Este movimento propõe perda de peso saudável sem dietas

"Nenhum alimento é o problema ou solução. Precisamos parar com esse pensamento simplista", diz nutricionista que se especializou em alimentação intuitiva.

Sim, é possível emagrecer e ter mais saúde sem fazer dieta. Parece até aquelas palavrinhas mágicas que estampam revistas, livros e receitas de influencers no Instagram. Mas a proposta é completamente outra.

Enquanto a sociedade dita que, para “secar” seu corpo, você precisa seguir dietas restritivas, excluir um alimento ou consumir um tal ingrediente produzido em um distante país, a chamada alimentação intuitiva segue no caminho oposto: ela quer que você faça as pazes com a comida.

A linha de pensamento e pesquisa, que vem ganhando cada vez mais adeptos, como nutricionistas, nutrólogos e demais profissionais de saúde, prega um olhar mais gentil para a alimentação.

Ela não exclui grupos inteiros de alimentos, ela não elege um vilão ou um herói específico; ao contrário, propõe que a forma como nos alimentamos é tão importante quanto os alimentos que comemos, e que não é preciso mudar o que comemos ou toda a rotina alimentar para alcançar uma vida saudável.

Não é só o consumo de salada que vai garantir o emagrecimento.
Não é só o consumo de salada que vai garantir o emagrecimento.

“Seguir uma dieta ‘da moda’ ou qualquer estilo alimentar que mude demais a sua rotina tende a dar um resultado bom no início, mas como isso não faz parte da sua rotina, você não consegue seguir e acaba engordando, resultando no famoso efeito sanfona”, conta a nutricionista Camila Oliveira, mestre em nutrição e doutoranda na área de controle de ingestão alimentar na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

“O pior não é só a volta do peso anterior, mas é acompanhado com o sentimento de frustração e compromete o seu relacionamento com a comida.”

Esse “terrorismo” com o que comemos, por exemplo, pode acarretar transtornos alimentos, como compulsão alimentar ou obsessão por certos alimentos e calorias. “Você tem medo de comer algo que você gosta muito, se priva por um tempo, e depois desconta tudo em uma só hora.”

“Salada sozinha não resolve nada; é o conjunto de alimentos e comportamento que vai chegar ao emagrecimento.”

- Nutricionista Camila Oliveira

Então, como emagrecer?

A maioria das resoluções do começo de ano é emagrecer. Mas, o que muitos não pensam é como manter um estilo de vida saudável ― e este é o primeiro erro que as pessoas cometem ao recorrer a tratamentos estéticos e dietas.

“Já recebi pessoas que querem perder 2 números para uma festa específica, mas a gente sabe que essas estratégias não vão durar e provavelmente o peso vai voltar ou até aumentar”, comenta Oliveira.

“As mudanças [alimentares] que você adquire são para sua vida inteira. E seu peso é reflexo disso.”

Para ter uma perda de peso sustentável e saudável, aqui estão algumas dicas da especialista em alimentação intuitiva:

Não exclua alimentos

Além de deixar dietas de lado, é preciso parar de demonizar certos alimentos. “Muitos pacientes me perguntam se podem comer arroz e feijão todos os dias, ou se é permitido comer carboidratos no jantar. E a resposta é sim”, disse Camila Oliveira.

Segundo a nutricionista, qualquer alimento pode ser consumido, com frequência e quantidade moderada.

“Se você ama chocolate, por exemplo, uma dica é aumentar a porcentagem de cacau [ideal é, no mínimo, 70%], reduzir as porções que você come e acrescentar um fruta”, exemplifica a profissional. “A ideia é reduzir o chocolate, mas sem tirá-lo totalmente da dieta.”

Coma com atenção

Normalmente, não prestamos atenção ao que comemos, seja por estresse, pela correria do dia a dia ou por estarmos distraídos com o celular ou com a TV. Porém, focar na comida ― saborear e sentir o aroma ― é uma das estratégias para comer menos.

“As pessoas não sabem o que comem e nem percebem o que estão ingerindo”, constata Oliveira.

No restaurante, aconselha a profissional, observe bem o que você está colocando no prato, de onde vêm os alimentos. Se está em casa, olhe para a geladeira, explore o armário e tente organizar uma refeição com tempo. “Comer devagar e sentir a comida gera uma mudança de comportamento muito mais eficaz do que restringir o que se come”, ensina.

Seja realista, não caia no padrão de imagem do Instagram

Mulheres têm estruturas corporais diferentes. Não queira emagrecer com o objetivo de ser uma outra pessoa que você viu no Instagram. Lembrem-se que nem as Kardashians nasceram assim (suas imagens são frutos de diversos procedimentos estéticos e, é claro, Photoshop).

“Não dá para mudar de uma hora para outra a sua estrutura corporal. Precisamos parar de tentar alcançar o padrão de beleza das redes sociais; a mulher brasileira não é assim”, explica Oliveira.

Em vez disso, busque a sua melhor forma e o peso com o qual mais se sente bem.

Coma comida de verdade

A alimentação intuitiva não é uma carta branca para você comer pizzas, congelados, fast-food e outros industrializados todos os dias. Muito pelo contrário: é uma maneira de resgatar comidas saudáveis que você deixou de comer para priorizar alimentos não saudáveis.

Em vez de refrigerante, biscoitos e sucos de caixinha, prefira alimentos in natura, como grãos, frutas e verduras.

“A grande maioria das pessoas não come frutas, nem legumes. Eu sempre aconselho meus pacientes a comer ao menos duas frutas por dia e variadas verduras em duas refeições”, conta a nutricionista.

Se organize

O desafio de comer alimentos naturais e frescos requer organização e tempo. Reserve um dia no fim de semana (ou qualquer outro horário livre) para comprar alimentos e prepare-os para a semana.

Assim, quando bater a fome, você poderá consumir esses alimentos e acrescentar outros com preparações rápidas, em vez de pedir uma pizza ou recorrer ao alimento congelado.

Se você se organizar, dedicar tempo e atenção e preparar alimentos que já fazem parte da sua rotina alimentar, é mais fácil comer certinho.

Por que você come determinadas ‘porcarias’?

Além de prestar atenção no que come, também busque entender o que te motiva a comer muito doces ou salgadinhos. “Muitas vezes, comemos com nossas emoções, porque estamos estressados, porque brigamos com alguém ou simplesmente porque estamos entediados”, explica a nutricionista. “O primeiro passo é perceber se esta fome é verdadeira ou é uma ‘fuga’”.

Não se esqueça das fibras

Fibras têm um papel importantíssimo na nossa alimentação: além de facilitar o funcionamento do intestino, elas também aumentam a saciedade. Fontes de fibras não faltam na natureza ― cereais como granola, aveia, grãos integrais são fáceis de serem introduzidos na alimentação cotidiana.

Encontre uma atividade física

Não é só alimentação que vai te ajudar a manter o emagrecimento, é todo um estilo de vida saudável. Para isso, busque atividades físicas que você goste ― qualquer uma que você consiga fazer com certa frequência. “A atividade física tem que estar presente, mesmo que seja só uma vez por semana”, conta Camila Oliveira.

Por fim, mas não menos importante, fazer mudanças alimentares requer acompanhamento profissional. “Não é só ter acesso à informação, é preciso entender como seu corpo reage às mudanças alimentares. É preciso buscar um profissional para que você encontre a estratégia que melhor se encaixe em seu estilo de vida e sua rotina”, aconselha.