ENTRETENIMENTO
15/10/2020 13:00 -03

O drama da reabertura dos cinemas na Índia

Os grandes diretores de Bollywood estão esperando para ver como se saem filmes menores, enquanto os cineastas independentes acham que são os filmes grandes que deveriam arcar com o risco. Os donos de cinemas ficam no meio desse fogo cruzado.

DANISH SIDDIQUI / REUTERS FILE PHOTO
Cinemas reabrem nesta quinta-feira (15) na Índia.

Desde 1993, quando Baazigar foi lançado e teve recepção explosiva nas bilheterias, a janela do Diwali (o Festival das Luzes da Índia) é vista como sendo promissora para Shah Rukh Khan.

O ator, que não faz um filme novo desde o fracasso de Zero, de 2018, tem tido uma taxa de sucesso de 100% no que diz respeito a seus filmes lançados durante o Diwali: de DDLJ a Kuch Kuch Hota Hai, de Dil To Pagal Hai a Mohabbatein, de Veer Zaara a Don e Om Shanti Om, o Diwali funciona para Khan como o Natal para Aamir Khan (Ghajini3 IdiotsPK), o Eid para Salman Khan (WantedDabanggEk Tha Tiger) e qualquer data do calendário para Akshay Kumar.

Até outubro, muitas produções grandes e pequenas geralmente chegam aos cinemas e já partem — e é a época em que a indústria está se preparando para o início dos lançamentos da temporada festiva.

Mas não este ano. Os cinemas estão previstos para abrir a partir desta quinta-feira (15) em toda a Índia com a exceção dos estados de Maharashtra e Tamil Nadu, sendo Marahashtra um dos territórios mais cruciais em matéria de arrecadação. Mas o calendário de lançamentos de Bollywood ainda está em desordem devido ao impacto da pandemia da covid-19.

Na ausência de antecedentes para uma situação como esta, os analistas especializados ainda não sabem prever se os festivais que se aproximam vão iluminar as bilheterias ou se os cinemas vão continuar a sofrer no escuro.

“O que aconteceu não tem precedentes”, disse o analista Komal Nahta. “Na situação atual, dificilmente o público vai correr para o cinema no dia de estreia dos filmes. Vai levar algum tempo para as pessoas se sentirem em segurança em um espaço fechado por um período de tempo prolongado. Os grandes filmes provavelmente verão a reação das pessoas nos primeiros dias de abertura dos cinemas, quando passarem outra coisa. Os cinemas vão ficar numa sinuca.”

As grandes produções pelas quais os proprietários de cinemas esperavam para aquecer seus negócios – Sooryavanshi e ’83 – dificilmente vão seguir o cronograma de lançamento previsto. Em comunicado à imprensa, o CEO da Reliance Entertainment, Shibashish Sarkar, disse: “Vamos esperar para ver o que acontece antes de tomar uma decisão sobre o lançamento de ’83 e Sooryavanshi. Mesmo que os cinemas em todos os estados do país abram as portas até 1º de novembro, não podemos lançar um filme tão grande depois de apenas 15 dias de divulgação”.

O fato de que os cinemas só poderão usar 50% de sua capacidade significa que um filme levará o dobro do tempo normal para recuperar seu custo de produção e gerar lucro.

“Os filmes vão precisar passar mais semanas em cartaz. A arrecadação que normalmente teriam acumulado em 5 a 6 semanas agora lhes levará 8 a 10 semanas para conseguirem”, explicou Nahta.

Fontes disseram ao HuffPost Índia que Tenet, de Christopher Nolan, um dos maiores filmes de Hollywood deste ano, produzido pela Warner Bros, ainda não tem data de lançamento na Índia. Os executivos do estúdio estão esperando para ver o que vai acontecer em novembro.

O filme teve exibição limitada nos EUA, tendo gerado receita principalmente de territórios internacionais da Europa e sul da Ásia, onde os cinemas estiveram abertos nos últimos meses.

Shiladitya Bora, que dirigiu no passado a bandeira Director’s Rare da PVR Pictures e no momento comanda a distribuição em toda a Índia do filme Sir, que já passou por vários festivais e cujo lançamento comercial em março foi prejudicado pela pandemia, disse que a performance de grandes produções nas bilheterias lhe dará uma indicação do estado de ânimo do público.

Bora sente confiança em lançar Sir, com Tillotama Shome e Vivek Gomber, nos cinemas até dezembro.

Sob circunstâncias normais, um filme independente como Sir teria saído sem problemas em uma das plataformas de streaming. Mas, graças à repercussão internacional do filme, seus criadores estão otimistas quanto a lançá-lo comercialmente nos cinemas.

“Existe uma ideia infundada de que os cinemas multiplex não beneficiam produções pequenas”, disse Bora. “Se seu filme é bom o suficiente e vem atraindo plateias, os horários em que é exibido pelos cinemas acabam melhorando. A partir do momento que os cinemas reabrirem, vamos lançar Sir com força total”, ele disse, acrescentando que o filme provavelmente sairá em dezembro. “Se forem implementadas precauções como as que o setor da aviação civil vem adotando, acho que as pessoas se sentirão seguras para ir ao cinema.”

Mas há outra dificuldade que os cinemas provavelmente vão enfrentar antes de ser apresentado um cronograma de lançamentos: que filmes eles vão exibir até os produtores finalmente sentirem confiança suficiente para lançar seus novos títulos?

Várias pessoas do setor de entretenimento com quem o HuffPost Índia conversou disseram que os cinemas talvez relancem obras populares de Hollywood, filmes regionais, filmes dublados e títulos clássicos, tudo no intuito de atrair o público de volta aos cinemas enquanto a indústria do cinema em hindi organiza seu calendário de lançamentos.

Você acha que o fato de ter deixado de ir por 6 meses vai mudar o que ela vem fazendo há décadas? De maneira alguma.Komal Nahta, analista

“Houve um filme falado em gujarati intitulado Hellaro que exibimos uma vez e que deu resultado muito bom”, disse Manoj Desai, dono dos cinemas Gaiety-Galaxy, em Mumbai.

“Talvez optemos por filmes regionais outra vez. Mas minha preocupação maior é que ainda não sei quando vou poder abrir meu cinema de fato. Será que alguém vai comparecer? Francamente, não sei, e já parei até de pensar nisso”, ele disse, em voz exasperada. “A gente lê uma circular pela manhã e à noite já saiu outra dizendo o contrário.”

“Todos meus planos foram para o espaço. Meus cinemas estão vazios. Nem sequer pensei na logística que será necessária para implementar a regra de só 50% da capacidade máxima”, disse Desai, que também administra o cinema Maratha Mandir.

Segundo reportagem da The Quint, quase 100 cinemas de tela única provavelmente vão fechar as portas definitivamente devido aos prejuízos que sofreram com a pandemia. “Se não acontecer um milagre, esse número pode subir ainda mais”, afirmou Nitin Dattar, presidente da Associação de Proprietários de Cinema de Mumbai. “Enviamos uma petição ao ministro chefe de Maharashtra, com cópia para o primeiro-ministro da Índia, mas ainda não tivemos resposta.”

Komal Nahta, o analista, comentou que embora a situação atual pareça sombria, especialmente para os cinemas de tela única e propriedade familiar, ele tem esperanças de que o ramo se recupere, destacando que o público indiano aprecia a experiência de assistir a filmes em um cinema, na companhia de outras pessoas, e que uma lacuna de seis meses não vai jogar essa tradição por terra.

“A pessoa vai ao cinema normalmente há 20, 25 anos. Você acha que o fato de ter deixado de ir por 6 meses vai mudar o que ela vem fazendo há décadas? De maneira alguma. O prazer de assistir a um filme ao lado de pessoas que você não conhece e que não voltará a rever é uma coisa ímpar. A experiência de ir ao cinema é uma coisa insubstituível e que vai sobreviver a esta pandemia”, conclui.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Índia e traduzido do inglês.

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