OPINIÃO
12/04/2019 09:18 -03 | Atualizado 12/04/2019 09:18 -03

Com imagens raras, documentário conta história de festival conhecido como ‘Woodstock brasileiro’

Documentário 'O Barato de Iacanga', de Thiago Mattar, estreia nesta sexta-feira (12) no festival É Tudo Verdade, em São Paulo.

Arquivo Pessoal Leivinha
Público do Festival de Águas Claras, em São Paulo, em 1975.

Em um momento em que cabeludos eram presos por serem cabeludos, como lembra o produtor musical Claudio Prado, surgiu em Iacanga, no interior de São Paulo, um misterioso festival de música que agitaria o País. O período era o da ditadura civil-militar brasileira, que se arrastou por longos 21 anos, indo de 1964 a 1985. Já o festival, que começou como uma festinha, foi a versão tupiniquim do famoso Woodstock.

As 4 edições do desconhecido Festival de Águas Claras renascem no documentário O Barato de Iacanga, de Thiago Mattar, um dos 66 filmes exibidos no É Tudo Verdade deste ano, que começou na última quinta-feira, 4 de abril, em São Paulo.

Em 1975, em plena ditadura, Antonio Cecchin Jr., conhecido como Leivinha, aos 22 anos, teve a ideia de chamar alguns amigos e conhecidos para uma festa, um churrascão, na fazenda da família, em Iacanga, cidade que fica às margens do rio Tietê e a quase 400 km da capital. No boca a boca, a maneira mais concreta para a divulgação de eventos naquela época, o encontro transmutou-se ligeiramente em um festival de rock – ainda sem saber que, dali a alguns anos, sustentaria no palco grandes nomes da música brasileira como Gilberto Gil, Hermeto Pascoal, Raul Seixas, Sandra de Sá e Alceu Valença, entre outros.

Irmo Celso
O cantor Alceu Valença foi uma das atrações em 1981.

Há 10 anos o diretor Thiago Mattar pesquisa a história do festival que movimentou a pacata cidade interiorana. As poucas fontes e materiais que sobreviveram ao tempo, alguns bem deteriorados, geraram dificuldades para a equipe ao longo do processo – e, claro, a revelação dessas imagens raras é um dos trunfos do documentário. “Foi a história de Iacanga que me fez sair da casa dos meus pais, largar a faculdade no interior e ir morar e trabalhar com um fotógrafo que tinha registrado os festivais”, conta, em entrevista à coluna do HuffPost Brasil.

Nos últimos 3 anos, as negociações de imagens de Águas Claras veiculadas nos canais de TV e de direitos autorais das canções com artistas se intensificaram. “A gente encontrou muito material deteriorado, alguns que nem tinham salvação... E, nesses últimos 3 anos, apareceram muitas coisas difíceis de negociar”, explica. Para Mattar, contudo, condensar a história do festival em menos de duas horas de filme foi o maior desafio.

“Tudo daria pano para uma série de 4 horas. Se eu fosse esmiuçar cada detalhe, explorar cada um dos festivais, pensando numa narrativa que envolvesse a família que o produziu, a gente teria no mínimo uns 4 capítulos de uma hora cada um. A minha ideia não era entrar nesses assuntos particulares, mas, sim, contar a história do festival mesmo, de como ele surge de uma coisa natural, despretensiosa e se transforma em um evento muito maior do que eles imaginavam e que supera todas as expectativas”, afirma.

A ideia quase que internacionalista de paz e amor como uma alternativa à luta armada contra a ditadura não parecia também agradar a quem comandava o Estado brasileiro. Seis anos se passam até a segunda edição do evento, em 1981, ganhar uma cara mais brasileira.

Se na década de 1970 a imprensa e a própria cidade não entenderam muito bem o que havia acontecido naquela fazenda, as edições seguintes de Águas Claras aparentaram atingir, numa potência elevada e não imaginada por seu fundador, a vontade inicial: em uma gravação antiga, apresentada no filme de Mattar, Leivinha conta que “a ideia nasceu da necessidade de uma maior divulgação para o rock e para a música no geral”.

Até o desfecho abrupto e tempestuoso de 1984, em sua quarta edição, quando marcas de cerveja e helicópteros já sobrevoavam um lado comercial do evento, Iacanga reuniu gente do Brasil inteiro para ver de Raul Seixas a Luiz Gonzaga, passando pelo feito audacioso de contar com a presença de João Gilberto, que chegou dirigindo seu próprio carro para o show.

Calil Neto
João Gilberto toca ao amanhecer para o público de 1983.

Ainda que o documentário se concentre nas apresentações musicais, nos depoimentos dos organizadores e nas reações do público, a conjuntura de repressão do período está ali: um dos entrevistados é Miguel Angelo, fotógrafo pericial, que registrou o festival e ainda parece achar que Águas Claras, em suas palavras, “extrapolava os bons costumes”.

Para Mattar, o festival é uma história de resistência. “A primeira edição acontece contra todas as expectativas e contra todos os fatores externos que impediam grandes reuniões ao ar livre. Ele acaba se tornando, mesmo sem querer, um grande evento de ativismo. Os festivais ao ar livre já eram uma coisa difícil de se fazer. Depois de 1975 fica impossível. Só em 1981 que a produção consegue, nos últimos momentos, a liberação para que ele acontecesse com o aval das autoridades, e muito de nariz torcido. Então, a história do festival para mim é uma história de ativismo cultural. E, de certa forma, até ativismo político. É isso: ‘a gente quer se expressar. Não importa se isso é proibido’, sabe?”

O Barato de Iacanga será exibido nos dias 12 (Sesc 24 de Maio) e 14 de abril (IMS Paulista) em São Paulo. Confira a programação completa do festival aqui.

Irmo Celso
As origens do 'Woodstock brasileiro' você pode conhecer no documentário O Barato de Iacanga. 

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.