COMIDA
13/09/2019 02:00 -03

Como incentivar seu cérebro a gostar de legumes e verduras

Truques psicológicos simples podem ajudar a incluir alimentos mais saudáveis na sua dieta. E saiba também por que você não deve esconder legumes e verduras na comida dos seus filhos.

Meu pai tem 67 anos e só gosta de três alimentos frescos: cenoura crua, alface crespa e milho cozido (com bastante manteiga).

Embora ele saiba que legumes e verduras têm muitos nutrientes e tenha comido bastante na infância, ele não tem a menor vontade de voltar a comê-los. A implicância dele tem mais a ver com a textura que com o sabor – ele me disse recentemente que esse tipo de comida “não tem gosto de nada”.

Como meu pai, cerca de 90% dos adultos americanos consomem menos de duas a três xícaras de legumes e verduras por dia, segundo o Centro para Controle e Prevenção de Doença. Dependendo da idade, as crianças deveriam consumir de uma a três xícaras de vegetais por dia, mas a maioria dela não atinge essa meta

Pedimos ajuda aos especialistas. Como treinar as pessoas a gostar de legumes e verduras – ou pelo menos fazê-las comer mais – e como ensinar aos filhos o amor pelos alimentos saudáveis?

Para muita gente, alimentos frescos custam caro demais ou não são sustentáveis

Cynthia Stadd, nutricionista holística de Boulder, Colorado, especializada em psicologia da alimentação, atribui a falta de legumes e verdura na dieta ao preço e à correria do dia-a-dia. 

“O que mais ouço é: ‘Sei que deveria estar comendo mais legumes e verduras. Estou aberto a isso. Eu quero. Mas não sei como. Não tenho tempo para comprar nem preparar. Não tenho tempo de cozinhar’”, diz ela ao HuffPost.

Muitos americanos, especialmente os de baixa renda, têm acesso limitado a frutas, legumes e verduras. Jill Patterson, nutricionista e consultora especializada em nutrição escolar, diz que muitos de seus clientes não compram esse tipo de alimento porque eles estragam rápido demais.

Ela diz que uma possível solução é comprar produtos enlatados ou congelados – estes últimos têm o mesmo valor nutricional dos alimentos frescos, com a vantagem de durar mais.

Evitar legumes e verduras pode ter explicações psicológicas ou genéticas

A genética pode ter influência na rejeição a comidas frescas, diz Patterson ao HuffPost. Estima-se que cerca de 25% da população tenha genes que amplificam a sensação de sabor, especialmente as relacionadas ao amargor. Elas tendem a ser mais enjoadas, evitando alimentos como espinafre, brócolis e couve-de-bruxelas.

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Algumas pessoas têm um senso de paladar mais pronunciado – e também mais papilas gustativas – que outras.

Fatores psicológicos também podem influenciar nosso paladar, diz Stadd. Se alguém foi forçado a comer brócolis quando criança, por exemplo, pode-se criar uma associação negativa ou traumática com o alimento, que dura até a vida adulta.

Apesar de as reações serem subconscientes, certos alimentos podem desencadear sentimentos negativas, afirma ela.

Seu cérebro pode se adaptar para o consumo de mais legumes e verduras

Você pode não gostar de todos os legumes e verduras, mas pode treinar para comer mais, afirma Patterson. Para isso, é necessário estar disposto a mudar o estilo de vida e a adotar novos hábitos.

Pensar de forma positiva sobre a incorporação de alimentos saudáveis na dieta pode ser um truque, diz Stadd.

Pesquisas mostram que as pessoas comem mais legumes e verduras se eles forem descritos de forma mais empolgante e indulgente – sem mencionar saúde. Quando um prato de vagens, por exemplo, foi descritas como “vagens deliciosamente crocantes”, 25% mais dos participantes de um estudo toparam comê-las.

Você também pode ter mais propensão a comer certos alimentos se eles causarem boas sensações ou forem associados a melhoras de saúde.

Patterson sugere variar os legumes e verduras e provar vários preparos e receitas diferentes.

“Talvez você os prefira cozidos; talvez crus; ou então talvez prefira certas receitas vegetarianas”, diz ela. “Descubra as suas preparações prediletas e as incorpore no planejamento de suas refeições.”

Se você comer verduras e legumes, é mais provável que seus filhos também comam 

O exemplo dos pais é essencial para que os filhos comam bem, diz ao HuffPost Tabitha Prater, nutricionista clínica do Arkansas Children’s Hospital.

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Esconder couve-flor no macarrão com queijo sem contar para a criança pode piorar as coisas, pois elas perdem a confiança nos pais.

As pesquisas mostram que a exposição constante a legumes e verduras aumenta o consumo desse tipo de alimento. Prater diz que os pais devem oferecê-los sempre para as crianças, além de prepará-los de formas diferentes. Mas jamais force a criança a comer algo que ela não quer. 

“Temos de escolher as batalhas”, afirma ela. “Mas, se você sempre cede aos seus filhos e deixa que eles comam só biscoitos e comidas de baixo valor nutricional, eles vão se acostumar.” 

É importante ter sempre opções saudáveis na mesa, diz Prater.

Nem sempre os pais são fãs de comida saudável, mas não mostre isso para os seus filhos. Prater diz que as crianças internalizam esses comentários e podem copiar o comportamento dos pais – enxergando certas comidas como boas ou ruins.

Fazer as refeições em família dá aos pais a chance de expor os filhos a novos alimentos e de moldar hábitos saudáveis. Pesquisas mostram que, quando as famílias comem sempre juntas, as refeições têm qualidade melhor, incluindo mais frutas, legumes e verduras. Envolver as crianças na hora de fazer as compras e preparar a comida também aumenta a aceitação de certos alimentos.

É normal que crianças resistam a certos alimentos, e muitas delas acabam superando essa fase. Resista à tentação de esconder legumes e verduras em pratos que a criança gosta. O tiro pode sair pela culatra.

“Elas podem perder a confiança [nos pais] e aí não vão querer experimentar nada novo”, explica ela.

No geral, os pais não devem “se preocupar demais” se os filhos não gostam de legumes e verduras – a menos que haja impacto no crescimento ou na saúde da criança. Nestes casos, procure um médico, afirma Prater.

“O mais importante para os pais é ter paciência e seguir tentando”, diz ela.

 *Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês. 

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