Como lidar com o vírus e manter a saúde mental e o trabalho em casa em dia?

E como cuidar da ansiedade na volta ao trabalho presencial?

Metas, prazos, tarefas, reuniões, atividades, relatórios de trabalho se misturaram com atividades escolares, limpeza da casa, problemas familiares e medo de um vírus em uma rotina completamente nova.

Desde o começo da pandemia de coronavírus muito já se falou sobre ter uma rotina agradável em casa em isolamento: como trabalhar sempre no mesmo horário, tentar ter um ambiente específico para o trabalho, ter pausas durante o dia, se comunicar com os colegas, entre outras coisas. (Embora nem todo mundo consiga fazer tudo isso de maneira perfeita.)

Mas o home office que duraria apenas algumas semanas ou poucos meses já está chegando, pelo menos, ao 5º mês. O que era provisório para muitos virou definitivo. Como manter a mente sã com as novas dinâmicas de trabalho em casa por tanto tempo?

“É primordial estar atento aos sinais de vulnerabilidade dos funcionários no home office. É importante perceber se quem está do outro lado engordou muito rápido, emagreceu muito, está mais produtivo, está menos produtivo. Se a pessoa está há 5 reuniões seguidas com a câmera desligada. São pequenos sinais”, destaca a Toya Lorch, sócia-fundadora da consultoria Get Ahead.

Tambem é importante chefes e empresas levarem em conta questões que eram mais fáceis quando quando as pessoas conviviam pessoalmente diariamente. “A gente não pode entrar no automático do trabalho virtual. Os gestores precisam fazer gestão à distância. Tem um campo muito grande de aprendizagem, da gente exercitar mais outros sentidos para aprender olhar o outro.” Apesar das dificuldades, há uma tendência a existir maior colaboração entre as pessoas no dia a dia de trabalho, “elas estão se ajudando mais, existe uma empatia maior”.

“Num ambiente de incerteza quem é workaholic pode priorizar a saúde financeira sem considerar o impacto na mental, pois pode trabalhar 18 horas por dia em casa, se quiser”, lembra Toya. E em um momento em que as pessoas estão ganhando menos, essa possibilidade é real pois dificuldades financeiras aumentam o risco de desenvolver problemas de saúde mental.

Outra barreira que impacta e muito na ansiedade, que leva aos problemas de saúde mental das pessoas no trabalho, é a desorganização. “Eu percebo escopos de trabalho mal desenhados, datas mal combinadas e pouca distribuição das tarefas”, aponta a professora Maria Elisa Moreira, psicóloga e professora do Insper, que trabalha com projetos ligados à formação de equipes e lideranças.

Ajuda a manter a sanidad e e saúde da equipe é deixar cronogramas muito claros. “Precisa existir uma tabela QQQ - quem, faz o que e quando. É preciso ser um líder com direcionamento claro, pode ser escrito, por aplicativo, como for. Para fluir as competências que as pessoas têm com o que elas precisam fazer”, exemplifica a professora.

É importante manter práticas de trabalho para o bem-estar das equipes, como deixar claro porque os projetos são importantes, oferecer feedbacks e comemorar conquistas. “Celebrar conquista é bom, porque diz que a equipe que mesmo que cada um esteja na sua casa fazendo um pedaço do quebra-cabeça, na hora que junta fica um quebra-cabeça muito legal”, afirma.

As iniciativas de saúde mental das empresas precisam ir além de atitudes pontuais

O importante é as empresas estarem abertas ao diálogo com seus funcionários permanentemente, não só agora em que vivemos uma pandemia. “Saúde mental e trabalho é um tabu e com o coronavírus as pessoas passaram a falar disso mais abertamente”, afirma Cintia Gonçalves, estrategista com mais de 20 anos de experiência de mercado e membro do instituto Ame Sua Mente. Ela diz que pesquisas apontam que o estigma da saúde mental atrasa o debate sobre o tema em pelo menos 15 anos, o que acaba transformando a doença em algo crônico.

“Sinto que tem muitas iniciativas em empresas como a terapia online, um terapeuta à disposição, discussões numa situação em que se tem um transtorno mental na empresa. Mas existe pouco com relação à prevenção. Porque não bastam as iniciativas pontuais, é importante construir uma visão estratégica e preventiva para o tema”.

A pesquisa Futuro do trabalho na visão das gerações, realizada com pessoas das gerações X e Z sobre as perspectivas de trabalho para 2040, indicou que 48% dos mais jovens sentem ansiedade em relação ao futuro e 71% acham que a cobrança exagerada por resultados irá afetar a qualidade de vida das pessoas.

Cintia é uma das organizadoras da pesquisa e diz que ficou impressionada com a quantidade de jovens da geração Z que declarou ter trocado de empresa e de área por questões relacionadas com a saúde mental. “Quando as empresas pensam nos talentos este é um tema chave. Como fazer? É com ajuda de um aplicativo? É com uma palestra? É importante dar um passo em direção ao futuro, não significa que vai fazer tudo do dia pra noite”.

“Entra também a responsabilidade de cada um. A empresa e as pessoas precisam se conhecer, saber seus limites, entender o impacto do seu modelo frente aos outros no ambiente de trabalho. Quando a gente fala do tema, tende a olhar as empresas como vilãs e mocinhas. E não é isso. Cada um tem que olhar esse tema e se olhar com um olhar mais positivo”

- Cintia Gonçalves, estrategista

A importância do autoconhecimento e a influência no trabalho

Maria Elisa Moreira, psicóloga e professora do Insper, que trabalha com projetos ligados à formação de equipes e lideranças afirma que quando se fala em saúde mental plena é preciso levar em consideração 5 aspectos: saúde física, intelectual, psicológica, financeira e espiritual.

Quando o assunto é a saúde financeira, um dos mais impactados pela pandemia, a professora diz que é importante sempre gastar menos do que se ganha e tentar economizar alguma coisa. Mas, se a situação financeira já está difícil, o ideal é ter uma relação de transparência com si mesmo e com a família.

“Muitas vezes o que demanda a ansiedade da pessoa não é a pandemia em si, é o financeiro. Quando eu cuido da minha saúde financeira, eu não tenho insônia, eu vou poder comprar uma comida gostosa que me faz feliz e cuidar da minha saúde física”

- Maria Elisa Moreira

Na saúde espiritual, Maria Elisa destaca que se trata de um momento de conexão consigo mesmo, mas não precisa ser religião, mas pode também. “O importante é ter um processo de conexão com algo que seja bacana, vai de ver um programa de TV a rezar o terço, fazer um curso virtual, entre outras coisas.”

Isso tudo inclui fazer boas refeições, ter sono de qualidade, praticar um pouco de atividade física e ter bastante atenção às emoções. “Você era mais falante e está mais quieto, era mais falante e está mais agitado? Antes eu não cozinhava, agora eu estou cozinhando, o que eu estou fazendo é dormir o tempo todo sem querer fazer nada. Qual é o movimento?”, questiona. Se observar impacta na rotina do dia a dia, e consequentemente, no trabalho.

Mas a professora lembra que é importante não se cobrar em excesso e saber respeitar seus sentimentos. “Eu não sou alegre o tempo todo. Não tem problema ficar triste, ficar chateado, resmungar da vida. O que não se pode é ficar nesse mood o tempo todo. A relação com as emoções passa pelo seu autoconhecimento.”

E como se cuidar na volta ao trabalho presencial?

Depois da adaptação forçada do presente, como lidar com o futuro? Quase 6 meses depois do 1º caso de coronavírus no Brasil, depois de um grande isolamento social severo em algumas regiões, até mesmo com lockdown, alguns setores da sociedade já voltaram a uma rotina parecida com a anterior. Outros discutem como voltar e se devem voltar.

Empresas como o Twitter anunciaram que vão dão a opção dos funcionários trabalharem pra sempre em casa. Já o Google anunciou que a volta aos escritórios só acontece em julho de 2021. Há no mercado a discussão de que o trabalho não seja nem 100% remoto, nem 100% presencial. A escolha seria por modelos híbridos, em que se trabalha alguns dias da semana em casa e outros no escritório.

De acordo com a pesquisa PNAD COVID19, divulgada pelo IBGE no fim de julho, o trabalho remoto já caiu no Brasil com o afrouxamento do isolamento social nas grandes cidades. Na primeira semana de julho eram 8,9 milhões de brasileiros em home office. O número caiu para 8,2 milhões na segunda semana.

Todos os cenários ainda são incertos e podem trazer muita ansiedade para chefes e funcionários. “Pega cada um de um jeito. Vai impactar em questões de meritocracia, por exemplo”, aponta Toya Lorch, sócia-fundadora da consultoria Get Ahead. Ela acredita que pessoas possam querer voltar ao trabalho para ficar fisicamente próximas dos chefes, enquanto outras podem ser acusadas de fraqueza por querer preservar a saúde ficando em casa. Haverá um universo real e virtual acontecendo ao mesmo tempo.

“Pode gerar uma certa paranóia e a pessoa vai ter de transitar nos dois mundos. O cara que está no presencial bateu um papo meia hora com o chefe antes da reunião começar. Eu costumo dizer que no trabalho, tudo que acontece no mundo da fantasia é mais impactante para a saúde mental do que o que acontece na realidade.”

“Quando você vai entrar em uma fábrica existem todos os equipamentos de proteção individual físico, nesse contexto, as empresas precisam pensar em quais são os EPIs da saúde mental. Isso passa por comportamentos de liderança. Acho que existe esse desafio para os RHs, de como olhar a liderança com a lente da saúde mental”

- - Toya Lorch

A psicóloga Maria Elisa Moreira ressalta que não houve preparo para as pessoas entrarem em home office, mas pode haver para a volta ao trabalho no escritório. “Mesmo não sabendo quando vai voltar, dá pra pensar e planejar. Mas é importante pensar coletivamente, no ponto de vista humano, ergonômico e jurídico. Pois é preciso lidar com as questões de legislação e contratos de trabalho”, reforça.