OPINIÃO
08/05/2019 06:00 -03 | Atualizado 08/05/2019 06:00 -03

A ciência brasileira está com a corda no pescoço. E daí?

Esse momento quase-apocalíptico em que vivemos, no qual o conhecimento científico é questionado e o dinheiro para produzi-lo é reduzido pela metade, talvez seja a melhor hora para refletir: será que a gente precisa de tanto dinheiro assim para a Ciência?

ASSOCIATED PRESS
Jair Bolsonaro e o ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes. Ao fundo, o ministro da Economia, Paulo Guedes.

2019 tem sido um ano de muitos questionamentos. A maioria deles um tanto... questionáveis, para falar a verdade. Temos, por exemplo, o famoso negacionismo climático, que nega a existência do aquecimento global. Igualmente duvidoso é o Movimento da Terra Plana, que acredita que o planeta Terra tem o formato de um disco (enquanto curiosamente, outros planetas como Marte continuam sendo redondos). Há também uma onda crescente de pais e mães que não acreditam que vacinas funcionam — nisso acabam causando a volta de doenças que já haviam sido erradicadas, como o sarampo e a poliomielite. Temos também o revisionismo histórico, como a ideia de que não existiu ditadura militar, apenas um regime com “alguns probleminhas”.

Em um cenário assim sombrio, uma notícia como “A ciência brasileira perderá 42% do seu orçamento em 2019” não parece nada surpreendente e quase passa batida. Em abril, o ministro Marcos Pontes, de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações afirmou que os novos cortes vão deixar o ministério “com a corda no pescoço”, congelando investimentos em áreas fundamentais para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.

Infelizmente, não há nada de novo no front: o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) tem precisado da verba de 2019 para fechar as contas de 2018, e já se sabe que o dinheiro para pesquisa científica no Brasil acaba em julho. Fora isso, temos museus alagados, outros museus pegando fogo… Enfim, não é um bom dia para ser cientista no Brasil.

Esse momento quase-apocalíptico em que vivemos, no qual o conhecimento científico é questionado e o dinheiro para produzi-lo é reduzido pela metade, talvez seja a melhor hora para refletir: será que a gente precisa de tanto dinheiro assim para a Ciência? Afinal, depois desses cortes, o orçamento do MCTIC ainda estará em torno de R$ 3 bilhões.Não tá bom? E para ser ainda mais contundente, por que é que o Brasil precisa tanto investir em ciência e tecnologia?

Para responder a essa pergunta, é melhor tirar o cientista da equação por um instante. Claro, um Brasil sem bolsas de estudo e pesquisa se torna um país mais elitista, uma vez que as únicas pessoas capazes de fazer pesquisa em tempo integral passam a ser aquelas que não precisam trabalhar para se sustentar. Mas sendo bem sincero — e aqui eu falo como cientista que já usufruiu dessas bolsas — o dia a dia dos cientistas é o que menos importa nessa história.

O que importa mesmo é quem vai produzir a vacina para zika, dengue, ou febre amarela, doenças totalmente negligenciadas fora dos trópicos. Importa quem vai segurar as pontas da agricultura brasileira. Estou falando de trigo, arroz, café etc. As safras dos últimos anos estão sendo ameaçadas por novas pragas, insetos invasores e (sim!) mudanças climáticas. Sem ciência para responder a essas novas ameaças, a comida no prato de 210 milhões de brasileiros pode ficar muito mais cara. Sem falar no provável aumento das taxas de desemprego: o Censo Agropecuário de 2017 estima que 15 milhões de brasileiros trabalham com agropecuária. Com menos dinheiro destinado à ciência do Brasil, é difícil prever quantos desses empregos se manteriam.

Vale lembrar que sem investimento o preço dos remédios pode subir, e algumas doenças podem voltar — note-se que aí estamos falando de doenças humanas, veterinárias, agrícolas e também de pragas silvestres.

Enquanto isso, as doenças crônicas que já nos afetam, como câncer, mal de Alzheimer e mal de Parkinson, vão ficar mais difíceis de tratar se o País parar de desenvolver pesquisas a respeito. Nesse aspecto, nós ficaríamos na mão de outros países, torcendo para que eles desenvolvessem as soluções para os nossos problemas e que as vendessem a um preço acessível.

Por fim, ainda que no cenário mais otimista possível (o que, convenhamos, não parece muito provável) o Brasil conseguisse se virar sem investir um tostão em ciência, importando quase toda a sua tecnologia, nos resta um problema muito mais delicado: no século 21, usar a tecnologia dos outros significa ter seus dados na mão dos outros.

E por “dados” aqui eu quero dizer que um outro país pode ter informações pessoais sobre quem você é, onde você mora, ou como você usa o seu cartão de crédito. Para o Brasil, os “outros” neste momento são os EUA, Israel e China. Este último talvez seja o mais perigoso neste aspecto, dado o recente histórico chinês de espionagem política por meio de dispositivos tecnológicos, o que pôs em risco a autonomia de dezenas de nações africanas. Se não investirmos na nossa própria ciência e tecnologia, o Brasil pode ser a próxima vítima. E se isso acontecer, os seus dados vão parar na mão de quem pagar mais — suas fotos, suas mensagens, tudo. E você não vai poder fazer nada a respeito.

2019 vai continuar sendo um ano de muitos questionamentos questionáveis. Mas um corte no orçamento como da Ciência brasileira pode acabar custando muito mais do que gente é capaz de questionar.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.