Comportamento

Por que é tão difícil fazer um novo hábito realmente permanecer em nossa rotina

O nosso cérebro é preguiçoso por natureza. E é importante entendermos como lidar com isso.
Sim, nosso cérebro é preguiçoso para incorporar novos hábitos.
Sim, nosso cérebro é preguiçoso para incorporar novos hábitos.

Um dos maiores desafios para quem busca uma mudança de hábito nem sempre é começar algo novo, mas manter a consistência de suas ações.

Tome como exemplo aquela meta de ano-novo de incluir uma atividade física em sua rotina. Acordar e ir para a academia no primeiro dia parece ser estimulante. A segunda vez ainda é um novidade. Mas ultrapassar a barreira do décimo dia... Bom, aí já começa a se tornar um problema.

Como, então, fazer que um novo hábito permaneça?

Para começo de conversa, é preciso deixar claro que mudanças de estilo de vida exigem muito mais disciplina do que a gente pensa.

Nem tudo é sobre se sentir motivado o tempo inteiro. E isso tem muito a ver com a forma como o nosso cérebro funciona — e como ele reconhece os nossos padrões de comportamento.

O nosso cérebro é preguiçoso por natureza

Eu sei; parece absurdo dizer isso, mas é a realidade. Para entender a nossa dificuldade de mudança, primeiro é preciso entender a nossa preguiça.

Essa preguiça tem uma razão de existir, explica Cecília Barreto, especialista em neurociência, em entrevista ao HuffPost Brasil. “Quando a gente pensa que o nosso cérebro é preguiçoso, parece que essa é uma característica ruim dele, como se fosse um atraso evolutivo. Mas é exatamente o oposto. O nosso cérebro criou muitos mecanismos para torná-lo eficiente e um deles é a preguiça.”

Pense na sua rotina de deslocamento de casa para o trabalho. Todos os dias, você está acostumado a fazer o mesmo caminho, uma vez que você entendeu que aquela é a melhor rota para você.

“A gente repete os padrões que funcionam porque somos seres inteligentes, e o nosso raciocínio é o da eficiência. Então, se esse é o melhor caminho, por que você deveria abandoná-lo?”, explica a especialista.

Mas digamos que você decida ir de bicicleta para o escritório e precise ajustar a rota. A partir do momento que você tenta mostrar para o seu cérebro que existe um novo caminho, ele não vai aceitar isso de primeira. Inclusive, ele vai lhe apresentar algumas “pegadinhas” a ponto de você até mesmo questionar a sua razão de estar mudando. Mas por que isso acontece?

De acordo com Barreto, tudo que é novo exige uma energia de ativação para o nosso cérebro que, comparado àquilo que a gente já conhecia, acaba não fazendo sentido para a nossa máquina em busca da eficiência. Por que eu deveria mudar o meu caminho se eu posso ir por aquele de sempre? E é justamente nesse ponto que é preciso reconhecer as limitações.

“É preciso entender que vai existir essa resistência, mas que a gente também vai conseguir, aos poucos, mostrar os benefícios de ter essa energia de ativação investida. É mais ou menos assim: ‘Ok, vai dar trabalho, mas olha aqui os benefícios de ir por um outro caminho’”, compartilha Barreto.

Conclusão: Um dos maiores desafios para abandonar um hábito ruim ou começar um novo hábito é simplesmente conseguir sair do piloto automático, já que o nosso cérebro está a todo momento tentando economizar energia.

Com ajuda da psicóloga Elaine Di Sarno, da especialista em desenvolvimento humano Vivian Wolff e da especialista em neurociência Cecília Barreto, o HuffPost preparou um guia para te ajudar a não abandonar novos hábitos em 2020.

Como se manter motivado em 2020

Existem diversas formas de aumentar a nossa motivação para alcançar os nossos objetivos, algumas delas super clichês. Mas talvez a principal seja se manter em contato com esse objetivo, ou seja, se lembra do porquê de ele existir.

Isso é útil uma vez que o nosso cérebro tem a capacidade de perder a atenção rapidamente. Não são raros os momentos em que embarcamos em nossas demandas de rotina e nos desligamos das nossas prioridades, daquilo que é realmente importante. Então, é preciso criar formas de se manter conectado com esses objetivos.

Faça um “vision board”

Uma das ferramentas é fazer uma representação visual do seu objetivo. O processo é bem simples: pegue uma folha de papel, escreva frases, sentimentos e emoções ou cole imagens que você associa ao seu objetivo. Deixe esse “quadro” em um local de fácil acesso, que você possa cruzar o olhar com ele.

Celebre o seu progresso

Uma outra forma de se manter motivado é acompanhar o seu progresso. Não existe nada mais motivador do que perceber a sua evolução, então monitore isso, mesmo se você achar que é uma evolução pequena. Use aplicativos no seu smartphone, faça uma lista na sua agenda, não importa. O importante é você tornar palpáveis e reais todos os seus avanços.

Motivação x Disciplina

Porém, não dá para contar só com a motivação. Você pode ler um milhão de textos sobre como construir um novo hábito, mas na vida real a disciplina é muito mais importante do que a motivação.

Saiba priorizar os seus objetivos

Tenha claro quais são os seus objetivos e trace uma estratégia para cada um deles. Em comum, eles precisarão se tornar prioridades em sua rotina. Você quer voltar a praticar exercícios físicas? Não basta se matricular em uma aula ou esporte. É preciso bloquear a agenda e tornar esse compromisso tão importante quanto qualquer outro da sua vida.

Metas x objetivos

Aqui, é importante deixar claro a diferença entre metas e objetivos. O objetivo é aquilo que nos move. As metas já são tarefas específicas para alcançá-los. Ou seja, elas são temporais e precisam de prazos.

Você pode testar, por exemplo, estipular metas semanais, quinzenais, mensais e semestrais, a depender de cada um dos seus objetivos.

Tenha flexibilidade e afaste a ideia de radicalismos

Algumas pessoas afirmam que basta 21 dias para se construir um novo hábito. Outros estudos, no entanto, dizem que o prazo é de 6 semanas. No fundo, a periodicidade não importa. O ideal, na realidade, é que essa nova rotina seja construída aos poucos.

Você pode estabelecer mini-metas e ao final de “x” vezes que repetir o hábito se presentear com alguma coisa agradável, por exemplo. Essa compensação, quando é feita de forma saudável, se torna um incentivo para continuar perseguindo o seu objetivo sem radicalismos.

Isso porque o nosso cérebro está muito ligado à ideia de “recompensa”, resultado da descarga de dopamina em nosso organismo.

Explico: quando a gente tem uma recompensa positiva em relação a algo que a gente fez, temos uma liberação de dopamina que sela nosso aprendizado daquilo. Então, a dopamina reforça um comportamento positivo e faz que ele se repita.

Naturalmente, com essa sensação de recompensa também vem a sensação de prazer e conquista. Voltemos ao exemplo da atividade física. Que tal estabelecer uma corrida de 15 minutos ininterruptos para depois apreciar um copo de água de coco gelado? Soa como uma boa recompensa?

Ao pensarmos na nossa conquista, a ideia de prazer do nosso circuito emocional logo é acionada e faz que você tenha mais chances de se manter no objetivo.

E é aí que está a “mágica” da mudança de hábito; provar para o nosso cérebro que vale a pena essa energia investida.