LGBT
19/11/2019 21:40 -03 | Atualizado 19/11/2019 22:01 -03

'Como evitar o homossexualismo?' é questão de prova em colégio adventista de Belém

Escola em Belém (PA) trouxe diversas questões em prova de português baseada em livro que associa a homossexualidade a "desvio de comportamento".

Reprodução/Instagram/MakeUpHeri
Escola em Belém (PA) pergunta se "homossexualismo" tem perdão em questão de prova de português.

“A pessoa nasce ou se torna homossexual?”, “A bíblia condena a relação homossexual?”, “Homossexualismo tem perdão?”, “Como evitar o homossexualismo?”. Estas perguntas fizeram parte de uma prova de língua portuguesa direcionada para estudantes do 9º ano que frequentam um colégio adventista em Belém (PA). A prova foi aplicada na última segunda-feira (18).

O cunho homofóbico e o viés discriminatório da prova de português ficaram conhecido após o maquiador Herrison Lopes, 26, expor as questões em seu perfil do Instagram. Ele é irmão de uma das estudantes que fez a prova. O caso veio a público e gerou forte reação nas redes sociais. No Twitter, o termo “Colégio Adventista” ficou entre os mais comentados desta terça (19).

“A minha reação foi de surpresa total, juntamente com a minha irmã. A gente ficou indignado com isso. É uma coisa sem pé, nem cabeça. Eles usam o sufixo ‘ismo’ para se referir à homossexualidade como uma doença, algo que já foi retirado até pela OMS”, aponta Lopes em entrevista ao HuffPost.

Segundo ele, a prova tinha caráter complementar, que deveria ser feita em casa e com base no livro De Bem Com Você - Como aproveitar os melhores anos da sua vida, escrito pela jornalista e pedagoga Sueli Nunes Ferreira e pelo pastor, jornalista e doutor em Teologia, Marcos de Benedicto. 

Na descrição do livro, que está à venda na Amazon, os autores afirmam que “este livro vai mexer com você” e que a proposta dele é “mostrar como é bom viver de bem com Deus, os amigos, o sexo oposto e você mesmo”. O material foi editado em 2016 pela editora cristã CPB (Casa Publicadora Brasileira), que pertence à Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Ainda na apresentação, é apontado que o livro debate questões como “como é que se faz para arrumar um namorado? É possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? Como lidar com a solidão? E quando os pais se separam? A pessoa nasce ou se torna homossexual? Como vencer as tentações? E mais, muito mais. Respostas práticas e sem rodeios. Não dá para não ler!”

Os autores rejeitam equivocadamente o uso do termo “homossexualidade”, que não equipara a orientação sexual a uma doença, diferente do termo “homossexualismo”, que é utilizado no livro e foi reproduzido na prova.

Este termo carrega o sufixo “ismo”, que é usado para indicar patologias e é rejeitado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) desde 1990, quando a a homossexualidade foi retirada do Código Internacional de Doenças (CID).

Conforme o livro, que está disponível no formato e-book e custa cerca de R$ 29,90 “o homossexualismo é ‘aprendido’: a pessoa ‘decide’ se tornar homossexual na infância”. Esta era a resposta “correta” para uma das perguntas da prova: “A pessoa nasce ou se torna homossexual?”. 

Lopes, que é homossexual, conta que foi à escola de sua irmã acompanhado de sua mãe para pedir explicações à direção na manhã desta terça-feira (19). “Eles me disseram que não sabiam o que dizer sobre isso porque foram orientados a responder através de uma nota oficial”, disse à reportagem.

Segundo o jovem, a prova tinha cerca de seis páginas e continha 50 questões para serem respondidas. Ele avalia que a escola reagiu muito mal à exposição ao se omitir de respostas e dizer que “não tinha conhecimento do caso”.

“A coordenação pedagógica me disse que não tinha conhecimento que este material estava circulando em sala de aula. Mas não é possível que o professor de português tenha tirado cópias de uma prova de seis páginas com este teor sem conhecimento do colégio”, diz.

Em nota, o Colégio Adventista de Correios afirma que “as questões contidas no questionário tinham como objetivo colher as diversas opiniões e sentimentos sobre a temática em estudo e davam a cada estudante a oportunidade de expressar livremente sua opinião”.

A escola afirma ainda que “um livro serviu como auxílio na tarefa, o que ocorre em várias disciplinas” e que “a tarefa que o professor elegeu levou em conta o conhecimento prévio do aluno. E, com isso, procura proporcionar um debate qualificado a respeito do assunto.”

Segundo o colégio, “a ideia é a de formar um cidadão que respeita opiniões diversas, bem como seja capaz de pensar por si próprio sobre as temáticas apresentadas, respeitando todos os indivíduos sem qualquer tipo de discriminação sexual, racial, religiosa, ou de outra natureza”.

A escola finaliza a nota reiterando que é uma instituição “reconhecida pela confiança e credibilidade que transmite, especialmente por apresentar uma proposta educacional de alta qualidade, pautada em valores baseados na Bíblia e direcionada a promover o desenvolvimento harmonioso das faculdades físicas, intelectuais, espirituais e sociais de cada aluno”.

Lopes afirmou à reportagem que, devido à repercussão do caso, está em contato com a Defensoria Pública do Estado do Pará e com a Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB do Estado e que pretende registrar a ocorrência em uma delegacia especializada em crimes de homofobia para, em seguida, dar entrada a uma ação pública contra a instituição de ensino.

A reportagem tentou entrar em contato com a Defensoria para confirmar a informação e ter mais detalhes da ação, mas não teve resposta até o momento.

“Eu converso com a minha irmã sobre homofobia, principalmente porque nós vivemos em um dos países que mais mata pessoas LGBTs no mundo”, afirma, ao destacar os dados da ONG Transgender Europe, que aponta que o Brasil lidera o ranking de países que mais matam pessoas trans no mundo.

“A gente conversa de uma maneira muito clara. E talvez, por isso, ela tenha se indignado quando viu as questões da prova. Ela já aprendeu que esse sufixo ‘ismo’, que essa palavra ‘homossexualismo’ não existe mais”, conclui.

Os números da violência LGBT e a decisão do STF em 2019

NurPhoto via Getty Images
Manifestantes participam da marcha "A política do ódio não nos representa: lésbicas, bissexuais e transexuais, na mesma luta pela vida e pela liberdade", em 2019.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em junho deste ano, que a LGBTfobia deve ser equiparada ao crime de racismo até que o Congresso Nacional crie uma legislação específica sobre este tipo de violência. Pena é de até 3 anos e crime será inafiançável e imprescritível, como o racismo.

De acordo com o Atlas da Violência do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), cresceu 10% o número de notificações de agressão contra gays e 35% contra bissexuais de 2015 para 2016, chegando a um total de 5.930 casos, de abuso sexual a tortura.

Canal oficial do governo, o Disque 100 recebeu 1.720 denúncias de violações de direitos de pessoas LGBT em 2017, sendo 193 homicídios. A limitação do alcance do Estado é admitida pelos próprios integrantes da administração federal, devido à subnotificação e falta de dados oficiais.

Por esse motivo, os levantamentos do Grupo Gay da Bahia, iniciados na década de 1980, se tornaram referência.

Em 2018, a organização contabilizou 420 mortes de LGBTs decorrentes de homicídios ou suicídios causados pela discriminação. O relatório “População LGBT Morta do Brasil” mostra, ainda, um aumento dos casos desde 2001, quando houve 130 mortes.

O grupo divulgou nova pesquisa que aponta 141 vítimas entre janeiro e o dia 15 de maio deste ano. De acordo com o relatório, ocorreram 126 homicídios e 15 suicídios, o que dá uma média de uma morte a cada 23 horas por homofobia.