ENTRETENIMENTO
23/08/2020 13:24 -03 | Atualizado 23/08/2020 14:45 -03

Anúncio de festival alimenta discussão sobre reabertura das salas de cinema na pandemia

Conversamos com exibidores e infectologistas sobre o retorno dos cinemas; Principais discordâncias entre empresários e autoridades são sobre bilheteria e consumo de alimentos.

Na última terça (18), o empresário e jornalista Érico Borgo anunciou, com empolgação, nas redes sociais o “Festival De Volta Para o Cinema”, do qual é idealizador. O “maior festival de cinema que o Brasil já viu”, como ele mesmo definiu, no entanto, foi recebido com uma enxurrada de críticas. Não só pela programação de filmes antigos ou pelo preço de ingressos, mas principalmente por ocorrer enquanto a pandemia do novo coronavírus ainda assola duramente o País, com registros de milhares de mortes a cada semana.

Na contramão de todos os tradicionais festivais de cinema do Brasil e do mundo, que optaram por edições virtuais, com exibição de filmes online, este promete exibir cerca de 25 filmes em 1.200 salas espalhadas pelo País a partir de 3 de setembro. O problema é que a única capital brasileira que já liberou a abertura das salas de cinema é Manaus. Ou seja: até agora, no dia prometido para seu início, garantidas mesmo estão apenas as exibições na capital do Amazonas.

Exibidores, distribuidores, produtores e parceiros da indústria do audiovisual se juntaram no início de julho para lançar uma campanha pela reabertura das salas de cinema no Brasil. De lá para cá, a campanha #JuntosPeloCinema foi se intensificando até o anúncio do festival.

“Estou há quatro, cinco meses liderando esse grupo. Nossas prioridades são responsabilidade, responsabilidade e responsabilidade”, diz Paulo Celso Lui, presidente do Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas no Estado de São Paulo (Seecesp) e um dos representantes do movimento #JuntosPeloCinema. “Participei de conversas com diversos governos de estados diferentes e esperamos uma abertura entre 27 de agosto e 10 de setembro. Na minha opinião pessoal, acho que, entre final de setembro e começo de outubro, teremos todas as 3.600 salas no Brasil liberadas.”

Mas, afinal, é seguro abrir os cinemas agora? 

André Sturm, diretor-executivo e programador do Petra Belas Artes que pretendia abrir a sala paulistana no dia 8 de agosto, mas recuou com o veto da prefeitura de São Paulo, argumenta que “todos os setores da economia já abriram”.

“Até academia de ginástica. Manicure, bar, restaurante, feira, igreja... Tudo já está aberto. A única coisa que ainda está fechada é a cultura. Poderíamos entrar em um debate do que já poderia ou não estar aberto por conta do risco de transmissão do vírus. Esse é um debate”, diz. “Mas, agora, se todos os outros setores da economia abriram, se o comitê sobre covid-19 do governo do Estado, que tem 19 epidemiologistas, concluiu que seguindo um protocolo rigoroso, os cinemas e teatros poderiam reabrir, cabe a nós abrir.”  

No supermercado, você fica pegando as coisas para escolher. Quantas pessoas colocaram as mãos naquele produtos? Você tem contato muito próximo com os funcionários. Outros clientes trombam com você, espirram do seu lado... O cinema não tem nada dissoAndré Sturm, diretor-executivo e programador do Petra Belas Artes

O presidente do sindicato diz que ter enviado às autoridades várias informações sobre experiências no exterior. “Analisamos protocolos da França, Índia, Espanha, México, Estados Unidos... Compilamos essas informações, explicamos às autoridades qual é a jornada do espectador dentro do cinema, desde o momento em que ele chega na bilheteria, compra seu ingresso, pega sua pipoca até entrar na sala e como se comporta dentro dela.”

Tanto ele quanto Sturm dizem que a sala de cinema é um ambiente mais seguro do que muitos outros estabelecimentos comerciais já em atividade e gostam de fazer comparações, principalmente com supermercados.

“No supermercado, você fica pegando as coisas para escolher, seja para ver o vencimento de um produto ou para escolher frutas e legumes. Quantas pessoas colocaram as mãos naquele produtos? Você tem contato muito próximo com os funcionários. Outros clientes trombam com você, espirram do seu lado... O cinema não tem nada disso”, diz Sturm.

A opinião dos especialistas

A reabertura das salas gera debate até entre infectologistas. Enquanto Jamal Suleiman, infectologista do Instituto Emílio Ribas, de São Paulo, vê a liberação das salas de cinema com mais otimismo, o também infectologista e diretor do Hospital Santa Clara, também na capital paulista, Paulo Rezende, tem mais ressalvas: “A flexibilização como um todo, principalmente nessa área de lazer, é bem preocupante”.

Ambos, porém, concordam que seguir protocolos rígidos de higiene e distanciamento social são fundamentais para a segurança de qualquer estabelecimento no período da pandemia. Seja ele um supermercado ou uma sala de cinema.

“Em um primeiro momento, nós não tínhamos nenhuma informação sobre o vírus e como ele era transmitido. Hoje temos várias informações. A taxa de transmissão em um primeiro momento era de um para três, quatro. Chegou até a sete. Ou seja, cada 100 pessoas contaminavam 700”, contextualiza Suleiman.

“Quando as pessoas passaram a usar máscara, ou seja, criando métodos de barreira para a transmissão, você reduziu a capacidade das pessoas infectarem outros indivíduos. Além disso, elas passaram a lavar as mãos com mais frequência, usar álcool em gel... Você tem alguns protocolos que são capazes de minimizar a transmissibilidade. Se você oferece esse ‘pacote’, dá para flexibilizar. Não há muito problema nisso. É uma atividade como outra qualquer.”

No caso das salas de cinema, há uma questão – muito abordada nos tuítes criticando o Festival “De Volta Para o Cinema”, inclusive: o ar-condicionado. A circulação de ar em um ambiente fechado não seria um ambiente perfeito para a disseminação do vírus?

Lui chama esse problema de “mito”. “As salas de cinema são obrigadas por lei a ter um PMOC, o plano de manutenção, operação e controle. É um laudo que as empresas que fazem manutenção de ar-condicionado te dão para você apresentar a qualquer momento a uma agência fiscalizadora, como a vigilância sanitária, por exemplo. Isso já era norma. O ar-condicionado das salas de cinema tem renovação de ar automática.”

Segundo Lui, a máquina “pega o ar externo, fresco, ‘chupa’ esse ar, filtra e joga o ar para a sala; o ar gelado desce, enquanto o ar mais quente é logo chupado por grelhas que ficam no teto da sala que são chamadas de retorno”. “Elas funcionam como exaustores. A renovação desse ar é obrigatória e acontece em um intervalo de acordo com o tamanho da sala. Isso está em lei. É um mito que o ar dentro da sala de cinema é ‘viciado’. O ar em uma sala de cinema não para de circular. É como em um avião ou um hospital”, diz.

Suleiman ressalta que a filtragem do ar é “essencial”. “Se não há circulação constante desse ar, a capacidade da sala tem de ser muito reduzida. A menor ocupação da sala, garantindo distanciamento de mais de 1,5 metro, 2, 3 metros ou mais é uma questão até mais importante que a do ar-condicionado, mas a manutenção da filtragem e renovação do ar tem de ser constante”, explica o infectologista.

“E todo mundo tem de usar máscara, claro. Não é apenas uma ação que vai garantir mais segurança, mas um conjunto de ações. A soma delas vai minimizar o contágio”, completa Suleiman.

Segundo Paulo Rezende, o ideal seria que o público tivesse à disposição duas máscaras, para trocar durante a sessão. “As máscaras caseiras são eficientes em um intervalo de cerca de duas horas. Passando disso elas vão perdendo sua eficácia.” 

Ingresso na bilheteria? Pipoca para acompanhar? 

NurPhoto via Getty Images
Sessão de cinema em sala reaberta na Cidade do México.

Em se tratando de distanciamento social e normas de higiene, não há muitas discrepâncias entre os protocolos de segurança organizados pelos governos estaduais e os exibidores, mas duas questões abalaram essa relação. Uma delas é a proibição da compra de ingressos na bilheteria e a outra é o consumo de alimentos dentro das salas.

“92% dos ingressos vendidos nos cinemas do Brasil no ano passado foram na bilheteria. Muita gente não tem cartão de crédito ou faz compra pela internet. O cinema, em particular, é uma decisão de momento. As pessoas muitas vezes escolhem o filme que vão ver na bilheteria”, diz Sturm.

Mas tanto ele quanto Lui dizem que estão chegando em um entendimento com os órgãos públicos. “Nós mandamos várias informações que tínhamos do exterior – alguns associados, como Cinemark, Cinépolis e UCI atuam no mundo todo. Analisamos protocolos da França, Índia, Espanha, México, Estados Unidos... Compilamos essas informações e acho que vamos chegar a um consenso em relação a isso”.

Mas o fator ingresso abre uma outra questão, apontada por Suleiman e Rezende como crucial: o distanciamento social. Segundo Lui, nesse caso, o problema é facilmente resolvido com a automatização do processo da compra do ingresso, sendo ele via internet ou bilheteria.

“Quando a pessoa comprar o ingresso para uma cadeira x, o sistema automaticamente retira dois assentos à direita e dois à esquerda e, se precisar, por conta da distância entre fileiras da sala, também as cadeiras à frente e atrás. Em São Paulo, por exemplo, todas as salas privadas têm sistema de venda de ingresso automatizada. É uma garantia de que haverá distanciamento entre os assentos. 

No entanto, quando a discussão entra na seara do consumo de alimentos, a discordância entre as partes se acirram. Os protocolos organizados pelos exibidores contemplam o consumo dentro das salas, o que é proibido nas regras impostas por alguns governos. No caso do paulista, por exemplo. Um ponto delicadíssimo crucial para o sucesso da reabertura.

Não há dúvida de que a retirada da máscara aumenta o risco de disseminação de partículas dentro de uma sala. É claro que a pipoca é uma grande fonte de renda para as salas de cinema, mas não faz sentido liberar o consumo de alimentos dentro da salaJamal Suleiman, infectologista do Instituto Emílio Ribas

Suleiman é categórico: “Não há dúvida de que a retirada da máscara aumenta o risco de disseminação de partículas dentro de uma sala. É claro que a pipoca é uma grande fonte de renda para as salas de cinema, mas não faz sentido liberar o consumo de alimentos dentro da sala. Isso faz com que os exibidores percam credibilidade. Qual é a parte sobre transmissão do vírus eles não entenderam?”

“A epidemia continua. Ela não foi embora. Ela não acabou. Ela está aí e a forma de nos adaptar a esse momento de transição é respeitando as normais de higiene e distanciamento social. Tirou a máscara da equação, o risco aumenta muito. O perigo começa aí”, diz o infectologista.

No entanto, tanto Lui quanto Sturm concordam que vão abrir suas salas de acordo com o que for determinado pelo governo de seu estado, independentemente se concordam ou não com todos os pontos do protocolo oficial.

Mas e a demanda?

Entre tantos estabelecimentos comerciais que já reabriram durante a pandemia, muitos apontaram uma frequência tão baixa de clientes, que alguns empresários preferiram fechar as portas, mesmo autorizados a funcionar.

Os defensores do retorno dos cinemas dizem que essa não é uma questão crucial para a reabertura das salas. “Nesse primeiro momento não visamos o lucro. Nós só queremos trabalhar. Muitas famílias dependem dos empregos gerados pelas salas de cinema. Nosso setor não demitiu praticamente ninguém, mas se demorarmos mais um, dois, três meses para abrir, terá demissão em massa. Salas vão fechar... Principalmente no interior”, diz Lui.

Segundo o presidente do sindicato, “todas as experiências no exterior mostram que a abertura tem um público muito baixo, que cresce ao longo das semanas”. “Mas precisamos abrir. Nós sabemos que em setembro, outubro, novembro, talvez poderemos pagar as contas e olhe lá, mas precisamos abrir”, afirma Lui, que conta que o preço dos ingressos não deve ser alterado em relação aos praticados antes da pandemia para “não contribuir com a aglomeração de pessoas”.

“Eu acho que o movimento não será tão fraco assim. Tem muita gente que está ansiosa para voltar a frequentar atividades culturais. Existe um grupo de pessoas que está em pânico, mas há também um grupo de pessoas que está a fim, mas receoso – e esse é maior –, e aqueles que estão a fim mesmo. Esses vão ao cinema assim que as salas abrirem. Os que estão a fim, mas ‘veja bem’, esses vão a partir da segunda, terceira ou quarta semana”, diz Sturm.

Entre o público ávido para o retorno das salas está até o infectologista Jamal Suleiman, que se diz um fã das telonas. Mas ele avisa: “Eu também estou morrendo de saudade de ir ao cinema. Mas é melhor morrer de saudade do que morrer de covid-19. Saudade a gente resolve. Covid-19, nem sempre.”