LGBT
10/07/2020 17:57 -03 | Atualizado 10/07/2020 18:15 -03

CNN demite comentarista após fala sobre ‘promiscuidade’ de gays e ‘opção sexual’

Leandro Narloch classificou a notícia como “triste” e disse lamentar o que chamou de “histeria que pequenas discordâncias causam”.

O jornalista Leandro Narloch foi demitido da CNN Brasil após associar população LGBT à promiscuidade e falar em “opção sexual” em comentário ao vivo após notícia de que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) revogar restrição a homens gays no momento da doação de sangue.

A informação foi divulgada inicialmente pelo colunista de TV Fefito, no UOL. Segundo o colunista, a direção da emissora não ficou satisfeita com a repercussão do comentário de Narloch. “A empresa agradece pelos serviços prestados no período em que ele fez parte de nossa equipe de analistas e deseja sucesso no seguimento da carreira”, diz comunicado da CNN.

Narloch afirmou que a decisão do STF que derrubou restrições a homens que fazem sexo com homens no momento da doação de sangue representava uma “mudança pequena” na sociedade.

Ele também disse que “gays têm uma chance muito maior de ter aids”, associando-os à promiscuidade e usou o termo “opção sexual”. 

Em suas redes sociais, o jornalista classificou a notícia de sua demissão como “triste” e disse lamentar o que chamou de “histeria que pequenas discordâncias causam hoje em dia”. Ele agradeceu aos colegas de emissora.

Muitas críticas foram direcionadas ao comentarista nas redes sociais, que chegou a fazer alguns tuítes esclarecendo seus comentários. Em um deles, ele diz que existe, sim, “opção sexual”, mas disse “não ter certeza” e que este era “um debate a ser feito”. 

Em resposta à fala do jornalista, a entidade Aliança Nacional LGBT emitiu um comunicado em que pede esclarecimentos da CNN Brasil. 

A ONG diz que “quando se fala de grupos vulneráveis é importante perceber o preconceito existente na sociedade e a desinformação sobre esses grupos pela ampla maioria da população” e que, informações soltas não pode estar desacompanhada de uma explicação mais profunda da temática, sob pena de reforçar o estereótipo do LGBTI+ como um ‘grupo de risco’, o que é incorreto”.

Aliança pede que a emissora convide entidades de defesa dos direitos e cidadania LGBT, para auxiliar na difusão do conhecimento e “facilitar o esclarecimento de dúvidas e contribuindo para a o fim da desinformação.”

O que a Anvisa decidiu sobre doação de sangue 

Nesta semana, a Anvisa revogou artigo presente em resolução que impedia a doação de sangue por homens gays no País. A medida foi publicada no Diário Oficial da União exatos dois meses após término do julgamento do STF (Supremo Tribunal Federal), que considerou o trecho inconstitucional.

Documento publicado pela agência afirma que será distribuída uma “orientação técnica a respeito do gerenciamento dos riscos sanitários e das responsabilidades” dos hemocentros públicos e privados de todo o Brasil. 

Esta orientação é imprescindível não só para hospitais e bancos de sangue alterem formulários e procedimentos padrão, mas para que funcionários apliquem na prática a decisão do STF no atendimento. Nesse sentido, a pergunta sobre orientação sexual e se o potencial doador “faz sexo com homens” deve ser retirada de questionários no momento da triagem.

Tanto portaria do Ministério da Saúde, publicada em 2014, quanto esta resolução da Anvisa, de 2016, afirmavam que “indivíduos do sexo masculino que tiveram relações sexuais com outros indivíduos do mesmo sexo e/ou as parceiras sexuais destes” eram inaptos à doação pelo período de 12 meses. 

 

O que o STF decidiu sobre doação de sangue por homens gays

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Com a crise provocada pelo surto do novo coronavírus, os hemocentros de todo País estão fazendo campanhas para receberem doações de sangue.

Homens que fazem sexo com homens podem doar sangue no Brasil. Por 7 votos a 4, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que considerar este grupo inapto a doar sangue ou impor restrições por um período de tempo é inconstitucional. O julgamento, considerado histórico, foi iniciado em 2017 e chegou ao fim no dia 8 de maio, em sessão realizada no Plenário Virtual. 

Em seu texto, a ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) 5543, que foi analisada pela corte, diz que as regras dão “absurdo tratamento discriminatório por parte do Poder Público em função da orientação sexual, o que ofende a dignidade dos envolvidos e retira-lhes a possibilidade de exercer a solidariedade humana com a doação sanguínea”.

O ministro Edson Fachin, relator do processo, em seu voto, já havia afirmado que as cláusulas existentes nos documentos colocam em xeque “direitos fundamentais de um determinado grupo social”.

Para Fachin, estas restrições são baseadas em orientação sexual e no gênero do candidato, enquanto o mais adequado é utilizar o conceito de “práticas de risco” dos indivíduos - que podem atingir toda a população, não apenas homens gays. Ele foi acompanhado por 7 dos 11 ministros da corte.

 

A decisão é considerada histórica porque, partir da decisão do STF, o governo brasileiro terá que tratar homens gays e bissexuais da mesma forma que homens heterossexuais ao doar sangue - assim como mulheres trans e travestis, que são tratadas pelo gênero masculino no momento da doação.

Com a crise provocada pelo surto do novo coronavírus, os hemocentros de todo País estão fazendo campanhas para receberem doações de sangue. Especialistas ouvidos pelo HuffPost, estimam que a decisão do STF pode chegar a abastecer hemocentros do País com até 1,5 milhão de litros de sangue por mês. No momento, eles operam com 40% da capacidade.

Outros países ao redor do mundo, diante do aumento de casos da covid-19, também alteraram as regras de doação visando o abastecimento dos estoques dos bancos de sangue, reduzidos devido à pandemia. Entre os que flexibilizaram estão Dinamarca, Austrália, Irlanda do Norte e Estados Unidos.