17/02/2019 00:00 -03 | Atualizado 17/02/2019 00:00 -03

O amor por ficção científica e realidades inventadas: A 'nerdice' de Claudia Fusco

Jornalista é especialista na área e quer mostrar a relevância do gênero: “Toda ficção científica tem por trás a ciência, a base econômica e social."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Claudia Fusco é a 347ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Lembra com clareza do dia em que pegou o exemplar pela primeira vez. Tinha 11 anos quando começou a ler a série de livros do Harry Potter. “Fui bem criança dramática. Li a primeira página e falei: ‘acho que isso vai mudar a minha vida’ [risos]. Mas realmente mudou”. Ficou obcecada pelos livros. O quarto da série leu 24 vezes, calcula. E mais do que amar aquela história, Cláudia Fusco, 30 anos, ficou apaixonada por todo o universo ao redor disso: a filosofia, a origem das ideias, as histórias paralelas. Foi entrando de vez no mundo da fantasia. Talvez como um gosto de criança ainda, mas anos mais tarde isso se tornaria seu objeto de estudo e parte importante de seu trabalho.

Claudia vive em duas realidades. Às vezes mais. Logicamente. “Sou jornalista por formação. Na vida real eu cuido de redes sociais. Mas na minha segunda vida eu fiz mestrado em ficção científica e dou aula sobre isso, história da magia, contos de fadas, essas coisas são minha praia”. Após se render a ficção científica – tinha medo porque associava esse tipo de produção a ETs, mas quando descobriu que podia ser muito mais do que isso se apaixonou por essa área também – foi em busca de um curso sobre o tema. Ficou surpresa ao descobrir um mestrado em Liverpool, na Inglaterra. “Estava em uma carreira certinha no jornalismo e me deu a louca, quis estudar isso, guardei dinheiro e fui caçando formação e achei essa. Fui a primeira mulher da América Latina a fazer esse curso. E foi muito legal, uma piração. Era aula de ficção científica e filosofia. Era um clube do livro levado muito, muito a sério. E foi uma experiência transformadora”.

Na vida real eu cuido de redes sociais. Mas na minha segunda vida eu fiz mestrado em ficção científica e dou aula sobre isso, história da magia, contos de fadas.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Claudia criou um canal no youtube, em 2015, “Tô Lendo”, com a ideia de ler tudo o que tinha em sua prateleira -- sem comprar um livro novo. 

Tanto que passou a nortear seus estudos, seus gostos e seus livros, claro – coisa muito séria na vida de Claudia, aliás. Em seu quarto, escolhe com dificuldade alguns que julga importantes para ela e para quem quer estudar sobre fantasia e ficção científica. Fica observando todos com calma. Separa um do Star Wars, um guia de como se locomover em universos de ficção científica, um livro clássico de fantasia e princesa, um clássico de ficção científica e um moderninho sobre o tema. Um bom começo. Mas não gosta de ser injusta com nenhum livro, parece. Isso porque, para ela, eles também tem sua vida paralela. Descobriu isso com o tempo e hoje se esforça para honrar cada um deles, podemos dizer.

Por causa disso ela criou um canal no youtube, em 2015, “Tô Lendo”. A ideia era não comprar nenhum livro novo durante o ano e dar atenção a tudo que tinha em sua prateleira. “Começou como um desafio de leitura. Decidi que eu queria muito me dedicar aos que já estavam aqui até porque foi uma coisa que fui descobrindo, o livro tem uma vidinha própria e às vezes está aqui parado, pegando pó na estante e ficaria ótimo com outra pessoa, alguém poderia se apaixonar por ele e não precisa ter apego com as histórias, elas têm que passar, andar”.

Fui a primeira mulher da América Latina a fazer esse curso. E foi muito legal, uma piração.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela sempre foi do clube da leitura e se identifica com a cultura nerd há muito tempo.

Foi o que fez. Os vídeos eram resenhas sobre o que lia, destaques dos mais legais e, ao fim de um ano, mais consciência para comprar seus livros. Hoje seu objetivo e falar mais sobre seus assuntos de estudo. E é o que tem feito também em sua vida paralela, nos cursos que ministra. O último ocorreu no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, e falava sobre fantasia e folclore nos quadrinhos.    

Não poderia estar mais feliz. Apesar da grande virada com Harry Potter, Cláudia sempre foi do clube da leitura e se identifica com a cultura nerd há muito tempo. “Sempre me associaram a isso. Na adolescência não podia estar com um livro na mão que já ia para o canto do nerd, mas vestiu bem. Se é algo que me permite ler muito e falar desses assuntos que eu amo, e só algo positivo”. As coisas ficaram mais chatas quando começou a assumir essa posição de forma profissional, lá para 2010, pouco antes do seu mestrado. “Tive um blog sobre o assunto e fui alvo de muito ódio por ser uma mulher escrevendo sobre isso. Recebi ameaça, assédio, até me distanciei um pouco, mas hoje está maravilhoso! Acho que está parando ser uma novidade mulher falando disso. Agora são muitas para um cara chegar e assustar todas e isso ajuda. Somos muitas e isso é muito legal”.  

Acho que está parando ser uma novidade mulher falando disso. Agora são muitas para um cara chegar e assustar todas e isso ajuda. Somos muitas e isso é muito legal.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Cláudia destaca até pesquisas de feminismo relacionadas a esse tipo de produção, mais especificamente sobre a relação das mulheres com a bruxaria.

Muito mesmo. Tanto que nesses quatro anos em que passou a ministrar os cursos sobre ficção científica e fantasia, ela percebe a boa procura, a receptividade e evolução do mercado. Ela acredita que nos últimos tempos a coisa veio se consolidando e o interesse crescendo um pouco por moda, mas também por um reconhecimento do gênero. “A gente aprende sobre a realidade com essas histórias. Sei que vou entrar em uma jornada que vai exagerar e esticar a realidade, mas vai me fazer enxergar melhor e tem outras coisas por trás. Toda ficção científica tem por trás a ciência, a base econômica e social do país, do autor, do tempo e isso é legal e acaba sendo um mapa do tesouro para o passado”.

Não se trata apenas de bruxos, magias, princesas, realidade fantásticas, universos paralelos, alienígenas e o que mais se possa criar. Até porque o gênero vai sempre se modificando e se ressignificando. E Cláudia destaca até pesquisas de feminismo relacionadas a esse tipo de produção, mais especificamente sobre a relação das mulheres com a bruxaria. “As mulheres são associadas a bruxaria porque a bruxaria e associada ao marginal e você tem essa relação muito clara como forma de estabelecer o poder. Tem muito estudo disso hoje!”.

Mais um caminho que ela pode seguir. Mas Claudia já imagina outros mundos que para si. “Ainda tenho o sonho de princesa de abrir uma pós em literatura fantástica. Seria muito legal dar aula sobre isso de forma mais regular”. Uma realidade que não precisa ser paralela. Mas se for, tudo bem. Ela está preparada.  

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.