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19/03/2020 18:21 -03 | Atualizado 25/03/2020 17:45 -03

Por que você não deve sair correndo para comprar cloroquina contra o coronavírus

Trump pede que agência acelere aprovação de medicamento usado no tratamento da malária para combater coronavírus, mas seu uso ainda está em fase EXPERIMENTAL.

GERARD JULIEN via Getty Images
"Não é para ser usado como as pessoas estão pensando - de uma forma indiscriminada, com qualquer sintoma gripal", diz o reumatologista Fábio Jennings, da Sociedade Brasileira de Reumatologia.

Neste momento, você já deve ter ouvido falar da cloroquina. Ou da hidroxicloroquina, que é uma variante do mesmo medicamento, usado para o tratamento da malária. Pode, inclusive, já ter visto pessoas buscando remédios com esses princípios ativos em farmácias pelo Brasil para combater o coronavírus. Mas saiba que isso não é o recomendado agora.

A droga tem sido testada nos Estados Unidos como opção para o combate ao coronavírus. Em pronunciamento nesta quinta (19), o presidente americano, Donald Trump, defendeu a opção e disse ter pedido ao FDA, agência responsável pela aprovação de medicamentos nos EUA, que aprovasse rapidamente seu uso contra o novo vírus.

Um dos argumentos de Trump é que o medicamento já é usado há 70 anos e, que, portanto, já se conhecem seus efeitos colaterais. 

Mas nem por isso você deve sair de casa para comprar uma caixa se tossir ou tiver febre a partir de agora. 

Segundo o reumatologista Fábio Jennings, da Sociedade Brasileira de Reumatologia e da Unifesp, os efeitos colaterais mais comuns da cloroquina, de fato, não são graves - os principais são, a longo prazo, alterações visuais, na retina e na mácula -, mas seu uso não pode ser indiscriminado.  

“Ela pode causar em alguns pacientes miopatia e arritmia. E ela tem uma ação antiagregante plaquetária, que, numa interação com outras drogas que o paciente estiver usando, como anticoagulantes, pode provocar até sangramento”, alerta Jennings.

“Então não é para ser usado como as pessoas estão pensando - de uma forma indiscriminada, com qualquer sintoma gripal -, porque aí o efeito colateral da droga pode ser maior do que o sintoma do paciente”, diz o especialista. 

Um teste com 1.500 pessoas, liderado pela Universidade de Minnesota, foi iniciado apenas nesta semana para verificar se a hidroxicloroquina, usada para tratar a malária, pode evitar ou reduzir a severidade da covid-19. 

Aqui no Brasil, entidades médicas, como o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), têm feito alertas sobre o fato de o uso da cloroquina para o combate ao coronavírus ainda estar em caráter experimental.

Em nota publicada na noite desta quinta, a Anvisa diz que “apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos para o tratamento da covid-19”. “Assim, não há recomendação da Anvisa, no momento, para o uso em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação. Ressaltamos que a automedicação pode representar um grave risco à sua saúde”, diz o texto.

Além disso, outro ponto fundamental é que muitas pessoas precisam desse medicamento para uso contínuo, porque ele também é usado no tratamento de doenças reumatológicas, como artrite reumatóide.

“Está criando um problema para os pacientes com artrite, com lúpus, com outras doenças reumáticas, que usam cloroquina, porque tem evidência nesses casos”, diz Jennings, que chegou a orientar, nesta quinta (19), pacientes que fazem uso contínuo a garantir seu estoque. 

“Hoje já esgotou em farmácias de São Paulo o Reuquinol, que é a cloroquina. Tive que ligar para alguns pacientes para avisar para eles logo comprarem porque o pessoal ficou maluco por uma informação que não é verdadeira.”   

Nas redes sociais, pessoas que fazem uso contínuo da cloroquina fizeram também seu apelo para que os brasileiros não promovam uma corrida às farmácias para comprar o medicamento sem necessidade.

Leia nota da Anvisa na íntegra:

 

Esclarecimentos sobre hidroxicloroquina e cloroquina

 

Diante das notícias veiculadas sobre medicamentos que contém hidroxicloroquina e cloroquina para o tratamento da COVID-19, a Anvisa tem os seguintes esclarecimentos:


Esses medicamentos são registrados pela Anvisa para o tratamento da artrite, lupus eritematoso, doenças fotossensíveis e malária.


Apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos para o tratamento da COVID-19. Assim, não há recomendação da Anvisa, no momento, para o uso em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação.


Ressaltamos que a automedicação pode representar um grave risco à sua saúde.

 

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