COMPORTAMENTO
12/08/2019 03:00 -03

Ócio faz bem? Conheça o conceito holandês sobre não fazer absolutamente nada

Os holandeses ficam tão à vontade no ócio completo, que têm até um termo para isso. Será que também podemos tirar proveito disso?

Há um grupo de pessoas que tem uma relação complicada com o descanso: trabalham demais e estão exaustos. Tirar férias é muitas vezes um constrangimento. A separação entre a vida profissional e a pessoal é cada vez mais inexistente, e estar ocupado é visto como um valor.

É por isso que quem se encaixa nesse grupo precisa de um pouco de niksen em suas vidas. Niksen é um verbo em holandês que significa separar um tempo para fazer absolutamente nada. Quando você niksa, você se permite apenas ser: sem questionamentos, sem preocupações.

Como hygge lagom, o conceito está entrando na moda: o New York Times e a revista Time escreveram sobre o niksen. Claramente há muito auê em torno desse conceito, mas os holandeses com quem conversamos descrevem o niksen mais como um estado mental do que uma tendência de estilo de vida.

“A palavra ‘niksen’ significa literalmente não fazer nada, ficar ocioso”, diz Carolien Hamming, diretora executiva do CSR Centrum, um centro de coaching na Holanda que ajuda seus clientes a relaxar e a se recuperar da vida corrida.

O importante, afirma ela, é “não agir com propósito, mental e fisicamente, e deixar fluir livremente os pensamentos”.

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Os americanos poderiam se beneficiar de um pouco de niksen, afirmam os holandeses.

Ficar deitado no gramado de um parque? Niksen. Sentado num banco de praça, dando liberdade aos pensamentos? Também é niksen. Olhar perdidamente pela janela do metrô no caminho do trabalho? Definitivamente é niksen.

“Você não treina niksen; ele simplesmente acontece”, explica Hamming. “A única coisa que tenho de fazer é liberar espaço na agenda por um par de minutos ou de horas e ver o que acontece.”

Sei o que você está pensando: “Eu nikso o tempo todo, especialmente nos finais de semana!” Talvez, mas dar um nome a isso ajuda. E, culturalmente, os termos usados para esse tipo de atividade têm conotações negativas: preguiça, leseira e assim por diante.

“Não se trata de uma tendência de estilo de vida, mas sim de um verbo que usamos”, diz Bas Bruijninckx, diretor de e-commerce de uma empresa de roupas globais baseada em Roterdã. “Existe desde sempre. Se você perguntar para um holandês o que ele estava fazendo, a resposta pode ser genuinamente: ’Oh, ik zat te Niksen”.

Os holandeses também lidam com o estresse, mas no país há menos vergonha em ficar ocioso.”

Como encontrar esse espaço mental do niksen? Erika van der Bent, designer de produtos baseada em Scheveningen, diz que pensa em um leão: o animal é mestre no niksen. Eles relaxam quando é hora de relaxar e se mexem quando é hora de se mexer. (Em geral para pegar uma pobre zebra que também está tentando niksar.)

“Se acordo e quero relaxar, é o que faço”, diz van der Bent. “Não fico me recriminando. Ouço meu corpo. Aí, se estou entediada ou acho que tenho de fazer alguma coisa, vou lá e faço.”

Obviamente os holandeses não estão niksando o dia inteiro. A prática dura normalmente alguns minutos, às vezes algumas horas. E o termo também pode ter conotação negativa, diz a holandesa Ellen de Visser, que tem uma empresa de traduções.

“Gente preguiçosa pode ouvir coisas como: ‘Be je vandaag weer zitten niksen?’, que significa: ‘você ficou de novo o dia inteiro sem fazer nada?’”

“Na Holanda, queremos ser produtivos o tempo todo, alcançar nosso objetivos de vida”, diz ela. “Existe a expectativa de que os estudantes, por exemplo, terminem os estudos em três anos, passem uma temporada no exterior, façam estágios e liderem clubes universitários, tudo para melhorar o currículo na hora de buscar o emprego dos sonhos.”

E os efeitos do trabalho em excesso, como doenças e o burnout, são parte da realidade do país. Em um mundo cada vez mais conectado e estressado, pequenas estratégias como o niksen são necessárias para manter-se saudável.

Um estudo de 2012 indicou que a ociosidade – e o sonhar acordado que inevitavelmente a acompanha – ajuda na resolução de problemas e estimula a criatividade. Existe também a “fadiga de decisões”, exaustão mental associada a passar o dia tomando decisões que pode afetar nosso raciocínio. Diversos estudos mostram que fazer pausas melhora a produtividade e a criatividade.

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Largue o celular e nikse um pouquinho.

Mas Hamming tem dúvidas sobre o sucesso do niksen em outros países, como nos Estados Unidos. “A ideia de estar sempre ocupado tem raízes profundas na cultura”, diz ela. “Acho que o motivo é que os americanos acreditam em meritocracia: você conquista o que merece, então tem de trabalhar duro. Se fracassar, a culpa é sua.”

Os holandeses também lidam com o estresse, mas no país há menos vergonha em ficar ocioso, diz Hamming.

“Para os holandeses isso vira uma coisa positiva. Dizemos ‘lekker niksen’, que significa algo como ‘deliciosamente nada’”, afirma Hamming. “Se alguém pergunta quais são seus planos pro final de semana, a resposta pode ser: ‘Estou morto, então vou fazer deliciosamente nada no sábado’.”

“O niksen pode funcionar para alguns, mas não para outros”, diz Hamming.

É um bom ponto: e se você achar que está desperdiçando tempo? Ou se achar muito chato ficar parado? “Bem, pode ser meio entediante, mas faz parte. Pode ser esquisito e irritante também. Mas, quando você se acostuma, pode ser liberador e relaxante.”

Não dá para mergulhar no niksen e entendê-lo intuitivamente. Quanto mais ocupado e estressado você está, mais difícil relaxar, afirma Hamming.

“É por isso que é importante praticar regularmente, todos os dias”, afirma ela. “Quando você não tem experiência e está inquieto, melhor começar com alguns minutos por dia, aumentando aos poucos.”

Não vai demorar para você separar duas horas por semana para não fazer absolutamente nada – e sem sentir culpa. Como resume Hamming: “É importante reconhecer que você é um ser humano, não um fazer humano”.

Se você ainda assim ficar pouco à vontade com a ideia, lembre-se: não é preguiça se você chamar de niksen.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.