Por toda a cidade, meios-fios de ruas que podem ser atingidas por mar de lama foram pintados de laranja.
Avener Prado/ Especial para o HuffPost
Por toda a cidade, meios-fios de ruas que podem ser atingidas por mar de lama foram pintados de laranja.
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25/05/2019 08:38 -03 | Atualizado 31/05/2019 14:17 -03

Cidade marcada para morrer

Barão de Cocais sinalizou de laranja ruas que podem ser devastadas por lama de barragem da Vale

O laranja, presente em quase toda a área central de Barão de Cocais, em Minas Gerais, parece ser a cor adotada pela cidade para decorar o meio-fio.

No entanto, a pintura indica o perigo, e demarca toda a região que poderá ser devastada por um mar de lama caso rompa a barragem de rejeitos de minério Sul Superior, parte da mina Gongo Soco, da Vale.

O temor ronda os moradores da pequena cidade a 80 km de Belo Horizonte desde o início de fevereiro, duas semanas após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, que deixou 241 mortos e 29 desaparecidos. Mas se intensificou nos últimos dias.

Nesta semana, a revelação de que um talude que escora a mina da Vale está se movendo e pode cair sobre a cava da mina Gongo Soco - o que poderia levar ao rompimento da barragem que fica a 1,5 km do local - gerou ainda mais apreensão e medo entre os cerca de 32 mil habitantes.

Na sexta-feira (24), a Agência Nacional de Mineração (ANM) revelou que, em alguns pontos da estrutura, a movimentação já é de 16 centímetros por dia. 

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Por toda a cidade, meios-fios de ruas que podem ser atingidas por mar de lama foram pintados de laranja.

Em 8 de fevereiro, quando o nível de segurança passou para o nível 3 (o mais alto), cerca de 400 pessoas que viviam na comunidade do Socorro, zona rural próxima à barragem, tiveram que deixar suas casas. O local seria atingido pela lama de rejeitos em apenas 5 minutos.

Agora o drama também atinge em cheio o centro urbano, e mais de 6.000 moradores aguardam o momento de correr para algum dos sete pontos de encontro, que estariam a salvo da lama, indicados pela Defesa Civil.

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Placas sinalizando rotas de fuga para 7 "pontos de encontro", onde pessoas estariam a salvo, foram espalhadas pela cidade.

Carros de som guiados por funcionários da Vale ficam estacionados em pontos estratégicos da cidade 24h por dia esperando o momento de soar o alerta.

A partir do rompimento, todos teriam, teoricamente, cerca de 1h30 para fugir de suas casas até que o mar de lama chegue pelo leito do rio São João, que atravessa Barão de Cocais.

A mancha de inundação, hoje marcada em tinta laranja, atinge bancos, escolas, igrejas, rodoviária, comércios, praças e muitas casas.

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Sylvia Duarte, de 82 anos, acorda no meio da noite com qualquer barulho estranho. Com dificuldades de locomoção, ela prepara sua mudança para a casa de amigas.

Na manhã de quinta-feira (23), Sylvia Duarte, 82, acompanhava o movimento em frente à sua casa, que está na rota da lama. Com as malas prontas e objetos pessoais organizados em caixas e sacolas, ela se emocionou ao falar sobre deixar o local onde morou por tantos anos.

Disse não suportar mais viver o clima de medo, acordar no meio da noite com qualquer barulho estranho e ter sua rotina atravessada pelo anúncio de tragédia. A TV, sua principal fonte de informação sobre o estado da barragem, permanecia ligada durante todo o dia no quarto.

O plano era se mudar para a casa de amigas, em um lugar seguro da cidade, ainda antes do soar das sirenes da Vale. Como Sylvia tem dificuldade de locomoção, cada segundo é valioso.    

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No Santuário de João Batista, principal igreja católica da cidade, a estátua de Cristo, que ficava próxima ao chão, foi suspensa para não ser soterrada pela lama.  

A dinâmica em Barão de Cocais mudou e o medo da destruição está presente não só nas conversas. Todos se organizam como podem para o evento macabro que acreditam que possa ocorrer ainda neste fim de semana.

No Santuário de João Batista, principal igreja católica, a estátua de Cristo, que ficava numa tradicional caixa de vidro rente ao chão, foi retirada e colocada sobre um móvel alto para não ser soterrada pela lama.

“A gente fica sem informação do que está acontecendo. Eu quero sair daqui, mas eles falam para a gente manter a calma. Como ficar calma com isso tudo acontecendo?”, questiona Bruna Natalia Barbosa da Silva, 26, dona de um bar na região da “mancha” - chamada pela Vale de “Zona de Segurança Secundária (ZSS)”. 

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Bruna Natalia da Silva, 26, que é dona de um bar, pediu dinheiro emprestado a um agiota para pagar as dívidas que se acumulam diante da falta de movimento.

Mãe de Valentina, 1, ela tem medo de não ouvir as sirenes de alerta durante a noite. “Eu tomo remédios controlados, então quando eu durmo, apago. Se isso estoura quando eu estiver dormindo?”

Originária de Sete Lagoas, Bruna mudou-se para Barão de Cocais há dois anos na esperança de uma nova vida, mas agora só consegue pensar na lama. 

Para completar, os clientes desapareceram. Sobre o pequeno balcão do bar, ela mostra as contas já atrasadas. Pediu dinheiro emprestado a um agiota para não ter o nome de sua empresa protestado pelas dívidas que se acumulam a cada dia. “Meu aluguel venceu dia dez de fevereiro. Está tudo embananado.”

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Homem percorre de bicicleta ponte sobre o rio São João, também marcada com tinta laranja.

Em notas publicadas nas redes sociais, a prefeitura da cidade informa a população sobre simulados de emergência realizados com as Defesas Civis do estado e local e a Vale. 

O mais recente foi no último sábado (18), quando, segundo a empresa responsável pela barragem, cerca de 1.600 moradores foram conduzidos pelas rotas de fuga até os sete pontos de encontro. O número equivale a apenas 26,75% do público esperado, de acordo com a Vale - que, no entanto, ressaltou, em nota, ter feito já um primeiro simulado em março. 

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Homem caminha por rua de Barão de Cocais que pode ser atingida em caso de rompimento da barragem da Vale.

A prefeitura também diz estar trabalhando para tentar amenizar os transtornos causados pela espera do rompimento da barragem. Na quinta-feira (23), por exemplo, houve uma reunião com gerentes de bancos como Itaú, Caixa Econômica Federal e Bradesco, cujas agências locais foram fechadas temporariamente. 

“O transtorno causado impacta os cidadãos cocaienses e a arrecadação municipal, já tão combalida diante da crise financeira”, diz o comunicado. A prefeitura informou que o Banco do Brasil manterá em funcionamento os caixas eletrônicos e colocará, numa das praças da cidade, uma “carreta itinerante para o atendimento físico”.

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Moradores tentam manter a rotina em meio à ameaça iminente de destruição de parte da cidade. 

Houve também alteração na rota do trem da Vale que faz o trajeto entre Belo Horizonte e Vitória, no Espírito Santo. Como a linha férrea passa ao lado da mina Gongo Sonco, os passageiros agora têm que percorrer parte do trajeto de ônibus. A manobra visa reduzir a trepidação nas proximidades da estrutura já abalada.

O trecho da ferrovia fechado vai de Belo Horizonte a Barão de Cocais, o que fez com que o tempo de viagem praticamente dobrasse entre as duas cidades. Os passageiros que vão de ônibus até Barão, pegam então o trem na estação da cidade rumo a Vitória.

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Passageiros fazem baldeação com ônibus por causa de interrupção de trecho da ferrovia que passa ao lado da barragem.

Para o casal José Carlos de Paula, 29 e Renata Aparecida Coelho de Paula, 26, o pesadelo já dura desde fevereiro. 

Moradores da comunidade do Socorro, eles tiveram que deixar a casa recém-construída pela família pela ameaça iminente da barragem - para a qual tinham se mudado havia cerca de dois meses.

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José Carlos de Paula, de 29 anos, e Renata Aparecida Coelho de Paula, de 26, foram obrigados a deixar a casa recém-construída no bairro do Socorro, onde a lama pode chegar 5 minutos após o rompimento da barragem.

O último casamento na igreja Nossa Senhora Mãe Augusta do Socorro, construída em 1737 (a mais antiga do município), em 15 de dezembro, foi do casal.

“A esperança é voltar pra casa. O prazo dado pela Vale é de quatro a cinco anos”, diz José Carlos, que conta ter vivido sempre “na roça”.

Ele e a mulher permaneceram por 2 meses em hotel. Hoje moram em Barão de Cocais, numa área fora da “mancha”. “Em momento nenhum eu me senti segura, eu fiquei desesperada”, lembra Renata.

No dia a dia, ela diz sentir falta da vida que tinha na comunidade rural. “É complicado. A gente teve que vir pra cidade e aqui não tem nem um quintal.”

Mesmo em aparente segurança agora, o casal teve que suspender todos os planos - inclusive o de ter filhos. 

 

Entenda o caso de Barão de Cocais

 

Em 8 de fevereiro, duas semanas após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, também em Minas Gerais, cerca de 400 pessoas que moravam em regiões rurais de Barão de Cocais próximas à mina Gongo Soco, da Vale, foram retirados de suas casas após ter sido detectada uma movimentação no talude Norte, na cava da mina, paralisada desde 2016.

 

O temor é que, se parte do talude (que serve como uma parede de contenção) cair sobre a cava, que está cheia de água, isso tenha um impacto sobre a barragem de rejeitos de minério Sul Superior, que fica a 1,5 km de distância e tem capacidade de 6 milhões de metros cúbicos. É o rompimento da barragem que hoje ameaça a cidade de Barão de Cocais. 

 

“Elas [moradores da região rural] foram acolhidas em moradias provisórias alugadas pela Vale, hotéis, pousadas da região e casa de familiares, respeitando a vontade de cada um”, disse a empresa, em nota.

 

Agora o rompimento da barragem ameaça também parte da cidade de Barão de Cocais, afetando diretamente mais de 6.000 pessoas. 

 

O alerta da Vale para esta barragem está no Nível 3, o mais alto. Segundo a empresa, “a cava e a barragem são monitoradas 24h por dia” e “as previsões sobre deslocamento de parte do talude, revistas diariamente”.

 

Junto com a prefeitura, os bombeiros e as Defesas Civis local e estadual, a empresa tem realizado simulados de evacuação e instalou placas indicando rotas de fuga pela cidade, mas moradores ainda reclamam de falta de informações confiáveis. 

Reprodução/ Vale
Infográfico disponível no site da Vale mostra mapa da mina Gongo Seco e da barragem que pode se romper.