ENTRETENIMENTO
03/02/2019 01:00 -02

'Climax': Filme é mais uma viagem alucinante de Gaspar Noé

Diretor franco-argentino fala sobre filme que mostra uma descida ao inferno de drogas e delírio coletivo.

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"Os atores que trabalham comigo sempre dizem que gostaram muito, que se sentiam honrados e tal, mas morrem de medo que seus pais vejam o filme", diz o sempre sarcástico Noé.

Os filmes de Gaspar Noé já foram tachados de muitas coisas: de obras sensacionalistas, niilistas, misóginas, que glorificam a violência... Adjetivos dos quais seu quinto longa, Climax, que chegou aos cinemas brasileiros na última quinta (31), não escapará.

“Já me acusaram até de ser religioso!”, brincou o diretor franco-argentino, que ficou conhecido pelo grande público com Irreversível (2002), em conversa com jornalistas.

Levemente baseado em fatos reais - porque Noé não podia se dar ao luxo de ter problemas com pessoas envolvidas no caso por pura falta de dinheiro -, Climax é mais uma experiência sensorial do cineasta que nunca teve medo de arriscar.

A “história” se passa toda dentro de um galpão isolado no meio de um inverno rigoroso na década de 1990. Lá um grupo de dançarinos comemora o fim de um período de ensaios intensos. A festa, porém, começa a ganhar um ar sinistro quando eles começam a se sentir estranhos, desconfiando que a bebida deles foi “batizada” com algum tipo de droga. A partir dessa constatação, as coisas saem totalmente do controle e o grupo entra em um estado de frenesi psicótico coletivo.   

“Não é um filme sobre drogas. É um filme sobre delírio coletivo. Como o que acontece em protestos, em torcidas de futebol… Nem fica claro se os personagens estão sob o efeito de alguma droga”, explica Noé, que queria fazer um filme barato sobre dançarinos sem ter de lidar com a interferência de ninguém.

Tanto que o roteiro não passava de três páginas. “Quando você tem um roteiro já pronto, todo mundo dá pitaco. Querem te castrar o tempo todo. O filme foi bancado com dinheiro pessoal dos produtores”, conta o cineasta. “Esse filme é o produto de um esforço coletivo. Quase todos os diálogos foram improvisados na hora pelos dançarinos que não tinham qualquer experiência como atores.”

Fiz um filme barato e do jeito que eu queria

Se bem que isso não é totalmente verdade, já que a argelina Sofia Boutella, que interpreta a personagem Selva, quase uma protagonista do filme, tem um carreira sólida como atriz. “Por um lado foi quem deu mais problema”, disse Noé, ironicamente. “Ajudou o fato dela ser atriz, mas ela já me conhecia e ficou preocupada com uma cena com nudismo. Disse que ela poderia fazer do jeito que quisesse, até com roupas. Se faria a cena com um rapaz ou com uma moça… Era escolha dela. E ela escolheu a garota.”

“Os atores que trabalham comigo sempre dizem que gostaram muito, que se sentiam honrados e tal, mas morrem de medo que seus pais vejam o filme.”

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Fã declarado de Zé do Caixão, o diretor vem construindo um cinema mais visceral e cheio de acrobacias narrativas. Em Climax, por exemplo, cenas são mostradas de cabeça para baixo, com letreiros ao contrário, créditos em momentos inesperados e vermelho, muito vermelho.

“Usar o vermelho funcionou em Irreversível e desde então eu uso vermelho. Copio muito o meu trabalho. Não sei se por falta de inventividade, sei lá… Minha carreira é o contrário daquelas coletâneas tipo ‘best of’. Eu faço ‘worse offs’”, afirma Noé com um sorrisinho maroto.

A droga que causa mais dependência atualmente é o celular
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Sobre a questão das drogas, elemento constante em seus filmes, ele jurou de pé juntos que os atores do filme não ingeriram qualquer tipo de substância ilícita. “Só servimos álcool em um jantar e foi catastrófico. A partir dali nada de álcool. Eu mostrei a eles muitos vídeos de pessoas sob o efeito de drogas ou tendo algum tipo de surto psicótico. Eles se divertiram muito interpretar alguém perdendo a cabeça.”

Mas e ele? Essa obsessão por drogas tem alguma coisa a ver com experiências pessoais? “Minha droga é o cinema. Álcool eu já larguei e, infelizmente, ainda não consegui deixar o cigarro, mas sou viciado mesmo é em cinema”, falou Noé. “A droga que causa mais dependência atualmente é o celular.”

Bem recebido por uma parte considerável da crítica, Climax ainda pode ser considerado provocador demais para o grande público, mas isso não abala Noé. “Fiz um filme barato e do jeito que eu queria. Fiquei muito feliz quando ele foi selecionado para passar em Cannes. Um dia estava em um voo e comecei a ver um filme americano desses bem caros. Era metralhadora para todo lado. Morriam umas 5 mil pessoas. Por que eu sou o provocador?”