ENTRETENIMENTO
06/04/2019 01:20 -03

A saga de 'Cine Holliúdy 2' e seu diretor, o cabra matador de blockbusters

"Ser herói no Brasil é lidar com as dificuldades com criatividade, não usar cueca por cima da calça", diz o cineasta Halder Gomes.

Ethi Arcanjo/Arquivo Halder Gomes
Do sertão do Ceará para Los Angeles, a trajetória do cineasta Halder Gomes é tão surpreendente quanto o sucesso de seus filmes.

Pode parecer algo fora da curva, mas o fato de a comédiaCine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral superar em público o mega blockbuster Capitã Marvel no Ceará não é uma novidade na sui generis carreira de Halder Gomes. “Chibata nela! EDumbo tá levando chibata todo dia também”, brinca o diretor cearense, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Só para se ter uma ideia, a sequência de Cine Holliúdy (2012), que estreou nesta semana em salas do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Manaus, foi lançada na semana anterior em 89 telas na região Nordeste e fez quase 50% das bilheterias cearenses. Somou mais de 50 mil espectadores no estado, comendo o filme da super-heroína da Marvel com farofa.

Divulgação
Cena da comédia em "cearês" Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral.

Derrotar gigantes de Hollywood é algo que faz parte da trajetória desse cineasta, que é tão surpreendente quanto o estrondoso sucesso de seus filmes no estado dele. O curta que deu origem aos longas, Cine Holiúdy: O Astista Contra o Cabra do Mal (2004), já fez seu barulho, vencendo prêmios em festivais e entrando de bicão em uma festa para a qual não tinha sido convidado.

“Distribuí cópias do filme em locadoras de Fortaleza e ele saia mais que Matrix [Revolutions, o último filme da trilogia Matrix]. Foi tudo no boca a boca, porque a internet na época não era como hoje e não existiam smartphones ou redes sociais”, conta Gomes.

Quando era criança, no interior do Ceará, na década de 1970, o diretor foi a um cinema bem ao estilo Cine Holliúdy e viu um filme estrelado por Bruce Lee. Foi a partir daquele momento que ele conheceu duas grandes paixões que conduziriam sua trajetória de vida: o cinema e as artes marciais.

Felipe Costa/Arquivo Halder Gomes
O cinema levou Halder Gomes às artes marciais e as artes marciais o levaram ao cinema.

Já adolescente, nos anos 1980, ele participou de um programa de intercâmbio estudantil que o levou para os Estados Unidos. Lá conheceu o taekwondo e foi amor à primeira vista. Tornou-se atleta e treinador. De volta ao Brasil, chegou até abrir uma academia em Fortaleza. E foi com essa experiência nos tatames que voltou aos EUA, já em 1992, para ser um dublê de artes marciais em Hollywood.

“Comecei a trabalhar de stunt fighter em Los Angeles e esse convívio com diretores, equipe técnica e atores foi o gatilho para que eu mesmo começasse a dirigir. Isso e minha formação em administração de empresas e marketing, que me ajudou demais a controlar todo o processo. Daí fiz o curta do Cine, um filme de luta em co-produção Brasil/EUA [Sunland Heat, de 2004] e um filme de terror [The Morgue, de 2008] para o mercado de vídeo.”

De volta a Fortaleza, Gomes penou para concretizar seu projeto dos sonhos, mas acreditava em seu produto: “O Cine era um projeto muito fora da curva. Uma linguagem que o mercado não entendia. Consegui incentivo por meio de um edital apenas na quinta tentativa. Mas eu tinha muita fé no projeto’, conta.

“O Brasil tem uma reserva de mercado que se conecta com esse sentimento de pertencimento. O heroísmo aqui é lidar com os obstáculos do dia a dia com criatividade, não usar cueca por cima da calça. É até uma resistência inconsciente ao bombardeio cultural de filmes estrangeiros a que somos submetidos”, completa.

A questão do “cearês”

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O sotaque é tão carregado e fundamental para a alma dos filmes de Halder Gomes que eles são legendados em português.

O “cearês” dos Cine Holliúdy e O Shaolin do Sertão (2016) - que funciona como um dos capítulos de uma trilogia - é tão forte que as produções possuem legendas em português. Essa força regional não seria uma faca de dois gumes?

O cineasta acha que não. “As legendas fazem até parte da brincadeira. Não foi algo intencional. Quando mostrei Cine Holliúdy para o Bruno Wainer, o distribuidor do filme, ele disse: ‘Gostei muito, mas não entendi nada’”, recorda o diretor. “Legendei a fala de umas crianças que eram realmente difíceis de compreender para quem não era cearense. Ele gostou tanto que pediu para que eu legendasse o filme todo. E ficou muito bom. É muito interessante, porque nos faz perceber a dimensão continental que tem o Brasil”, analisa. 

“Mas o fator regional de Cine é universal. Você não imagina que pessoas de outra realidade vão se conectar com o filme, mas se conectam. Por onde eu mostro ele, de Los Angeles a Banguecoque, o filme é muito bem recebido. Em Lyon [França], por exemplo, o público não parava de rir”, recorda Gomes.

 

Um caldeirão de referências

Ethi Arcanjo/Arquivo Halder Gomes
Tarantino do sertão?

É evidente que as artes marciais são um elemento fundamental na vida e no cinema de Gomes, mas Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral mistura diversos outros gêneros, como a ficção científica, o faroeste, o cangaço, a comédia de costumes… Um caldeirão de influências cinematográficas das décadas de 1970 e 80. Um recorte curiosamente parecido com o período que mais influenciou a obra de Quentin Tarantino.

“Ele [Tarantino] é um rato de locadora como eu. Nisso nós somos parecidos. Temos gostos semelhantes, mas no Cine eu faço referência a muitas outras coisas além do cinema. Ao barroco holandês, ao renascimento italiano… E o sertão cearense tem muita ligação com esse aspecto da ficção científica. Quixada é a nossa Roswell [cidade do Novo México, nos EUA, que foi palco de um caso de avistamento de OVNIs referência na ufologia]. Cine é um filme popular, mas ele possui várias camadas”, explica o cineasta.

Tarantinos à parte, quem faz uma “participação especial” em Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral é Steven Spielberg. “Pois é, a brincadeira que faço com o Spielberg é muito mais uma referência ao Orson Welles”, explica o diretor.

“Quando ele veio ao Brasil na década de 1940 para filmar o carnaval carioca, acabou vendo uma reportagem no New York Times sobre jangadeiros que foram de Fortaleza para o Rio de jangada para reivindicar direitos trabalhistas ao presidente. Ele ficou fascinado com a história e passou 6 semanas filmando no Ceará o documentário It’s All True, que acabou sendo lançado muitas décadas depois. Mas como aquele jornal foi parar na mão dele? Quem levou? É com essa questão que me intriga que eu brinco usando o Spielberg, que supostamente teria se inspirado em A Chibata Sideral para fazer E.T. - O Extraterrestre.”

O Francisgleydisson da vida real e os limites do humor

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Edmilson Filho como Francisgleydisson, o sonhador protagonista dos dois Cine Holliúdy.

No entanto, mesmo com tantas referências e influências, quem melhor traduz a figura de Gomes e seu cinema é Francisgleydisson, o protagonista da saga Cine Holliúdy. “Eu sou um Francisgleydisson. Tenho que matar um leão por dia para provar que meus filmes podem concorrer com os gigantes. No Ceará eles têm uma aceitação natural, mas é difícil convencer os exibidores de outras praças, mesmo com os resultados positivos de bilheteria”, revela o diretor.

“Batemos blockbusters americanos com orçamentos astronômicos e mesmo assim tenho que me provar. Eu bato o escanteio e tenho que ir para área cabecear a bola contra zagueiros de 2 metros de altura”, desabafa.

Mesmo assim, há um aspecto do filme que pode também influenciar em sua aceitação em outros estados brasileiros: o humor desbocado e muitas vezes politicamente incorreto.

“O povo do Ceará é assim mesmo, cumprimenta o amigo chamando ele de corno. Nossa história é muito sofrida. O cearense ri para não chorar. É claro que há piadas ruins, mas no interior do Ceará em 1980 não existia essa noção do politicamente correto. Seria até incorreto de minha parte retratar uma época e local de uma forma distorcida. Essa molecagem é natural do cearense, e o público, mesmo fora do Ceará, compreende isso”, conclui Gomes.