OPINIÃO
12/06/2019 00:07 -03 | Atualizado 21/06/2019 14:37 -03

Petição mobiliza 150 mil pessoas para que criança assista ao filme da Turma da Mônica com os pais deficientes auditivos

Filmes nacionais dificilmente contam com recursos de acessibilidade.

Arquivo pessoal
Isabella (à esquerda), que completa 10 anos no mesmo dia em que Laços estreia, com a irmã mais nova e os pais.

Comemorar o aniversário da filha no cinema, assistindo ao tão esperado filme da Turma da Mônica, Laços, que estreia dia 27 de junho. O que para muitos é um típico e simples programa em família, para a comunidade surda pode significar um desafio: encontrar uma sessão que disponibilize recursos de acessibilidade aos deficientes auditivos. Carolina Correia, que tem surdez, empreende uma saga para ter o direito de assistir ao longa infantil junto com a filha Isabella, que completa 10 anos no mesmo dia da estreia do filme.

Carolina criou um abaixo-assinado pedindo que a produção de Laços e as redes de cinema Cinemark e UCI Cinemas ofereçam o longa de forma inclusiva aos surdos, com libras ou ao menos legendas descritivas. A mãe de Isabella não exige nada além de um direito, previsto no artigo 215 da Constituição Federal, que diz que “o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional”.

“É muito difícil encontrar filmes nacionais acessíveis e dentro da programação familiar”, comenta Carolina. No abaixo-assinado, aberto na plataforma Change.org, a analista de sistemas explica que muitos momentos em família acabam se perdendo devido à falta de acessibilidade. Por isso, ela luta para que mais esse não se perca. Com a mobilização, ela conseguiu um retorno positivo da produção de Laços, que garantiu que o filme será acessível. Entretanto os cinemas precisam aceitar e disponibilizar os recursos de acessibilidade.

“Agora nós precisamos pedir às empresas UCI Cinemas e Cinemark que aceitem receber telas com libras ou com legendas, possibilitando essa acessibilidade nas salas de cinemas que forem passar o filme por todo o Brasil”, pede. Ainda em dezembro do ano passado, quando soube que o filme seria lançado, Isabella, que não tem deficiência auditiva, contou para a mãe que queria comemorar seu aniversário no cinema, assistindo Laços com os amigos e a família.

“O maior presente para ela seria curtir esse dia marcante com meu marido e eu presentes também na sala”, destaca Carolina no texto da petição. Assim como a mãe, o pai de Isabella também tem surdez. “Decidi fazer a campanha séria, e criei a petição para que outros pais surdos ou que têm filhos surdos, e também a comunidade surda, ajudem nessa campanha. Isso é um começo! Após 6 meses, consegui mais de 150 mil assinaturas”, contou a criadora da petição em entrevista à equipe da Change.org.

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Direito negado

Além do direito de acesso à cultura para todos, previsto na Constituição, no Brasil existe uma lei nacional que trata especificamente de normas para a para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência. O artigo 19 da lei de número 10.098/2000 prevê que os serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens adotem medidas técnicas para permitir o uso da linguagem de sinais ou outra subtitulação, garantindo assim o direito do acesso à informação às pessoas com deficiência auditiva.

Além disso, o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) conta com itens que determinam igualdade de oportunidades à pessoa com deficiência no acesso a programas de televisão, cinema, teatro e outras atividades culturais e desportivas. A lei, que entrou em vigor em janeiro de 2016, ainda estipula um prazo máximo de 4 anos (até janeiro do ano que vem) para que as salas de cinema ofereçam, em todas as sessões, recursos de acessibilidade.

Na prática, porém, como conta a analista de sistemas, essa norma está longe de se tornar realidade. Carolina já encontrou algumas sessões de filmes nacionais em desenho animado, com legendas descritivas, em um centro cultural do Rio de Janeiro, cidade onde mora, porém, lamenta que os horários sejam sempre os últimos e que os filmes entrem em cartaz somente um ano depois do lançamento.

A Ancine (Agência Nacional do Cinema) também possui uma instrução normativa que trata da obrigatoriedade de disponibilização de recursos de acessibilidade visual e auditiva nas salas comerciais de cinema. Alguns estados e municípios ainda possuem leis próprias determinando que os cinemas exibam filmes nacionais com legendas descritivas, como é o caso de Pernambuco e das cidades de Caxias do Sul (RS) e Piracicaba (SP).

“O mais importante é que todas as sessões sejam acessíveis, de filmes nacionais, animados etc, para que não se perca a programação familiar”, comenta a analista de sistemas, que possui uma história pessoal com a Turma da Mônica. Carolina lembra que aprendeu a ler, ainda criança, graças aos gibis escritos por Mauricio de Sousa.

“Tinha 9 ou 10 anos, estudava numa classe especial, aprendia sobre língua portuguesa, mas não entendia o significado das palavras por causa da surdez. Fui na casa de uma amiga, peguei emprestado um monte de gibis e fiquei encantada. Me envolvi demais, pois estava aprendendo o significado das palavras porque as imagens mostravam”, declara a analista, que hoje vê a filha lendo, assistindo e se divertindo com as aventuras da Turma da Mônica.

Segundo o Censo de 2010, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 9,7 milhões de pessoas têm deficiência auditiva no Brasil.

Posicionamento das redes de cinema

Há 6 meses Carolina também tenta conseguir uma resposta do Cinemark e UCI Cinemas, sem sucesso. Veja no vídeo a seguir o apelo feito por Isabella, seus pais e por sua irmã, Maria Clara, de 4 anos, para que a família consiga assistir a Laços de forma acessível.

Acessibilidade na Rede Cinemark

Nesta quinta-feira (13), após publicação da matéria, a Rede Cinemark divulgou nota afirmando que “está investindo na compra de equipamentos de acessibilidade”.

Veja o comunicado na íntegra:

A Rede Cinemark está investindo na compra de equipamentos de acessibilidade. Já em junho recebemos a primeira leva. Conforme prevê a lei 10.098/2000 e a regulamentação estabelecida a partir de reuniões organizadas pela Ancine, até o final do ano todos os complexos da Cinemark terão os equipamentos disponíveis.

Abaixo a lista dos complexos que estarão com equipamentos já para a estreia do filme Laços. Importante lembrar que há uma cota de dispositivos por complexo, conforme regulamentado
por lei.

Cinemark Aracaju Shopping Jardins (Aracaju, Sergipe)
Cinemark Botafogo Praia Shopping (Rio de Janeiro, RJ)
Cinemark Bourbon Ipiranga (Porto Alegre, RS)
Cinemark Campo Grande (Campo Grande, MS)
Cinemark Downtown (Rio de Janeiro, RJ)
Cinemark Garden Shopping Bragança Paulista (Bragança Paulista, SP)
Cinemark Iguatemi Brasília (Brasília, DF)
Cinemark Pier 21 (Brasília, DF)
Cinemark RioMar (Recife, PE)
Cinemark Salvador Shopping (Salvador, BA)
Cinemark Shopping Metrô Santa Cruz (São Paulo, SP)
Cinemark Shopping Mueller (Curitiba, PR)

 

Acessibilidade na UCI Cinemas

A nota oficial da rede UCI Cinemas chegou na terça-feira (18). A rede diz que a instalação de equipamentos de acessibilidade já começou em 4 complexos de cinema do País.

Leia a íntegra:

Qualidade, conforto, tecnologia e inclusão. Há 21 anos, a UCI Cinemas está sempre em busca do que existe de mais inovador para proporcionar as melhores experiências para todos os gostos, públicos e idades. Para fortalecer essas premissas, a rede passa a exibir sessões acessíveis, com recursos de legenda descritiva, libras e áudiodescrição, que vão oferecer imersão cinematográfica completa a portadores de deficiência visual e auditiva.

Com 203 salas espalhadas por 13 cidades brasileiras, a UCI conta com 24 complexos. O processo de instalação dos equipamentos de acessibilidade já começou nos cinemas UCI New York City Center (Rio de Janeiro), UCI Shopping Parangaba (Fortaleza), UCI Bosque dos Ipês (Campo Grande) e UCI Kinoplex Shopping Tacaruna (Recife), que serão os primeiros a receber a novidade. 

Até o fim de junho, o número vai aumentar. UCI Jardim Sul (São Paulo), UCI ParkShoppingCampoGrande (Rio de Janeiro), UCI Kinoplex Norte Shopping (Rio de Janeiro), UCI Sumaúma Park Shopping (Manaus), UCI Kinoplex Plaza Casa Forte Shopping (Recife), UCI Orient Shopping da Barra (Salvador) e UCI Orient Shopping da Bahia (Salvador) também estarão aptos a exibir sessões acessíveis, o que representa 48,8% das salas da rede. A previsão é de que o índice de instalação suba para 100% até outubro.

Na UCI, os usuários do sistema de libras poderão optar por intérpretes humano ou virtual - em formato de avatar. O aparelho também contará com suporte de tradução automática, legendas em tempo real (Closed Caption) e áudiodescrição. Em breve, será oferecido o áudio amplificado.

As sessões 100% acessíveis da UCI chegam às telonas no mês de estreia de Turma da Mônica: Laços, live-action com os clássicos personagens de Mauricio de Sousa. Depois de 56 anos, Mônica, Magali, Cebolinha e Cascão saem dos quadrinhos e do imaginário do público direto para os cinemas. A estreia é 27 de junho e promete reunir toda a família.

 

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.