12/01/2019 01:00 -02 | Atualizado 14/01/2019 11:19 -02

Claudia Baré, a professora que luta pela alfabetização nas tribos indígenas do Amazonas

Ela montou a própria escola para lecionar na aldeia e sonha com uma educação indígena de qualidade.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Cláudia Baré é a 311ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Não é tradicional. Não há paredes ou quadro negro. Sua estrutura, feita de madeira, parece frágil, mas carrega força. Rústica, ela ganha vida com as pinturas, desenhos, artesanatos e cartazes com dizeres em Nheengatu, língua da família Tupi-Guarani falada no Brasil até cerca de 1730. “Sábado”, por exemplo, é Saurú em Nheengatu. E quem ensina é a pedagoga indígena Cláudia Baré.

Desde 2016, ela compartilha o conhecimento de suas raízes no Centro Municipal de Educação Escolar Indígena Wakenai Anumarehit, localizado no Parque das Tribos, em Manaus (AM). “Comecei como voluntária ensinando português para 40 crianças e adolescentes de várias etnias. Agora atendo mais de 80 e me realizo em vê-las crescendo com oportunidade”, conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

Ensinar para indígenas sem apoio é desafiador. Mas não desisto.
Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Wakenai", na língua Arwak significa "origem". E "Anumarehit" em Saterê Maué, significa "guerreiro".

A luta de Claudia pela educação indígena começou em 2013, quando chegou no Parque das Tribos, o primeiro bairro indígena da capital que abriga cerca de 38 etnias, que falam línguas distintas, mas derivadas do Tupi-Guarani. À época, a localidade não contava com nenhuma infraestrutura e as dificuldades enfrentadas pelos indígenas que deixaram as aldeias para viver na cidade eram notórias, principalmente com a falta de escolas próximas. “Via as crianças indígenas soltas, sem rumo. Precisava fazer algo por elas. Foi aí que criei o Centro Cultural para ensinar artesanato e português, do meio jeito”, lembra.

A professora começou as atividades no local com o que tinha por perto: raízes, frutos e sementes. Fixou cartazes com palavras indígenas com traduções para o português. Assim, com dedicação, ela conseguiu ensinar 40 - crianças e adolescentes - indígenas a ler e escrever em sua primeira turma. Mas sentia que precisava fazer mais pelas tribos. Lembrou do tempo em que seu pai, também professor, a ensinou e como foi importante passar por uma escola regular. “Precisava de didática para ensinar. Foi então que resolvi encarar uma faculdade”, conta.

Realizei o sonho de fazer mais pelo meu povo.
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Aos 36 anos, ela passou em 12º lugar no vestibular para Pedagogia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Mas a oficialização de sua missão veio em 2014. Aos 36 anos, Claudia, que já trabalhava como professora, disputou 50 vagas no vestibular da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e passou em 12º lugar para o curso de Pedagogia. “Foi uma sensação incrível. Uma indígena na faculdade? Eu não podia acreditar”, relembra com um sorriso tímido no rosto. Em quatro anos de estudo, e o maior desafio foi adaptar tudo o que aprendeu na prática para a sala de aula na aldeia. Isso, porque ainda não existe existe material didático específico.“Tive que pensar e criar sozinha uma didática para que crianças indígenas pudessem assimilar o conteúdo. Ainda não é o ideal. Sonho com um material específico. Livros com conteúdo indígena. Quem sabe um dia, né?”, acredita.

É um desafio ensinar sem material específico, mas com vontade, vamos vencer.
Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Sonho com uma educação indígena de qualidade."

Durante todo esse processo, Claudia teve a oportunidade de se tornar professora com salário pago pela Prefeitura de Manaus. No final da faculdade, em 2016, ela foi selecionada em um processo seletivo para professores indígenas na Secretaria Municipal de Educação (Semed). “Fui selecionada e como o bairro novo precisava de uma escola, me deixaram aqui mesmo. Continuei trabalhando por elas e receber por isso, foi consequência”, conta.

Três anos depois, a estrutura da escola melhorou, mas está longe de ser o ideal. Em vez do chão, os alunos passaram a sentar em carteiras. Ao invés da lousa improvisada, um quadro branco agora ocupa a parede. Nele, a professora consegue trabalhar caligrafia dos alunos em sala de aula. “Com salário ou não, vou continuar lecionando. Sonho com uma educação indígena de qualidade. Meu pai, índio, lutou por isso e também vou lutar pelos meus.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Samira Benoliel

Imagem: Iana Porto

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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