OPINIÃO
06/07/2020 16:37 -03 | Atualizado 06/07/2020 16:47 -03

'Cidadão, não. Engenheiro civil, melhor do que você': Assim vamos longe nesta pandemia

Ouvir essas palavras em pleno 2020, 3ª década do século 21, faz arrepiar a espinha. É uma releitura de "você sabe com quem está falando?", pensamento que subsiste na sociedade brasileira.

Reprodução/TV Globo
Casal desrespeita fiscais da Vigilância Sanitária em blitz em bares do Rio de Janeiro.

Não basta ir para a rua sem máscara, violando uma lei estadual, em vigor há mais de um mês.

Não basta fazer aglomeração em bar recém-aberto como parte da flexibilização do isolamento social — um processo para salvar a economia local, a despeito dos números elevadíssimos do novo coronavírus no Rio de Janeiro — mais de 10 mil mortes e 120 mil casos, segundo último balanço do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde).

O casal flagrado pela equipe do Fantástico precisou fazer mais: desrespeitar quem estava trabalhando, em pleno fim de semana, em prol da saúde pública e coletiva.

Na noite do último sábado (4), fiscais da Vigilância Sanitária foram intimidados por frequentadores dos bares que estavam infringindo regras e demonstrando indiferença à pandemia. 

O vídeo pode ser visto neste tuíte:

“Cadê sua trena?”, ironiza o cliente, insinuando que não há como a equipe da Vigilância Sanitária saber se o distanciamento social estava ou não sendo cumprido no bar.

“Tá, cidadão”, respondeu o fiscal.

“Cidadão, não. Engenheiro civil formado. Melhor do que você”, arrematou a cliente.

Ouvir essas palavras em pleno 2020, 3ª década do século 21, faz arrepiar a espinha.

A frase da carioca querendo intimidar é uma releitura de “você sabe com quem está falando?”. O antropólogo Roberto DaMatta fez uma análise do comportamento do brasileiro e a gênese desse tipo de declaração no clássico Carnavais, Malandros e Heróis (Rocco, 1997).

DaMatta lança luz sobre a dificuldade do brasileiro em seguir regras e respeitar leis. Por isso, volta e meia recorre a gambiarras, gatos, atalhos para obter vantagens a si próprio. E muitas vezes usa sua posição para dar a carteirada. 

É uma tristeza saber que décadas se passaram, e esse tipo de pensamento ainda subsiste em parte da sociedade brasileira.

A igualdade é realmente só na teoria para essas pessoas. Afinal, elas são especiais. Não são cidadãos. Mas sim engenheiros formados.

Melhores, talvez se sintam, porque olham apenas para si. Enquanto aqueles que julgam inferiores estão cuidando do outro. Obrigados a trabalhar fora de casa, para evitar a disseminação da covid-19 e zelar pela saúde da população.

Em tempo: a empresa onde a orgulhosa esposa do engenheiro civil formado trabalhava decidiu demiti-la nesta segunda-feira (6).

“A companhia não compactua com qualquer comportamento que coloque em risco a saúde de outras pessoas ou com atitudes que desrespeitem o trabalho e a dignidade de profissionais que atuam na prevenção e no controle da pandemia”, informou a Taesa, companhia do setor elétrico.

Dezenas de milhares de pessoas já curtiram o post no Facebook em que a empresa comunica a demissão

Será que, quando uma intimidação desse nível, com a abordagem mais retrógrada possível, é punida no bolso, as pessoas colocarão a mão na consciência e refletirão sobre suas atitudes?

E repensarão seus atos?

A conferir...