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04/05/2020 20:14 -03 | Atualizado 08/05/2020 01:32 -03

Disputa política e pouco isolamento: Como Amazonas chegou ao colapso na saúde

Com fortes indicativos de subnotificação de mortes, Manaus concentra leitos de UTI e é a primeira cidade visitada pelo ministro da Saúde.

Enquanto pesquisadores usam modelos matemáticos para calcular quando os leitos irão se esgotar em diversos estados do País, o Amazonas vive à beira do colapso do sistema de saúde há 3 semanas. No estado em que faltam caixões, profissionais de saúde e equipamentos, os indicadores de subnotificação de mortes por covid-19 são cada vez mais evidentes. Os fatores que explicam o cenário caótico vão desde disputas políticas, até baixo isolamento social e característica geográficas.

As cenas das valas comuns em um cemitério de Manaus ganharam repercussão internacional e câmaras frigoríficas foram instaladas ao lado de hospitais para abrigar corpos que esperam ser encaminhados para sepultamento.

Segundo a Secretaria de Saúde estadual, o Hospital Delphina Aziz, unidade de referência no tratamento de pacientes atingidos pela pandemia, alcançou, neste sábado (2), a capacidade completa de 350 leitos, entre clínicos e de terapia intensiva (UTI). 

Profissionais da saúde relatam há 3 semanas o esgotamento dos recursos no hospital na zona norte de Manaus. Em 10 de abril, depoimentos já mostravam que a unidade seria o primeiro hospital público de referência do País a colapsar em razão da pandemia.

Dezesseis dias após assumir o Ministério da Saúde, Nelson Teich começou neste domingo (3) a primeira visita. Além de vistoriar hospitais, ele se reuniu com o governador Wilson Lima (PSC), com o prefeito Arthur Virgílio Lima (PSDB) e com o Comando Militar da Amazônia (CMA).

Os números da covid-19 no Amazonas

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde segunda-feira (4), foram confirmados 7.313 casos e 585 mortes no estado. É a quinta unidade da Federação com maiores números absolutos, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Ceará. Como os outros estados são mais populosos, o balanço revela que a situação é crítica no Amazonas. 

Com Nelson Teich no comando desde de o dia 17, o ministério parou de divulgar quais estados e capitais estão em situação de emergência, com incidência 50% acima da nacional, mas até então Manaus já figurava nesse ranking. Segundo plataforma online da pasta, a incidência da doença no Amazonas é de 1.764 por milhão de habitantes e a mortalidade é de 141 por milhão de habitantes.

De acordo com mapa divulgado pela pasta no domingo, a incidência fica no patamar mais grave, entre 1.281 e 2.315 casos por 1 milhão de habitantes em algumas regiões amazonenses e a mortalidade em alguns locais do estado chega ao nível mais crítico, entre 91,9 e 179,5 por milhão de habitantes.

Ministério da Saúde
Incidência de covid-19 no Brasil

Se os números oficiais já mostram um cenário aterrador, há fortes indícios de subnotificação, fator presente na pandemia tanto em outros lugares do Brasil quanto ao redor do mundo. A expectativa é que o número atual de óbitos seja maior devido à demora no resultado dos exames. Como o HuffPost vem noticiando, a lentidão no resultado de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais.

Essa demora também se reflete no número de contaminações no País. Há uma subnotificação de casos confirmados ainda maior devido à limitação de testes de diagnóstico. O exame tem sido direcionado apenas aos casos graves. Desde o início da pandemia no País, a orientação tem sido para que apenas pacientes com sintomas severos procurem o sistema de saúde.

Entenda os 5 fatores principais que levaram ao colapso no Amazonas:

1. Subnotificação de mortes por covid-19

De acordo com dados da Prefeitura de Manaus divulgados no domingo (3), 92 mortes foram registradas nos cemitérios administrados pela Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) no dia, sendo 17 em domicílio e 23 usaram o serviço do SOS Funeral, gerenciado pela Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc). 

Entre as causas de morte, 7 pessoas tiveram no atestado a confirmação para covid-19 e outras 4 suspeita da doença. Outras 14 foram registradas como causa desconhecida ou indeterminada e mais 32 por motivo de síndrome ou insuficiência respiratória ou ainda parada cardiorrespiratória. É possível que esses casos também sejam de vítimas do novo coronavírus. 

O município informa ainda que outros 31 óbitos foram registrados em dois cemitérios privados da cidade. Com isso, o total de mortes no domingo chegou a 123.

Em abril, os cemitérios públicos de Manaus registraram 2.435 sepultamentos, um aumento de 179,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Dos 985 feitos entre os dias 23 e 30, período de pico, menos de 10% tinham o coronavírus como a causa de morte, de acordo com a Folha de S. Paulo.

MICHAEL DANTAS via Getty Images
Imagens de vales coletivas em Manaus (AM) chamaram atenção do mundo. Estado tem fortes indícios de subnotificação de mortes por covid-19.

2. Disputa política entre prefeito e governador

Assim como ocorreu em nível nacional, entre o presidente Jair Bolsonaro e o Ministério da Saúde na gestão de Luiz Henrique Mandetta, a disputa política também levou a um agravamento da pandemia no Amazonas. Enquanto o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB) é a favor de um isolamento social mais rígido, o governador Wilson Lima (PSC) é contra.

As medidas para restringir a circulação de pessoas e recomendada pela comunidade científica reduz a velocidade de transmissão do vírus e tem como objetivo justamente evitar um colapso do sistema de saúde.

Em 6 de abril, dias antes do colapso no hospital Delphina Aziz, o então secretário da Saúde do Amazonas, Rodrigo Tobias, disse que 95% dos leitos públicos de UTI estavam ocupados. Dois dias depois, ele foi substituído pela biomédica paulista Simone Papaiz. A mudança de gestão foi criticada pelo então ministro Mandetta.

O clima político levou o presidente da Assembleia Legislativa, deputado estadual Josué Neto (PRTB), a aceitar dois pedidos de impeachment apresentados por médicos contra o governador. Wilson Lima é acusado de crime de responsabilidade devido à a má gestão no combate à disseminação da doença. Josué Neto é ex-aliado de Lima e, caso o o governador e o vice-governador sofram o impeachment, é o presidente da Assembleia que assume até uma nova eleição.

Sem experiência em cargos públicos, Wilson Lima foi eleito na onda bolsonarista de 2018. Antes, ele era conhecido por apresentar o programa Alô Amazonas, da TV A Crítica, ex-afiliada da Rede Record.

Arthur Virgílio, por outro lado, está no segundo mandato na prefeitura de Manaus, cargo que já ocupou no final dos anos 1980. Ele já atuou em Brasília, como deputado federal, senador e ministro no governo do também tucano Fernando Henrique Cardoso.

Marcos Corrêa/PR
Sem experiência em cargos públicos, Wilson Lima foi eleito na onda bolsonarista de 2018. Antes, ele era conhecido por apresentar o programa Alô Amazonas, da TV A Crítica, ex-afiliada da Rede Record.  

Além da divergência sobre como enfrentar a pandemia, o embate político no estado envolve a investigação do homicídio do engenheiro Flávio Rodrigues, 41 anos, em  29 de setembro de 2019, após uma festa na casa de Alejandro Valeiko, enteado de Virgílio. Em novembro, a Polícia Civil do Amazonas indiciou Valeiko e um funcionário da segurança da prefeitura, de acordo com reportagem do UOL.

Na época, os advogados de defesa do enteado do prefeito informaram que a conclusão do inquérito mostra que não há provas contra Valeiko e que houve vazamento de informações a fim de atingir Virgílio.

3. Pouca adesão ao isolamento social

Em entrevistas à imprensa, o prefeito de Manaus chegou a se emocionar e fez diversos apelos por ajuda, incluindo um pedido à ambientalista Greta Thunberg no último sábado (2). “Sou completamente a favor de forçar o isolamento social. O governo do Estado não reconhece, mas eu reconheço que nós fracassamos na tentativa de impor o isolamento social”, disse à GloboNews no domingo. Segundo o Virgílio, o comércio nunca deixou de funcionar, apesar dos decretos e recomendações da prefeitura e do governo.

Em entrevista ao jornal O Globo publicada nesta sexta-feira (1º), o prefeito disse que parte da responsabilidade pela não adesão da população ao distanciamento é do presidente Jair Bolsonaro e admitiu que irá recomendar a Lima que decrete o chamado “lockdown”, com fechamento total de todas as atividades comerciais e o confinamento das pessoas em casa, se a situação não mudar.

No dia anterior, 30 de abril, o governador do Amazonas anunciou um plano de reabertura do comércio não essencial em duas semanas, a ser iniciado em 14 de maio, com parte da retomada das atividades não essenciais, como pet shops e lojas de roupas. Em 21 de maio, seria a vez de bares, restaurantes, lojas de departamento e de eletrodomésticos. A partir de 28 de maio, igrejas, cabeleireiros e lojas de armas de fogo voltariam às atividades. Já em 6 de julho, seriam retomadas creches, escolas e universidades. Por fim, em agosto, casas de shows e eventos poderiam reabrir.

De acordo com Lima, o calendário vai depender das confirmações das projeções da curva de casos de coronavírus. Um estudo encomendado pelo governo estima que Manaus já está no pico do contágio e que a doença vai recuar a  partir de 11 de maio.

A média de isolamento na capital é de 40%, de acordo com a prefeitura. Segundo monitoramento da InLoco feito pelo rastreamento de celulares, o indicador estava em 57,4% no estado neste sábado. Especialistas estimam que apenas 30% tenham aderido às restrições de circulação. 

4. Características geográficas do Amazonas

O colapso dos hospitais de Manaus também é o colapso dos sistema estadual. Isso por que a capital do Amazonas é a única cidade com UTI do maior estado do País, com um território um pouco maior do que a soma das regiões Sul e Sudeste.

Segundo dados da Secretaria de Saúde estadual, até 3 de maio, dos 6.683 pacientes confirmados, 39% estavam no interior. Além de Manaus, os profissionais de saúde enviados pelo governo federal vão atuar em Tabatinga, Itacoatiara e Manacaparu.

De acordo com informações divulgadas pelo Ministério da Saúde nesta segunda, foram habilitados 184 leitos em cinco hospitais de Manaus: Hospital e Maternidade Chapot Prevost, Hospital Nilton Lins, Hospital Pronto Socorro 28 de Agosto, Hospital Universitário Getúlio Vargas e Hospital e Pronto Socorro da Zona Norte Delphina Aziz.

O governo federal também anunciou um reforço de 267 profissionais de saúde, sendo 37 médicos, 118 enfermeiros, 57 técnicos em enfermagem, 26 fisioterapeutas, 12 farmacêuticos e 17 biomédicos, por meio do programa “O Brasil Conta Comigo”. A contratação destes profissionais pelo ministério é temporária, por até 6 meses, e remunerada de acordo com o salário-base de cada categoria. Dias antes, a pasta prometeu 581 profissionais.

O governador Wilson Lima, por sua vez, afirmou que foram recebidas 3 toneladas de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), entre máscaras, aventais e álcool em gel. “Temos feito planejamento para os próximos dias para a chegada de profissionais que serão importantes para ampliar a nossa capacidade de atendimento”, disse.

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Hospital de campanha para indígenas foi prometido em abril, mas ainda não foi entregue.

5. Questão indígena

A incidência da covid-19 na população indígena também é um fator que diferencia a pandemia no Amazonas. Apesar da promessa feita na gestão de Mandetta, o hospital de campanha para esse grupo não saiu do papel.

Em 8 de abril, o então ministro da Saúde afirmou que a obra custaria R$ 10 milhões e ficaria pronta em 15 dias. Na data, ele também demonstrou preocupação com a forma como a doença atinge essa população. “Sabemos do histórico de maus resultados quando indígenas são infectados por vírus vindo de outras partes que não aquele seu ecossistema”, disse.

De acordo com a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), do Ministério da Saúde, foram registrados 120 casos de indígenas infectados pelo novo coronavírus e 6 óbitos. O balanço, contudo, se limita àqueles que moram em aldeias, ou seja, não inclui indígenas moradores das cidades. Segundo a Secretaria de Saúde estadual, 3% dos casos confirmados da doença são de indígenas.

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