LGBT
26/03/2019 19:57 -03

Os 6 momentos de 'Bohemian Rhapsody' que não serão exibidos na China

Foram censuradas cenas em que o cantor dá um selinho em outro homem e em que a palavra "gay" é mencionada.

Divulgação
"Bohemian Rhapsody", biografia de Freddie Mercury, foi lançado na China na última sexta-feira, mas com censura a trechos.

Bohemian Rhapsodyé o longa metragem que conta parte da história de Freddie Mercury, vocalista da banda inglesa Queen. Bem avaliado pela crítica e ovacionado por fãs, o filme ganhou reconhecimento também no Oscar.

Mas, na China, o filme não será exibido como em outros lugares do mundo. O longa vencedor de quatro estatuetas no Oscar, além de ter sido indicado a Melhor Filme, foi lançado na última sexta-feira (22) com cortes no país asiático. 

Cerca de dois minutos do filme foram alterados ou excluídos, contabilizando seis cenas a menos do que o longa original contém. A revista norte-americana The Hollywood Reporter destaca que a censura foi feita em trechos que fazem referência explícitas ou implícitas à sexualidade de Mercury.

O filme foi lançado em poucos cinemas chineses, via National Alliance of Arthouse Cinemas (NAAC), uma iniciativa público-privada dirigida pela China Film Archive apoiada pelo Estado e por um consórcio de exibidores.

Apesar da censura, o documentarista chinês e ativista LGBT Fan Popo disse à CNN que só o fato de o filme ter sido lançado em seu país é uma “vitória”. Mas pondera ao dizer que é preciso cobrar governantes. 

“Se todo mundo se contenta com este tipo de ‘vitória’, então todo mundo sempre se submeterá à autoridade, os criadores não serão respeitados e não haverá proteção para os interesses do público”, disse.  

Quais foram as cenas censuradas pelo governo Chinês

Reprodução
Cena em que silhueta próxima à região pélvica de Freddie Mercury aparece na TV britânica não é exibida em "Bohemian Rhapsody" na China.

Atenção: esta parte contém spoilers de Bohemian Rhapsody.

1. Aproximação da virilha: Entre as cenas cortadas, segundo a BBC, estão uma aproximação de câmera da virilha de Mercury durante apresentação do Queen na TV inglesa.

2. Selinho entre Freddie Mercury e Paul Prender: Além disso, um beijo entre Freddie e Paul Prenter, que foi seu namorado e empresário de 1977 a 1986, também está fora do filme. Momentos de Mercury com 

3. Mary não questiona bissexualidade de Freddie: A CNN aponta que a cena em que Mary, primeira namorada do cantor, o confronta sobre sua bissexualidade e menciona a palavra “gay” foi cortada do longa. Os termos “bissexualidade” e “gay” foram removidos do filme.

4. Orientação sexual é traduzida como “vida sexual”: Outros cortes são mais sutis, como durante uma coletiva de imprensa em que o cantor é questionado sobre sua orientação sexual. O termo usado na tradução foi “vida sexual”, mudando completamente o contexto da pergunta.

5. Cenas de I Want to Break Free estão fora: Mas cenas que mostram os bastidores da gravação do clipe da música I Want to Break Free, em que os músicos se vestem com roupas femininas, também foram cortadas, diz a BBC.

6: Roger Taylor censurado: Em outra cena, o baterista Roger Taylor, interpretado pelo ator Ben Hardy, faz um comentário sobre o novo corte de cabelo de Mercury. “Gayer?”, ele questiona, em tom de brincadeira. Na versão chinesa, Taylor só se refere ao visual de Mercury com um olhar.

Apesar destas seis cenas censuradas e mal traduzidas, o expectador chinês ainda pode entrar em contato com referências à sexualidade do cantor no longa. As cenas finais, em que ele aparece com Jim Hutton, seu namorado, e o apresenta à família, forma mantidas. Na cena, os dois saem de mãos dadas.

Como a homossexualidade é entendida pela China

CGinspiration via Getty Images
O relatório da ILGA, divulgado recentemente, aponta que o problema na China não são só as leis, mas, principalmente, a cultura.

Diferente de outros 70 países pelo mundo, a homossexualidade não é mais ilegal na China desde 1997. Em 2001, ela também foi removida da lista oficial de transtornos mentais do país.

Mas, segundo relatório da ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais), lançado na última semana, preconceitos e discriminações persistem.

O relatório aponta que o problema na China não são só as leis, mas, principalmente, a cultura. Recentemente foram estabelecidas regras para emissoras de televisão e outros contúdos que podem ser considerados inapropriados ou que “expresse ou exiba relações sexuais ou comportamento sexual, como a homossexualidade”, segundo avaliação do governo.

A principal rede social da China, rede Weibo ― que é semelhante ao Twitter ― já chegou a anunciar um plano para censurar conteúdo relacionado a homossexualidade, mas sua ação foi revertida graças à movimentação popular.

Em 2018, a romancista de sobrenome Liu e conhecida sob o pseudônimo Tianyi, cujo trabalho incluiu conteúdo homoerótico, foi condenada a 10 anos de prisão por fabricar e vender “material obsceno” para lucro próprio. 

Em fevereiro deste ano, a cobertura do Oscar pela emissora local “Mango TV” foi criticada por alterar uma referência que Rami Malek, ator que interpreta Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody, fez à homossexualidade do cantor em seu discurso. Malek ganhou prêmio de Melhor Ator por sua interpretação.

“Ele era um garoto tentando descobrir sua identidade”, definiu Malek. “Para os garotos por aí que estão tentando descobrir a sua, nós estamos aqui celebrando um homem gay, filho de imigrantes, que sempre foi verdadeiro consigo mesmo”, pontuou em discurso que não passou na TV chinesa.