes linguagens do amor

Gary Chapman escreveu um livro chamado As Cinco Linguagens do Amor, que descreve cinco maneiras fundamentais através das quais as pessoas nas sociedades ocidentais dão e recebem amor. Essas linguagens de amor incluem: palavras de afirmação, atos de serviço, receber presentes, tempo de qualidade e contato físico. Embora existam muitas variações e nuances na maneira de amar, considero essa estrutura profundamente útil tanto no poliamor quanto na criação de filhos.

Eu amo palavras de afirmação. O cartão que minha parceira me escreveu no nosso terceiro aniversário de casamento é um dos meus bens mais preciosos. Quando brigamos, o leio para lembrar o quanto nos amamos. Saber como recebo amor me ajuda a manter os pés no chão em minha conexão com ela.

Sei que minha filha precisa de atenção individual e regular para sentir-se conectada. Portanto, programamos 10 minutos por dia durante os quais ela tem acesso exclusivo a nós duas, sem interrupções do irmão. Nosso filho precisa de carinho por dez minutos logo ao acordar. Aí ele está pronto para interagir pacificamente com todos nós. Com essas linguagens do amor em mente, as crianças recebem mais do que precisam, a dinâmica familiar fica mais pacífica e nós, mães, temos um pouco mais de espaço para respirar.


Navegar relacionamentos múltiplos é como tentar completar um quebra-cabeça infinito, no qual todas as peças estão em constante movimento. No poliamor e na criação de filhos, as pessoas crescem, as necessidades mudam e os relacionamentos evoluem continuamente. Isso é especialmente verdadeiro para crianças, que crescem física e emocionalmente – e muito rápido. Os humanos não são seres estáticos ― e é por isso que os amo. Eu achava que o poliamor era a maior aventura da intimidade. Agora eu entendo que foi, para mim, só um treino intensivo para o esporte 24/7 e de contato total que é a maternidade.

Conversamos com nossa filha sobre as diferentes dinâmicas de relacionamento, incluindo o poliamor. Com duas mães e um doador de esperma, ela já sabe que existem famílias de todo tipo. Quando meus filhos estiverem prontos, vou incentivá-los a explorar todo e qualquer tipo de relacionamento. Meu único objetivo para eles é que eles se envolvam em relacionamentos conscientes, justos e gentis ― românticos ou não ― pelo resto de suas vidas.

Marea Goodman é escritora, parteira e mãe de dois filhos. Este artigo apareceu pela primeira vez no HuffPost UK e foi traduzido do inglês.