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04/08/2020 06:00 -03 | Atualizado 04/08/2020 07:58 -03

Como o movimento antivacina pode atrapalhar o sonho de um mundo pós-pandemia

Em entrevista ao HuffPost, o divulgador científico Hugo Fernandes-Ferreira explica por que todos são prejudicados quando uma pessoa se recusa a se vacinar.

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Para Hugo Fernandes-Ferreira, o movimento antivacina faz parte de uma estratégia de controle de narrativa, de controle social.

Enquanto a população mundial aguarda ansiosamente uma vacina capaz de conter a propagação do novo coronavírus, há quem trabalhe contra e espalhe boatos sobre uma imunização que nem está disponível. As mensagens que rondam os grupos de WhatsApp em campanha contrária à vacina dizem que os efeitos colaterais são graves, que o imunizante pode gerar seres geneticamente modificados e até que usa células de fetos abortados. O alvo principal é a vacina chinesa, ainda em fase de testes. 

Essas mensagens com indícios claros de fake news podem atrapalhar os sonhos de todo um mundo ansioso pelo controle da pandemia, na avaliação do biólogo Hugo Fernandes-Ferreira, um dos principais divulgadores científicos do País. Ele tem traduzido para a população leiga, por meio do Instagram, o básico do método científico e buscado ampliar o debate em torno da ciência com lives com participação de políticos. Nesta segunda-feira (3), por exemplo, ele entrevistou a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, da Rede.

Para Fernandes-Ferreira, o movimento antivacina vai na contramão do que é preciso agora, que é conscientizar a população, por deliberadamente negar o conhecimento científico. “O movimento antivacina é acima de tudo assassino, não tem como suavizar em relação a isso”, disse, em entrevista ao HuffPost. Ele destaca que esses grupos têm ganhado reverberação ideológica com a pandemia. “O uso político está acontecendo agora pela extrema-direita, mas também já houve pela esquerda em outros países. E isso faz parte de uma estratégia de controle de narrativa, de controle social.” 

Dessa forma, segundo ele, o movimento sinaliza a seus apoiadores que eles não podem confiar no que chamam de “sistema”, mesmo que esse “sistema” seja todo baseado em ciência. Entrar em choque com a ciência tem sido uma tônica nesse contexto de pandemia. Outro exemplo abordado na entrevista é a aposta em fármacos sem eficácia comprovada, como a hidroxicloroquina e a ivermectina, apontados como “elixir da cura”. 

“Quando você eleva seja a hidroxicloroquina ou a ivermectina a esse estado de amuleto, bala de prata, esse uso político é muito grave. Sinaliza uma ação governamental como se fosse efetiva quando, na verdade, não é. Pelo contrário. As ações governamentais federais em relação ao coronavírus estão sendo criticadas mundo afora, o Brasil hoje é citado como exemplo do que não fazer diante da pandemia. O Brasil está se tornando um pária internacional sobre esse assunto”, ressalta.

Outra evidência de como o País se tornou mau exemplo é o platô no número de mortes e infecções. “Quando tem um país que o pico bate e fica em platô, o nome [disso] não é controle, é descontrole. O Brasil e Estados Unidos são exemplos de descontrole da pandemia. Isso é muito triste.”  

Leia trechos da entrevista:

HuffPost: Já começou a campanha de desinformação sobre as vacinas, que nem estão disponíveis. Esse movimento pode atrapalhar a imunização coletiva quando tivermos uma vacina confiável?

Hugo Fernandes-Ferreira: Sem dúvida vai atrapalhar. O movimento antivacina é acima de tudo assassino, não tem como suavizar em relação a isso. A população precisa entender como funciona o processo da vacina. Quando você tem uma doença como sarampo, que você vacina x% da população, e não atinge o percentual suficiente para criar barreira imunológica, é como se tivesse adiantado de nada ou muito pouco. 

O movimento antivacina é acima de tudo assassino, não tem como suavizar em relação a isso.

Imagine que você mora em um condomínio. É lá o lugar em que acontece toda sua vida. Se moram 100 pessoas e 70 forem vacinadas, as 30 que ficaram vão continuar circulando no condomínio e uma pessoa infectada vai passar o vírus com facilidade. Se das 100 pessoas, 88 ou 90 forem vacinadas, a possibilidade de os 10 que ficaram sem vacina serem infectados é pequena porque você cria uma barreira. O vírus cruza com pessoas que estão vacinadas e você não se depara com ele com facilidade. 

A vacina precisa de um percentual muito alto da população [imunizada] para que de fato seja efetiva. Quando esse percentual cai, mesmo caindo pouco, ele representa um risco muito grande. E a gente tem que pensar nos problemas. Um é a cobertura vacinal, que é de política pública e tem questão social envolvida. A geração que hoje tem mais de 50 anos cresceu com um problema do lado, ela conviveu com crianças atingidas pela poliomielite e a vacina já estava no inconsciente coletivo de que ela era importante. Hoje, não. Hoje, é preciso um trabalho maior para convencer uma parcela representativa da população a se vacinar. 

Tem ainda o movimento antivacina, que vai contra a ciência. Existe a pseudociência, que é quando você distorce o conhecimento científico e apresenta um sistema de crença como sendo válido cientificamente, e existe o pior de tudo, que é a contraciência, quando você deliberadamente nega o conhecimento científico, e esse movimento é muito perigoso. 

Por que existe esse movimento? 

Não tem uma única resposta para o porquê da existência do movimento antivacina. Você tem uma questão social que é: basicamente pessoas que não tinham relevância social em termos de serem referência em determinado assunto tinham pouquíssimas oportunidades de se tornarem referência falando besteira. E hoje você tem a internet. Com a internet, você coloca ali uma quantidade de pessoas, que no começo é pequena, mas que se reconhece como uma referência ― e é isso que as pessoas querem na verdade. Elas querem ser reconhecidas. Se você é reconhecido falando algo que corrobora a ciência, a história, a verdade, os fatos, tudo bem, está tranquilo. Mas se isso não acontece, se você cair em um caminho anticientífico e for reconhecido por isso, você vai continuar agindo assim, porque a sua preocupação é com você. 

A gente tem que estudar sentimento de grupo, de pessoas que não eram reconhecidas e passam a ser e aí começam a ser reconhecidas em torno de uma determinada pauta, como antivacinas.  

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Vemos políticos deliberadamente agindo contra ciência. Agora, o movimento antivacina tem ganhado reverberação em grupos de extrema-direita aqui no Brasil. Lembrando que eles não podem confiar no que chamam de “sistema”, mesmo que esse “sistema” seja todo baseado em ciência. Basta lembrar que entre os países que seguiram orientações da OMS e alcançaram sucesso no controle da pandemia há exemplos à direita, como a Alemanha, e à esquerda, como o Vietnã. O uso político de um movimento contracientífico é de controle de narrativa.  

Além desse movimento, quais serão os outros desafios quando tivermos uma vacina disponível?

Comprar a vacina. Isso é importante. Os Estados Unidos capitanearam a compra dos primeiros lotes possíveis de duas grandes empresas. Temos excelentes centros de saúde, de produtores que podem sim dar uma força na produção. Tem que ver como vão ser as questões burocráticas, mas mesmo com a vacina comprada será preciso pensar em como realizar essa cobertura vacinal para imunizar pelo menos 40%, 50% da população e isso demora muito. 

É um processo lento que exige logística. O Brasil tem um excelente histórico disso. Saúde pública brasileira tem um excelente histórico, é possível, sim. Mas estamos muito no começo, não sabemos como a vacina vai chegar. A gente não sabe se as vacinas vão ter que ser tomadas em mais de uma dose, ou uma vez ao ano, como vai ser a logística em cima disso. E também não sabemos como vai ser a reação da população. Há pesquisas que mostram que se a vacina for chinesa, há uma rejeição muito forte de parte da população. Como lidar com isso? Quem estudou História no Ensino Médio vai lembrar da revolta da vacina, no qual o modus operandi do governo era simplesmente obrigar as pessoas a tomar, com Exército invadindo as casas. Isso é algo impensável nos dias de hoje. Vai depender muito de política pública federal e aí infelizmente o exemplo que temos para o controle da pandemia não é bom. 

Aqui nós temos o próprio ministro da Ciência, Marcos Pontes, com covid-19 e dizendo que está tomando vermífugo, além do presidente Jair Bolsonaro ter feito campanha para a cloroquina e ivermectina. Qual impacto isso traz para a sociedade no combate à doença?

O caso mais exemplar é a cloroquina, e é prejudicial porque esses dois fármacos [hidroxicloroquina e ivermectina] não possuem comprovação científica para sua eficácia. Significa que há indícios e evidências de que eles podem, por exemplo, mitigar alguns sintomas e que podem ser oferecidos, sim, aos pacientes como meio de mitigar sintomas, ou uso compassivo. Mesmo quando está no começo da doença é aceitável ter uma lista de fármacos que mitigam esses sintomas. O que é inaceitável é você escolher deliberadamente um desses fármacos — é preciso lembrar que cloroquina e ivermectina não são os dois únicos apontados como capazes de fazer alguma mitigação de sintomas — e torná-los elixir de cura. Eles não são elixir de cura e é isso que está sendo feito, principalmente com a hidroxicloroquina. 

Quando você vê o presidente da República levando hidroxicloroquina para reunião internacional, levantando a caixa de hidroxicloroquina como se fosse o Simba, de O Rei Leão, em frente a seus apoiadores, louvando um remédio que não é que não tem comprovação científica, existem diversas evidências científicas de que ele não funciona e há uma série de certeza científica de que não funciona nesse nível, não há absolutamente nada que mostre que a hidroxicloroquina seja esse elixir de cura. Há muitas evidências de que sua ação é muito branda. 

Adriano Machado / Reuters
"Quando você eleva seja a hidroxicloroquina ou a ivermectina esse estado de amuleto, bala de prata, esse uso político é muito grave. Sinaliza uma ação governamental como se fosse efetiva quando na verdade, não é."

Quando você eleva seja a hidroxicloroquina ou a ivermectina esse estado de amuleto, bala de prata, esse uso político é muito grave. Sinaliza uma ação governamental como se fosse efetiva quando, na verdade, não é. Pelo contrário. As ações governamentais federais em relação ao coronavírus estão sendo criticadas mundo afora, o Brasil hoje é citado como exemplo do que não fazer diante da pandemia. O Brasil está se tornando um pária internacional sobre esse assunto. 

Com relação ao vermífugo, que no caso é o Anitta, isso é fruto de uma pesquisa, inclusive bem conduzida, que apontam fármacos comerciais para mitigação de sintomas. Não podemos desqualificar pesquisas que apontam alguma evidência para mitigação, mas é completamente diferente de afirmar que aquilo cura ou previne. Essa é a pior de todas. Insistiram em dois fármacos como se fossem a cura para o coronavírus, a ciência mostra que não cura. Depois a narrativa passou a ser não cura, mas previne. A ciência não mostra nada disso; não há evidência científica de que a hidroxicloroquina previna alguma coisa e isso ainda é muito mais grave ao mostrar para a população que tem algo que tomando previna o coronavírus. Está errado. As pessoas passam a achar que podem sair na rua e se proteger pouco. 

Estamos vendo um aumento da flexibilização e pessoas cansadas do isolamento no momento em que a média diária é de mil mortes, sem sinal de arrefecimento. Ou seja, a pandemia está no seu pior momento e as políticas de combate se afrouxando. Não é um contrassenso?  

Essa reação é uma reação humana, a gente passa por diversas fases. Tem a fase da negação, e a gente está na fase da conformação, o que é triste. A gente só está se conformando com 90 mil mortos porque no começo da pandemia, quando as ações deveriam ter sido enérgicas, elas não foram tomadas de forma conjunta. Faltou articulação federal, faltou liderança acima de tudo, faltou investimento, faltou colocar agente de saúde na rua e um monte de coisa. Estou criticando o governo federal, mas estendo a minha crítica a diversos governos estaduais, de estados que vendiam ideia de que estavam super bem, no Sul e Centro-Oeste, e hoje estão sofrendo a ascendência das curvas de contágio e de mortes. 

A estratégia brasileira de uma forma geral foi trabalhar no limiar do esgotamento do sistema público de saúde, hoje estamos no platô dessa curva de contágio sem saber como vamos sair. O pico chegou, mas nós estamos nele. Aquelas curvas de contágio que a gente via, de subir, atingir um pico e logo depois cair é para países que seguem as recomendações e tomam medidas enérgicas. Mesmo aqueles que não fizeram assim, a curva sobe, bate em um pico e em algum momento desce. Quando tem um país que o pico bate e fica em platô, o nome não é controle, é descontrole. O Brasil e os Estados Unidos são exemplos de descontrole da pandemia. Isso é muito triste. Nós estamos nessa situação de meses de quarentena, é natural que as pessoas estejam conformadas, mas essa naturalização é ruim. Essa naturalização é mórbida, em cima não de número, mas de vidas humanas. 

Quando tem um país que o pico bate e fica em platô, o nome não é controle, é descontrole.

Dois anos atrás você e outros divulgadores científicos sabatinavam candidatos à Presidência sobre o papel da ciência. Era imaginável que a ciência teria esse protagonismo no governo?

Não esperava de jeito nenhum porque esse protagonismo vem diante de uma tragédia. Esse holofote para os cientistas acontece lá no começo com as queimadas na Amazônia, depois com o óleo que atingiu a costa nordestina e agora de forma mais intensa por causa da pandemia. A gente vê esses holofotes ligados aqui no Brasil quando tragédias acontecem. Eu não consigo dizer que “por um lado isso é bom” porque não tem como dizer que algo é bom quando a gente tem 90 mil mortos, pois isso seria imprevisível. 

Agora se por acaso os cientistas estão sendo mais ouvidos, mas ao mesmo tempo também estão sendo mais atacados, eu espero que a gente faça disso algum tipo de boa sequela daqui para frente. A gente vai ter que pensar não agora, mas daqui para frente no que é que a gente vai fazer para comunicar a ciência paras pessoas. As pessoas precisam entender e isso vai depender de política pública de comunicação científica e de nós, cientistas. As pessoas precisam entender que a ciência precisa ser pauta central no debate, e não uma pauta exótica, acessória. 

Você acredita que a ciência sairá mais valorizada?

Ela tem chance de sair com algum valor a mais. Eu não encampo o discurso de que agora o brasileiro vai valorizar a ciência porque isso é um trabalho muito gradual, muito vagaroso. Sem dúvida a gente vai conseguir pegar alguma casquinha desse holofote e isso já é muito bom, mas a gente precisa inserir o debate científico dentro da esfera política de uma forma muito mais intensa, a gente tem muito trabalho pela frente.