OPINIÃO
24/07/2019 09:21 -03 | Atualizado 24/07/2019 09:21 -03

Mãe que fez campanha por cinema acessível aos surdos conquista vitória

Pela primeira vez, Carolina desfrutou de sessão ao lado das filhas ouvintes. Mobilização online foi vitoriosa com mais de 152 mil assinaturas.

Yahisbel Adames/Change.org
Isabella (esq.) comemorou em família seu aniversário de 10 anos assistindo ao novo filme da Turma da Mônica.

Isabella Correia comemorou seu 10º aniversário em uma sessão de cinema ao lado dos pais. O que para muitos é um típico programa em família, para a criança teve um significado todo especial. Pela primeira vez, a menina pôde trocar olhares e risadas com a mãe Carolina e o pai Gutemberg, enquanto assistia a um lançamento de filme nacional. Os pais de Isabella nasceram surdos e até então nunca tinham desfrutado com as filhas de uma sessão de cinema que contasse com equipamentos de acessibilidade aos deficientes auditivos. 

O sonho de Isabella foi realizado no dia do seu aniversário, 27 de junho, mesma data em que o filme Turma da Mônica: Laços estreou nos cinemas. Para que fosse possível, o programa em família contou com o apoio de uma campanha online que requisitou à produção do longa e às redes de cinema a disponibilização de recursos de acessibilidade.

A mobilização, aberta por Carolina na plataforma Change.org, coletou 152,3 mil assinaturas pedindo a inclusão de legendas ou Libras (Língua Brasileira de Sinais) no longa infantil.  

“A Isabella ficou feliz de assistir ao filme junto com a família”, conta Carolina, que mora no Rio de Janeiro e trabalha como analista de sistemas. “A experiência foi maravilhosa porque a causa impacta a comunidade surda e as pessoas com perda auditiva”, explica Carol, que começou reunir as milhares de assinaturas mais de dois meses antes da estreia do filme nas telonas.

O presente de aniversário que a analista proporcionou à filha teve um significado especial também para ela. Quando criança, Carolina aprendeu a ler e a escrever com os gibis criados por Mauricio de Sousa. 

“Tinha 9 ou 10 anos, estudava numa classe especial, aprendia sobre língua portuguesa, mas não entendia o significado das palavras por causa da surdez. Fui na casa de uma amiga, peguei emprestado um monte de gibis e fiquei encantada. Me envolvi demais, pois estava aprendendo o significado das palavras porque as imagens mostravam”, lembra Carolina. A analista e o esposo nasceram surdos porque suas mães contraíram rubéola durante a gestação. A infecção é causada por um vírus e, na gravidez, pode gerar malformações no feto. 

“Eu amei esse momento junto com os meus pais, porque nós nunca tínhamos ido a um cinema juntos. Então, foi muito especial para mim”, comenta Isabella, feliz com a experiência marcante.

Pela primeira vez, a menina pôde sair da sala de cinema compartilhando comentários com os pais sobre o filme que assistiram. “Sem acessibilidade, sem família! Isso toca o sentimento dos pais surdos que têm filhos ouvintes”, destaca Carolina.

Yahisbel Adames/Change.org
Carolina e amigos testam pela segunda vez recursos de acessibilidade dos cinemas

Saga pela garantia de um direito 

Apesar de ser um direito, o acesso a atividades culturais, como o cinema, ainda é uma batalha para as pessoas com deficiência. A analista conta que antes dessa experiência de inclusão, só havia assistido a filmes nacionais com legendas descritivas em um centro cultural do Rio de Janeiro. As sessões acessíveis, entretanto, eram colocadas sempre nos últimos horários — fora da programação familiar — e ainda de filmes com lançamento já ultrapassado.

Além de o pleno exercício aos direitos culturais ser garantido pelo artigo 215 da Constituição Federal, o Brasil ainda conta com uma lei nacional (10.098/2000) que determina a adoção de técnicas de linguagem de sinais ou outra subtitulação por parte dos serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens. O Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) também prevê a igualdade de oportunidades à pessoa com deficiência no acesso a programas de televisão, cinema, teatro e outras atividades culturais e desportivas. 

A Ancine (Agência Nacional do Cinema) também possui uma instrução normativa que trata da obrigatoriedade de disponibilização de recursos de acessibilidade visual e auditiva nas salas comerciais de cinema.

As duas redes de cinema cobradas por Carolina no abaixo-assinado — Cinermark e UCI Cinemas — responderam que estão investindo na compra dos equipamentos de acessibilidade e se adequando à regulamentação dentro do prazo estipulado pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, que termina em janeiro do ano que vem. 

Carolina teve oportunidade de testar os equipamentos das duas redes, que ofereceram convites para que ela fosse às sessões. O segundo teste aconteceu na última quinta-feira (18), quando mais uma vez ela assistiu a Laços. “Foi um prazer experimentar o equipamento de acessibilidade. É um primeiro passo de experiência para mim e a comunidade surda”, comenta.

Capaz de proporcionar momentos únicos para famílias que têm integrantes surdos ou cegos, o aparelho possui uma tela um pouco maior que um celular, que oferece três opções de acessibilidade: Libras, com intérprete virtual ou humano; audiodescrição (para os portadores de deficiência visual); e legendas descritivas. O equipamento é de uso individual e entregue à pessoa com deficiência antes da sessão. 

“O ponto negativo é o intérprete virtual porque não tem expressão facial. O humano é bom, mas não interpreta os sons no fundo”, explica Carolina. Ainda segundo a analista, o ideal seria legenda ou uma janela com intérprete diretamente no telão, para todos. Apesar das ponderações, a analista explica que novos estudos estão sendo feitos para melhorias. 

A mobilização

 “A conquista foi significativa para todos, porque agora os pais surdos podem ter acesso às programações familiares como os outros. Isso é um começo, acredito que a acessibilidade traz mais respeito para todos”, comenta Carolina sobre a vitória conquistada.

Na página do abaixo-assinado criado pela analista é possível conferir uma lista com as salas de cinema que contam com os aparelhos de acessibilidade. A quantidade de equipamentos é limitada, por isso é recomendável consultar a disponibilidade de cada cinema. 

A Change.org também hospeda outra petição, aberta por um deficiente visual, que pede o cumprimento da lei de inclusão para acessibilidade nos cinemas. O abaixo-assinado já acumula mais de 302 mil apoiadores.