Comida

Comida não é remédio. Veja por que é perigoso pensar que é

Há limites ao poder que mudanças alimentares têm de prevenir, controlar ou curar doenças.

“Que seu alimento seja seu remédio e o remédio seja seu alimento” é uma frase atribuída a Hipócrates, médico da antiguidade grega visto como o pai da medicina. Em outras palavras, a ideia de que comida é remédio não é nova.

Mas o poder que ela exerce sobre nós é mais forte hoje do que nunca.

Do jeito que influencers de saúde e gurus de dietas falam sobre certos alimentos saudáveis que estão em voga, você poderia pensar que eles são capazes de curar o câncer. E, de fato, há quem diga que certos alimentos podem curar o câncer e outras doenças. Anthony William, conhecido como o Médium Médico, lançou um livro sobre suco de aipo e disse ao site Goop que já viu “milhares de pessoas que sofrem de doenças crônicas e misteriosas recuperarem a saúde tomando meio litro de suco de aipo de barriga vazia todos os dias”. Dr. Oz promove determinados alimentos dizendo que eles têm o efeito de “deixar de alimentar o câncer”, sugerindo que consumir esses alimentos em quantidade específica pode impedir o câncer de se espalhar por seu corpo.

À primeira vista, esse tipo de alegação pode parecer algo inofensivo ou que dá esperança a doentes, mas encarar comida como remédio pode, na realidade, ser perigoso. Primeiro, porque minimiza a importância dos medicamentos reais no tratamento de doenças. Sem falar que sugerir que uma pessoa possa resolver seus problemas de saúde com uma simples modificação de seus hábitos alimentares não passa de manipulação.

A comida de fato exerce papel central no tratamento de algumas doenças, mas estas são relativamente raras.

No caso de determinadas doenças, o efeito da alimentação é fortemente comprovado. Pessoas com diabetes precisam prestar atenção a como os alimentos que ingerem afetam seu nível de açúcar no sangue. Uma dieta cetogênica pode beneficiar crianças com epilepsia.

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Uma alimentação que beneficia o coração pode ajudar na prevenção de alguns problemas cardiovasculares, mas está longe de representar uma cura das doenças do coração.

“Há condições de saúde específicas nas quais é preciso evitar a ingestão de nutrientes específicos”, comentou Christopher Labos, cardiologista e epidemiologista do McGill Office of Science and Society, em Montreal. “A fenilcetonúria (PKU) ocorre quando bebês nascem sem a capacidade de metabolizar o aminoácido fenilalanina. Por isso esse aminoácido precisa ser eliminado da dieta para evitar as complicações neurais da PKU.”

Pessoas que têm alergias alimentares diagnosticadas devem evitar determinados alimentos. De modo semelhante, algumas condições autoimunes estão diretamente ligadas a determinados alimentos. Labos aponta para a doença celíaca, uma condição autoimune em que o consumo de glúten pode desencadear danos ao intestino delgado e a má absorção de nutrientes. “Isto dito, a questão toda do glúten foi exagerada de maneira desproporcional. Muitas pessoas evitam consumir glúten mesmo que não tenham doença celíaca. Não faz sentido”, disse Labos.

A comida também exerce um papel nos problemas digestivos. “Pessoas com síndrome do cólon irritável (SCI), doença de Crohn e colite ulcerosa precisam tomar cuidado com sua alimentação, porque certos alimentos podem desencadear seus sintomas”, disse Labos. Mesmo assim, esses problemas afetam as pessoas de maneiras diferentes. Não é verdade que evitar um alimento ou consumir outro em grande volume vá “curar” alguma dessas doenças.

Mas no caso de muitas doenças, não há evidências suficientes para afirmar que a alimentação faça parte do tratamento.

Se você vir pessoas nas redes sociais dizendo que determinada dieta restritiva pode curar ou prevenir uma doença – isso parece estar acontecendo recentemente com dietas de baixo carboidrato, em relação a demência ―, o que não faltam são razões para reagir com ceticismo. Mesmo que as pessoas citem um estudo científico para comprovar o que dizem, não quer dizer que o que dizem seja verdade.

“A produção de pesquisas é enorme, e nem todas as pesquisas são de boa qualidade”, disse Labos. “Se analisarmos apenas um estudo, ignorando todo o resto que já foi feito naquele campo particular, teremos uma visão muito enviesada do que se sabe.” Em outras palavras: “Se os nove estudos anteriores ao seu deram resultado negativo e seu estudo deu positivo, seu resultado não é inovador, é uma exceção à regra. Se você ignorar todos os resultados que contradizem o que você está querendo afirmar, está escolhendo informações de maneira seletiva.”

Para se assegurar de que está obtendo informações legítimas, baseadas em evidências, procure fontes como as Diretrizes Alimentares do Departamento de Agricultura dos EUA, a Associação Cardíaca Americana e os Institutos Nacionais de Saúde.

Se optar por acreditar em influencers de saúde, é aconselhável pesquisar um pouco o que eles dizem. Se os influencers citam um estudo para fundamentar o que dizem, verifique se o estudo foi realizado com humanos, se o tamanho da amostra foi grande e se os resultados foram publicados num periódico científico bem conceituado. Depois procure outros estudos sobre o tema para verificar se os resultados coincidem.

Uma pesquisa rápida sobre as alegações de que dietas de baixo carboidrato curam e previnem a demência é um exemplo. “Não existe no momento nenhuma evidência obtida em pesquisas de que certas dietas, incluindo a dieta de baixo carboidrato, a cetogênica ou a dieta de alimentos integrais, ajudem no tratamento ou prevenção de doenças neurodegenerativas como esclerose lateral amiotrófica (ELA) ou o mal de Alzheimer”, disse a nutricionista e médica Shannon Hughes, do Colorado. Pior: “Quando pessoas com essas doenças são submetidas a esse tipo de dieta, os efeitos podem ser prejudiciais, já que esses pacientes já correm risco de desnutrição”. Essas doenças frequentemente provocam perda de peso não intencional devido ao funcionamento aumentado do metabolismo, a perda de apetite e a dificuldade em engolir, de modo que somar uma dieta restritiva a tudo isso pode ser perigoso.

Uma alimentação saudável pode prevenir certos problemas de saúde, mas não pode substituir medicamentos no tratamento de doenças.

Isso tudo não significa que a nutrição não exerça um papel na saúde. “Uma alimentação saudável, de maneira geral, reduz a probabilidade de você desenvolver problemas médicos diversos, porque, com ela, você será uma pessoa mais saudável de maneira geral”, disse Labos. “Sabemos que as gorduras trans fazem mal à saúde, que as gorduras insaturadas provavelmente são melhores para a saúde que as gorduras saturadas e que uma alimentação rica em frutas e verduras faz bem à saúde.”

Há muitas evidências epidemiológicas disso: ou seja, estudos realizados com grandes setores da população consistentemente constatam uma correlação forte entre determinados padrões alimentares e um risco menor de contrair doenças.

Uma revisão realizada em 2018 de estudos sobre dieta e doenças cardíacas constatou que “regimes alimentares que incluem uma variedade grande de frutas e verduras, grãos (principalmente integrais), laticínios magros, alimentos proteicos magros (carne, peixe, frango entre outros), nozes, castanhas, sementes e óleos vegetais” podem beneficiar a saúde e reduzir o risco de doenças cardíacas.

E um estudo feito em 2018 com 776 adultos americanos somou-se ao conjunto já grande de evidências para indicar que uma alimentação com baixo teor de sódio pode ajudar a baixar a pressão sanguínea. Mesmo assim, Labos destaca que correlação não é o mesmo que causa e efeito. Seguir recomendações alimentares baseadas em evidências pode ajudar as pessoas a controlar e reduzir seu risco de doenças crônicas, mas realmente não constitui garantia de prevenção ou cura.

Além disso, realmente não há evidências de que qualquer alimento em especial ou qualquer dieta específica constitua a solução mágica para prevenir todas as doenças. “Pessoas que recomendam dogmaticamente ‘coma isso, não aquilo’, muitas vezes não baseiam suas recomendações em pesquisas”, disse Labos. “Simplesmente não há evidências suficientes.”

E prevenir doenças não é o mesmo que tratá-las. “Por exemplo, há fortes evidências de que uma dieta com alto teor de fibras pode prevenir o câncer de cólon, mas isso não quer dizer que ingerir fibras possa tratar um câncer de cólon”, explicou Hughes. Desistir de quimioterapia, que tem o potencial de salvar vidas, e fiar-se, em vez disso, numa dieta com alto teor de fibras para curar um câncer de cólon pode significar a diferença entre vida e morte.

A ideia de que a comida pode ser remédio é empoderadora, mas responsabiliza os indivíduos por coisas que estão fora de seu controle.

“A nutrição ganhou muita atenção nas redes sociais e na mídia e é algo que é um foco importante no cotidiano de muitas pessoas”, disse Hughes. “Ela dá às pessoas um senso forte de controle e individualidade em relação à própria saúde.”

Mas o problema é que a saúde envolve muito mais do que apenas comida e nutrição. “A ideia de que comida seja remédio promove a visão de que a alimentação pode curar tudo e que as pessoas têm controle total sobre a própria saúde, ignorando outros fatores como a genética e os determinadores sociais da saúde”, disse Hughes.

Os proponentes dessa mensagem a apresentam como “empoderamento”, mas não é justo enxergar uma pessoa e sua alimentação como sendo totalmente responsáveis por sua saúde. “Por exemplo, seria ‘sua culpa’ que você ficou com câncer, porque você não se ‘alimentou bem’ ou ‘não se preocupou o suficiente para se alimentar corretamente’”, disse Hughes. Na realidade, há muitos outros fatores em jogo também. “Uma pessoa pode ter uma alimentação rica em polifenóis e mesmo assim ter câncer, pode fazer uma dieta mediterrânea e mesmo assim ter uma doença cardiovascular”, explicou a nutricionista.

A alimentação é um entre muitos fatores que influem sobre a saúde. Uma dieta geral saudável pode realmente ajudar a prevenir certas doenças, mas não constitui defesa contra tudo. E nenhum alimento ou dieta substitui medicamentos ou tratamento médico reais.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.