Como agir quando as pessoas te zoam por você comer saudável nas festas de fim de ano

O que está no seu prato não é da conta de mais ninguém, mas isso não impede seus amigos ou familiares de fazerem comentários irritantes sobre suas escolhas alimentares.

O bom das festas de fim de ano é poder passar tempo com as pessoas que você ama e curtir as comidas que você adora: a lasanha do seu pai, os biscoitos que sua melhor amiga sempre faz, o épico peru e arroz com passas de sua tia. E não deixe de curtir sem culpa todos seus pratos favoritos e todos os coquetéis festivos desta época do ano. Afinal, é a estação das festas, feita para se comer, beber e espalhar alegria.

Mas com tantos eventos sociais e festas familiares entre as confraternizações e o Ano Novo, talvez você opte por não comer tanto em cada evento. Talvez queira escolher algo mais leve em uma das festas, porque já comeu uma refeição grande antes de chegar. Ou você pode preferir repetir os vegetais ― porque está com vontade de comer verduras. Ou então, quem sabe, você deixe passar a sobremesa em uma dessas festas porque não está com vontade de comer mais um biscoito de Natal.

Às vezes amigos, familiares ou colegas de trabalho se sentem no direito de comentar o que está acontecendo ou deixando de acontecer no seu prato: “Experimente este pavê de chocolate. Não vai te matar!”. “Você não quer a macarronada? Está de regime?”

Esse tipo de comentário discriminador assume muitas formas. Assim como ninguém deveria julgar o que outros escolhem como sobremesa, tampouco deveria comentar quando outras pessoas se abstêm de comer determinados pratos ou alimentos.

“Quando as pessoas fazem comentários negativos sobre as escolhas alimentares de outros, muitas vezes é um reflexo direto de suas próprias inseguranças”, comentou a psicóloga Susan Albers, da Cleveland Clinic e autora de Hanger Management, que figurou na lista do New York Times dos livros mais vendidos.

A seguir, Albers e outros especialistas dão dicas de como responder a observações de desaprovação de pessoas queridas e como lidar com a pressão de pares que se manifesta nas festas de fim de ano em torno da comida.

Como responder a comentários sarcásticos

“Se você acredita que o que está fazendo é o melhor para você, compartilhe isso com outros e também explique que o que está em jogo é o seu corpo e é você quem decide o que colocar nele”, recomenda a terapeuta Torri Efron.
“Se você acredita que o que está fazendo é o melhor para você, compartilhe isso com outros e também explique que o que está em jogo é o seu corpo e é você quem decide o que colocar nele”, recomenda a terapeuta Torri Efron.

O que e por que você come numa festa não é da conta de mais ninguém. Infelizmente, porém, nem por isso algumas pessoas vão deixar de comentar quando você estiver devorando um prato de vegetais – ou, como seus familiares talvez o descrevam, “comida de coelho”.

Veja o que especialistas dizem que você pode guardar em mente da próxima vez que ouvir comentários desse tipo.

Responda com calma, em vez de reagir impulsivamente.

“Não caia na tentação de rebater o comentário com outro sarcasmo”, diz Albers. “Mas em vez disso, respire fundo e reflita sobre o que a pessoa falou. A intenção dela foi te ferir, ou o comentário foi bem-intencionado?”

Seja sincero.

Não é preciso inventar toda uma história fantasiosa. Vá direto ao ponto.

“A pessoa pode dizer, por exemplo, ‘não gosto de comer tanto que fico estufada’”, disse a psicóloga clínica Rachel Goldman, de Nova York. “Ou ‘estou comendo o que quero comer e o que me apetece.’”

Se você tiver uma alergia ou sensibilidade alimentar, explique: “Se eu tomar um sorvete, ficarei com dor de estômago’.”

“Pode ser muito difícil fazer isso numa época do ano em que muitos de nós estamos sujeitos a cobranças maiores.”

- Alissa Rumsey, nutricionista e coach de alimentação intuitiva

Mas não se sinta obrigada a justificar suas escolhas.

Quando lhe oferecem alguma coisa, não há problema algum em recusar gentilmente, mas sem dar margem a dúvidas: “Não, obrigada” ou “não estou com vontade disso agora”.

“Você não deve explicações a ninguém”, disse Albers.

Mas você pode se explicar – se quiser.

Talvez você ande fazendo escolhas mais saudáveis porque o médico lhe recomendou cortar o sal ou você descobriu recentemente que tem certas sensibilidades alimentares.

“Se lhe parecer o caso, você pode compartilhar o que a levou a fazer as escolhas alimentares que está fazendo”, recomendou a nutricionista Alissa Rumsey, coach de alimentação intuitiva da Alissa Rumney Nutrition and Wellness. “Pode até ser que isso deslanche uma conversa útil, que traga novos insights.”

Não se deixe abalar.

Se o que as pessoas lhe disseram a deixaram chateada ou incomodada, você pode simplesmente ignorar, afastando-se um pouco se precisar esfriar a cabeça. Ou então pode deixar claro que ouviu o que o outro lhe disse e em seguida mudar de assunto.

“Se você já sabe que a comida e o peso provavelmente serão temas tensos nos encontros de fim de ano, fique com uma listinha de temas neutros para discutir em vez disso”, aconselhou Albers.

E, é claro, se for esse o seu estilo, simplesmente ria e dê de ombros.

Se um comentário realmente a incomodar, fale alguma coisa.

Mostre à pessoa que a observação dela a deixou magoada.

Por exemplo: “Quando você fez aquele comentário sobre o que eu estava comendo, fiquei super sem jeito”, sugeriu Albers.

Como lidar com a pressão de seus pares em torno de comida

“Não critique as escolhas alimentares de outras pessoas”, aconselha a psicóloga Susan Albers. “Foque apenas sobre seu próprio prato e suas próprias ações.”
“Não critique as escolhas alimentares de outras pessoas”, aconselha a psicóloga Susan Albers. “Foque apenas sobre seu próprio prato e suas próprias ações.”

A pressão em torno de comida é exacerbada no Natal e Ano Novo. Se você vai comer mais uma fatia da torta da Tia Rose, faça-o porque você está com vontade, não porque ela não para de insistir.

Seguem algumas dicas de especialistas que podem ser úteis nas festas de fim de ano e em outras ocasiões também.

Prepare-se com antecedência.

Se você já sabe que alguns de seus familiares têm o hábito de te pressionar para comer e beber mais do que você quer, prepare-se com antecedência, ensaiando algumas respostas possíveis.

“É difícil não se incomodar quando outras pessoas fazem comentários sobre o que você come, seu comportamento alimentar, seu peso e seu corpo”, disse Goldman. “Mas se você já tem uma declaração previamente preparada, pode responder em tom mais calmo e concreto, evitando descambar para um registro emocional e para a mágoa.”

Tenha muito claro para você mesma quais são suas metas de saúde, seus valores e prioridades.

Quando você tem um entendimento claro das razões por que se alimenta do modo como você faz, será mais difícil se deixar convencer ou abalar por comentários negativos de pessoas queridas sobre o que está em seu prato. Quem o diz é a terapeuta conjugal e familiar Torri Efron, de Los Angeles, especializada em transtornos alimentares.

“Se você acredita realmente que está fazendo o que é melhor para você, pode compartilhar isso com outros e também lembrar a eles que trata-se do seu corpo e que é você quem escolhe o que ingerir”, ela disse.

Verifique regularmente como está seu corpo.

Rumsey encoraja seus clientes a ficarem atentos para as sensações corporais de fome, saciedade ou desejo compulsivo por um alimento. Com o tempo eles aprendem a reagir a essas sensações, sem preocupar-se com opiniões ou comentários alheios.

“Pode ser muito difícil fazer isso numa época do ano em que muitos de nós estamos sujeitos a cobranças maiores”, ela comentou. “Apesar de tudo o que está acontecendo, não se esqueça de checar como está seu corpo e satisfazer o que ele necessita, mesmo que outras pessoas discordem ou não entendam.”

Seja um bom exemplo para outros.

Ninguém gosta de uma patrulha alimentar. Se você quer que as outras pessoas respeitem suas decisões alimentares, seja um exemplo de bom comportamento, abstendo-se de fazer comentários sobre o que outras pessoas estão comendo.

“Não critique as escolhas alimentares de outras pessoas”, explicou Albers. “Foque apenas sobre seu próprio prato e suas próprias ações. Talvez seu exemplo positivo acabe influenciando outras pessoas.”

Seja gentil com você mesmo.

As festas de fim de ano podem ser um período altamente estressante. Pratique autocompaixão especial nesta época do ano. Quando você já está se sentindo tensa, é mais fácil se deixar abalar por pequenos comentários desnecessários.

“Reconheça que você está tendo dificuldade ou que está enfrentando situações incômodas”, aconselhou Rumsey. “E, por último, lembre que esta época do ano pode ser difícil para muita gente. Seja o que for que você está enfrentando, não é a única nessa situação.”

Quando a alimentação “saudável” deixa de fazer bem

Se você se critica demais por seus deslizes, é possível que esteja com alguma compulsão.
Se você se critica demais por seus deslizes, é possível que esteja com alguma compulsão.

Quando hábitos alimentares aparentemente saudáveis são levados ao extremo, podem acabar se tornando prejudiciais. É importante ficar atento para sinais de alarme que podem indicar que sua determinação de alimentar-se saudavelmente virou uma obsessão avassaladora e potencialmente perigosa com a comida e/ou o peso corporal.

Quando você se recusa a ser flexível sobre a alimentação nas festas de fim de ano e outras ocasiões especiais.

É quase impossível continuar com a rotina alimentar habitual na época das festas de fim de ano. Isso é algo que as pessoas que têm uma atitude sadia e balanceada em relação à comida entendem.

Assim, se você constantemente rejeita muitos dos pratos servidos em eventos sociais, por não enxergá-los como opções “seguras”, ou tenta contornar o problema levando sua própria comida para reuniões desse tipo, pode ser sinal de rigidez excessiva em sua abordagem.

Você foge de eventos sociais que incluem comida.

Para especialistas, se você anda fugindo da vida social, especialmente de jantares, festas ou outros eventos que incluem comida, isso pode ser motivo de preocupação.

Você sente culpa ou ansiedade extrema depois de comer algo que encara como “não saudável”.

Quando nos desviamos de uma meta de saúde nossa, podemos nos sentir decepcionados temporariamente, mas esse sentimento geralmente passa em pouco tempo. Mas se você se critica excessivamente pelo que considera serem seus deslizes, é possível que esteja se alimentando desordenadamente.

“Se a preocupação vira uma ansiedade, algo que ocupa sua cabeça o tempo todo, talvez você tenha enveredado para o lado pouco saudável”, diz Efron. “Cada refeição é um novo ponto de partida para fazer escolhas que lhe pareçam boas. Não pense que você precisa modificar sua refeição atual para compensar por refeições anteriores.”

Você elimina grupos alimentares inteiros de sua dieta.

A não ser que exista uma razão médica, religiosa ou ética, eliminar grupos alimentares inteiros de sua dieta pode ser um sinal de transtorno alimentar.

A ortorexia é um tipo de transtorno alimentar (embora ainda não seja um diagnóstico clínico oficial que conste do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) em que a pessoa tem uma obsessão excessiva com a alimentação saudável e “limpa”, a ponto de isso atrapalhar sua vida social, além de sua saúde física e mental. A pessoa pode eliminar cada vez mais tipos de alimentos – por exemplo o açúcar, todos os tipos de carne, todos os laticínios, todos os alimentos que contêm glúten – e ao mesmo tempo rejeitar qualquer coisa que enxergue como não sendo 100% pura (ou seja, orgânica, sem sabores artificiais, etc.

Se alguma coisa disso lhe soa familiar, procure a ajuda de um profissional como um terapeuta, nutricionista ou médico.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.