Como uma pandemia afeta seu cocô e como lidar com isso

Especialistas explicam por que seu intestino pode estar sofrendo do que poderíamos chamar de um “cocô pandêmico”.

As consequências do coronavírus já atingiram todos os aspectos de nossas vidas, desde como trabalhamos até como choramos nossos mortos e o que fazemos como diversão. Ficar em casa alterou nossas rotinas, sem sombra de dúvida. Para algumas pessoas, até nossa regularidade intestinal foi impactada pela pandemia.

Por que isso acontece? Se você notou mudanças no funcionamento do seu intestino nos últimos 2 meses, talvez não entenda o que aconteceu com essa função biológica, que geralmente funciona tão bem quanto um relógio. A verdade é que há um sem-número de fatores que podem semear o caos nessa regularidade. E, infelizmente, muitas das alterações provocadas por nosso novo estilo de vida decorrente da pandemia criaram uma tempestade perfeita, resultante em fezes imprevisíveis e desfavoráveis.

Para entender melhor por que tudo isso vem ocorrendo no banheiro, o HuffPost conversou com alguns especialistas no assunto. Veja a seguir algumas razões por que você pode estar sofrendo o que poderíamos chamar de um “cocô pandêmico”.

Sua rotina de exercícios físicos mudou

Se suas sessões de malhação foram reduzidas ou interrompidas totalmente desde o início do isolamento, saiba que não é o único nessa situação. As academias estão fechadas, e em muitos lugares do país é quase impossível sair para correr guardando uma distância aceitável das outras pessoas. A movimentação física reduzida pode afetar o funcionamento inestinal – que pode estar menos frequente.

“Há uma conexão importante entre atividade física e regularidade intestinal”, disse ao HuffPost a gastroenterologista Jean Marie Houghton, do UMass Memorial Health Care.

Houghton explicou que a atividade física tende a ativar o intestino, razão pela qual alguns corredores têm diarreia. Quando ficamos um pouco mais sedentários, algo inevitável para muitas pessoas neste momento, “tudo tende a ficar mais lento”, segundo ela.

O professor Mark Donowitz, da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, disse que o exercício físico é importante para a regularidade intestinal. “Essa está sendo a maior mudança para muitas pessoas, que normalmente saem de casa para trabalhar, caminham seus 10 mil passos por dia ou vão à academia – nada disso é possível no momento”, ele comentou.

Por sorte, há uma tonelada de opções gratuitas e recomendações para a prática de exercício físico em casa. Fazer sua sessão de exercícios no chão do seu quarto pode não levar tudo a funcionar tão bem quanto antes da quarentena, mas não faz mal algum tentar.

Sua alimentação está diferente

Sua dieta provavelmente mudou porque você está comendo todas as refeições em casa, quer você ande devorando doces e carboidratos, vivendo dos vegetais que planta em vasos em casa ou dependendo do serviço de delivery do restaurante mais próximo.

O que comemos tem impacto direto sobre nossas fezes; logo, quando mudamos o que ingerimos, isso vai naturalmente modificar o que expelimos.

“A maioria das pessoas já entendeu o que favorece os hábitos intestinais que elas querem conservar, e está claro que esses alimentos não estão tão disponíveis agora”, disse Donovitz. Segundo ele, mesmo que você saiba exatamente o que deveria comer para sua saúde intestinal, é muito provável que não esteja tão fácil agora comprar o que você prefere.

“Frutas e verduras são laxantes naturais, sem falar que contêm muitas fibras”, ele explicou. “Se as pessoas estiverem comendo menos hortifrútis, o resultado pode ser mais prisão de ventre.”

Vale lembrar que hortifrútis congelados são tão bons quanto os frescos no que diz respeito ao funcionamento do seu intestino. E os enlatados também têm bons resultados.

Você anda bebendo mais

“Quarendrinks” (drinks da quarentena), happy hours compartilhadas no Zoom, cerveja em casa sem ninguém acompanhando mesmo – seja o que for que você anda tomando, deve estar tendo um efeito sobre sua regularidade intestinal.

“A bebida alcoólica em pequenas quantidades pode acelerar a motilidade e causar diarreia em algumas pessoas, enquanto o consumo pesado de álcool pode provocar prisão de ventre”, disse Houghton.

As bebidas alcoólicas também “irritam o estômago e intestino, provocando dor, inchaço abdominal e refluxo gástrico”, ela acrescentou. Se alguma coisa aqui parece familiar, pode ser o caso de reduzir seu consumo de álcool para ver se seus sintomas diminuem.

Você está estressado

O grande problema: a pandemia colocou nosso mundo de ponta-cabeça. Fomos arrancados de nossas rotinas familiares e obrigados a encarar rotinas novas, que nunca quisemos e às quais ainda estamos nos adaptando.

Esta chamada “nova normalidade” é tudo menos normal, e qualquer esforço para se adaptar a ela, a opor resistência ou a simplesmente “ser” pode resultar em estresse ansiedade, medo existencial profundo, insônia, exaustão e muito mais.

E, como se tudo isso não bastasse, a tensão emocional pode influenciar nosso funcionamento intestinal. Houghton explica: “Os hormônios e neutransmissores envolvidos com o estresse podem afetar a motilidade intestinal e provocar toda uma série de sintomas”, entre os quais cólicas abdominais, intestino solto e prisão de ventre.

Vale destacar que o estresse pode afetar sua regularidade de maneira diferente da de seus amigos ou familiares.

“Algumas pessoas têm menos movimentos intestinais, outras, mais”, disse Donowitz. “Algumas pessoas ficarão com diarreia, outras com intestino preso.”

Se a situação se complicar muito, alguns remédios vendidos sem receita médica podem ajudar. Fibra alimentar em pó ou como suplemento alimentar pode ser útil se o seu problema for constipação, disse Donowitz.

O melhor que você pode fazer para se ajudar é encontrar algo que lhe traga algum alívio. Para algumas pessoas, pode ser meditar com um app por alguns minutos por dia; para outras, pode ser tirar um cochilo durante o dia ou bater papo ao telefone com uma pessoa querida.

Muitas coisas que antes ocorriam regularmente, incluindo a atividade intestinal, podem estar perturbadas no momento porque “muitos de nossos hábitos dependem de coisas como o café tomado pela manhã ou a caminhada matinal”, disse Houghton.

É pouco provável que você consiga seguir todas suas rotinas normais neste momento, mas apegue-se ao que você ainda tem e ama – seus pets, sua família, seus amigos, seu programa de TV favorito, uma canção que o deixa animado, um momento coletivo de bater palmas para aplaudir os trabalhadores essenciais – e dê-se o tempo e o espaço para curtir tudo isso.

Seus intestinos vão te agradecer.

Os cientistas ainda estão no processo de descobrir mais sobre o novo coronavírus. As informações contidas nesta reportagem são o que se sabia ou estava disponível quando o texto foi publicado, mas as orientações sobre a covid-19 podem mudar à medida que os cientistas vão sabendo mais sobre o vírus. Procure as recomendações mais atualizadas no site do Ministério da Saúde e acompanhe a cobertura do HuffPost Brasil para mais informações sobre a pandemia.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.