OPINIÃO
11/03/2019 10:09 -03 | Atualizado 11/03/2019 13:18 -03

Com 'É Proibido Carnaval', Daniela Mercury nos salva do fim do mundo

Daniela é a força da voz de Elza Soares, a revolução estética de Elke, a rebeldia de Zuzu. É a junção dessas e de outras mulheres.

Divulgação/Célia Santos

Nos últimos versos de A Mulher do Fim do Mundo, Elza Soares, mulher que já sobreviveu à toda sorte de desenganos, violências e condições que a impedem de ficar em pé, ainda que apenas fisicamente, decreta: “Me deixe cantar! Eu vou cantar! Eu sou a mulher do fim do mundo!”.

O canto parece um pedido, uma súplica, mas sua própria história somada à força de sua voz poderosa e gutural deixa claro que ela não está pedindo nada a ninguém. Assim também é o canto da cidade, o canto de Daniela Mercury.

Em meio à uma das maiores ondas de censura já vividas no país, Daniela chegou ao Carnaval com uma marcha dizendo que a festa estava – paradoxalmente – proibida no Brasil. É a contradição que nos alerta, que nos provoca e faz reagir.

Daniela é Elza Soares. Mas também é o canto engasgado de Elis Regina, que se viu obrigada a cantar o Hino Nacional nas Olimpíadas do Exército em 1972, e respondeu às ameaças de exílio e morte com “O bêbado e a equilibrista”. É a mulher que diz que não vai se dobrar perante a agressão. É a resposta da arte sobre a censura.

Daniela é o ato revolucionário, artístico e estético de Elke Maravilha, que rasgou um cartaz no meio do aeroporto Santos Dumont em defesa da memória de Stuart Angel Jones, o filho de Zuzu morto pela repressão da ditadura militar.

O Carnaval de Daniela é a própria releitura do desfile-protesto de Zuzu, em Nova York, em que misturou em simples vestidos de algodão, tanques de guerra, soldados, canhões, quepes militares com árvores, flores, tambores e passarinhos.

Daniela é Rita Lee na mais completa tradução de São Paulo quando cruza, em cima do trio elétrico, a Paulista com a Consolação. É o rock subversivo de duas Mutantes. A expressão de quem não admite um mundo careta. É o verso de Obrigado, Não

"Quanto mais proibido mais faz sentido a contravenção. Não seja condenado a votar em canastrão. Obrigado, não”.

 É a força e a educação de quem diz que pode ir ao Planalto ensinar as leis vigentes do País ao lado de outra mulher, empresária e esposa.

Daniela é a porção mulher de Caetano que até então se resguardara. Que celebra a nudez e se veste de rebeldia. Tropicalismo em sua forma original. É a Bahia das mulheres que fogem do comando de homens e se reinventam ainda melhores, mais bonitas. É a força dos tambores da Didá.

Daniela encerra o Carnaval no mesmo patamar de todas essas cantoras, daquelas que conseguiram traduzir e reescrever a história com a arte.

Daniela é a cantora do fim do mundo. A mulher que diz que quer (e vai) cantar. Até o fim.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.