ENTRETENIMENTO
10/09/2020 03:00 -03

Como a humildade fez de Chadwick Boseman uma estrela

"É poético que ele tenha sido escolhido para o papel do Pantera Negra porque ele merecia muito", diz Aakomon Jones, coreógrafo que treinou Boseman.

Illustration: Damon Scheleur/HuffPost; Photos: Alamy, Disney
O ator Chadwick Boseman visto aqui em seus papéis nos filmes "James Brown" e "Pantera Negra".

Muitas das homenagens a Chadwick Boseman, que morreu na semana passada aos 43 anos após uma batalha privada contra o câncer de cólon, enfatizaram a graça do ator. Pantera Negra fez de Boseman uma das estrelas de cinema mais famosas do mundo, mas quem o conheceu diz que ele continuou sendo uma pessoa fiel, humilde e filantrópica, deixando um legado definido por sua generosidade e sua visão de futuro.

Aakomon Jones testemunhou a ascensão de Boseman em primeira mão. Coreógrafo veterano que trabalhou com Usher, Madonna e Jennifer Lopez, Jones ensinou Boseman – que não tinha experiência de dança ― a capturar os passos famosos de James Brown para a subestimada cinebiografia James Brown, de 2014.

Eles tiveram três curtos meses para alcançar um nível de fisicalidade que alguns atores levam anos para aperfeiçoar. Jones aprendeu tanto com a dedicação de Boseman quanto Boseman aprendeu com as técnicas de Jones. Em Pantera Negra, ele pediu à Marvel que contratasse Jones para coreografar a animada cena que se passa em Warrior Falls, onde são escolhidos os reis de Wakanda.

Após a morte de Boseman, pedi que Jones falasse do seu trabalho juntos, desde a sugestão de que o ator fizesse ele próprio as cenas de danças em James Brown à jornada espiritual que acompanhou sua fama de super-herói. O retrato que surge é de um homem que exalava dignidade.

HuffPost: Vamos começar com a entrada de James Brown na sua vida e o que você achou de ter de trabalhar em um projeto que tinha de capturar alguém tão específico como James Brown.

Aakomon Jones: Mick Jagger foi um dos produtores executivos. Já tinha trabalhado com ele em um videoclipe. Quando entrei para o projeto, [os produtores] já estavam considerando vários atores, mas estavam realmente mais interessados em Chadwick, então me trouxeram para trabalhar com ele no seu teste de câmera. Não ensaiamos antes. Foi literalmente naquela manhã. Só tentei animá-lo. Nós nos conectamos muito rapidamente. Ele conseguiu o papel, e fomos direto para os ensaios. Sou estudioso de James Brown. Em termos de energia de palco, muitos caminhos levam a James Brown.

Te juro ― e lembro como se fosse ontem ―, desde o primeiro dia de ensaios com Chadwick, estava absolutamente convencido de que ele seria capaz. E não foi porque ele entrou no primeiro dia já pronto. Ele tem 1,80 metros de altura [e é] magro, tentando interpretar um cara que tinha 1,70 e pernas tortas ― um tipo atarracado. Portanto, em termos físicos já estávamos em desvantagem, mas Chadwick me impressionou com sua ética de trabalho e sua paixão pelas artes. Ele chegava aos ensaios antes de mim. Ele sempre conseguia me acompanhar, e olha que aguento dançar durante horas a fio. Ele iria mais longe.

Alamy
Boseman em "James Brown".

Àquela altura, você estava acostumado a trabalhar com dançarinos experientes, tendo coreografado para gente como Usher e Madonna. Chadwick não era dançarino. O que foi necessário para vocês se sentirem prontos?

Para mim, era só questão de tempo. Isso é tudo o que eu pediria. Estamos tentando juntar 30 anos de experiência em dança em três meses. É loucura pensar isso, mas essa era a nossa tarefa. Chadwick estava interessado no aspecto físico e técnico, mas também em “como conecto isso com o personagem?” Ele sempre encarava os ensaios dessa perspectiva. Quando eu o forçava fazer uma pausa e beber um pouco d’água, ele ia ler outro capítulo de alguma biografia de James Brown porque se lembrou de algo que se conectava com a dança que estávamos fazendo.

Você tem um exemplo específico de um gatilho emocional da vida de James Brown ou da forma como Chadwick se relacionou com James Brown que tenha influenciado diretamente a coreografia?

Sim, uma coisa em particular. Chadwick fazia artes marciais ― muito antes de Pantera Negra ele já as praticava ― e sempre foi muito atlético. Sempre me referi aos dançarinos como atletas porque você literalmente tem que ter boa forma física. Mas, antes de James Brown se tornar o James Brown que conhecemos e amamos, ele lutava boxe, e Chadwick descobriu isso. Se você olhar para James Brown nesse contexto, verá como ele cerrava os punhos ou como trabalhava seus pés e dançava como estivesse de guarda, numa postura de boxeador. Chadwick me explicava e fazia melhor que eu.

Ele estava pronto quando começaram as filmagens?

Estávamos preparados para o primeiro dia de filmagens? Sim. Ele estava confiante. Eu confiava nele. Ele estava pronto. Desde o momento em que começamos a fotografia principal, talvez um número e meio ainda não estivesse finalizado, e ele teria de achar tempo para aprendê-los. É difícil ter acesso aos atores depois que começamos a filmar. Mas ele estava tão bom àquela altura, aprendendo tão rápido, que aprender um novo número seria fácil. A gente resolveria rápido porque ele fez o trabalho. Meu relacionamento com ele seria apenas para mantê-lo ancorado. E poder dividir o palco com ele em alguns desses números [como o cantor Bobby Bennett] foi muito importante para mim.

D Dipasupil via Getty Images
Aakomon Jones na estreia de "James Brown”, em 2014.

Em muitos filmes em que atores interpretam dançarinos, a câmera nunca mostra o corpo inteiro da pessoa, e não temos como saber que um dublê está fazendo a maior parte dos números. James Brown é diferente. Esses cortes estratégicos não existem, então sabemos que é Chadwick dançando. Sempre foi esse o plano?

Inicialmente não. Os produtores estavam pensando em arrumar um dublê. Era meio que a expectativa de todos, porque é isso que se faz [nos filmes]. Eu pessoalmente era contra, mas não ia me pronunciar até ter certeza de que seríamos capazes [de usar Chad nas cenas de dança]. Então, no primeiro dia de ensaio, pensei, “Oh não, não vamos ter dublês.” E estava tudo bem para ele. Ele sentiu e entendeu ― e falo isso porque ele disse numa entrevista, e digo isso com a maior humildade ― meu nível de confiança nele. Porque se você não é um dançarino profissional e agora está interpretando James Brown, que barra. Mas ele conseguiu. Como um dos ajudantes nessa jornada, isso me fez querer trabalhar muito mais.

Qual foi o passo de dança mais difícil para dominar?

São tantas coisas que você precisa fazer para tentar atuar como James Brown, mas a coisa mais difícil fisicamente foi descer num espacate e ficar em pé de novo. Quero dizer, ele é abençoado por ter mais de 1,80 metro. Isso é uma bênção, a menos que você esteja tentando fazer esse movimento. Ele entendeu que grupos de músculos precisava treinar. O adutor e a força interna das pernas para se levantar rapidamente, isso é difícil. E você está usando sapatos sociais. Fisicamente, foi a coisa mais difícil para ele fazer naquela velocidade, no meio de uma apresentação, quando você já está cansado, suando e cantando.

O que você lembra de quando viu o filme pela primeira vez? O que você e Chadwick acharam?

Foi uma experiência de sonho. Vou te contar uma memória específica. Tate [Taylor, o diretor] convidou Chadwick e eu para assistir a sua primeira edição e ouvir nossos comentário. Éramos só nós três. Foi incrível estar ali com os dois e assistir aquela primeira versão. Depois de conversarmos sobre o filme, começamos a falar de nossos próximos projetos. E nessa conversa, Chadwick disse: “Vou fazer algumas reuniões com a Marvel”. E eles não disseram a ele sobre o que seriam essas reuniões. Como fãs de quadrinhos, começamos a especular: “Quem é? Eu acho que sei.” É muito divertido para mim pensar que naquele dia, quando vimos James Brown pela primeira vez, ele estava prestes a participar daquelas reuniões sem saber do que se tratava. Anos depois, aqui estamos.

Disney
Boseman e Michael B. Jordan na Warrior Falls em "Pantera Negra".

Você o acompanhou naquela última onda antes de ele virar uma estrela global por causa da franquia.

Com certeza, e a Marvel não poderia ter escolhido um cara melhor. Ele realmente era todas as coisas que o papel de Pantera Negra incorpora. Ele sempre teve tudo a ver com mobilidade ascendente. Ele era o azarão. Ele sempre levou sua arte a sério, sempre se dedicou e estudou muito.

Você trabalhou em Pantera Negra. Como isso aconteceu?

Eu estava fazendo A Escolha Perfeita 3 em Atlanta [onde os filmes da Marvel também são filmados] e então nos cruzamos algumas vezes: “Estou fazendo um churrasco, vem pra cá” ou “Está na cidade? Vamos nos encontrar.” A gente se via. Aí houve as cenas [de Pantera Negra] em que apareceram oportunidades para dançar. Isso é uma coisa que sempre disse sobre Chadwick: ele usou sua influência em todas as fases de sua carreira para ajudar os outros. Eu pessoalmente o ouvi conversando com produtores sobre a importância da coreografia e da dança. Coreógrafos são muitas vezes uma anomalia na indústria. Temos que lutar para ser reconhecidos, porque não estamos todos os dias no set.

Ele te trouxe para Pantera Negra?

Sim. Na tradição africana, muitas tribos têm danças de guerra. Nas artes marciais asiáticas, você chama isso de kata. Trabalhei com ele nisso. Para a cena de Warrior Falls, quando eles escolhem o novo rei, você pode desafiá-lo. Trabalhei em todas as tribos e seus movimentos.

Eles não estavam procurando um coreógrafo para isso, mas Chadwick ressaltou a importância. Ele me chamou, e fui correndo. Era Pantera Negra, da Marvel. Quem não quer fazer parte disso? Mas não estou mentindo: meu motivo para não pensar duas vezes foi porque ele me chamou. Isso significava muito para mim. Ele assumiu um risco, mesmo que pequeno. Não tenho palavras para agradecê-lo.

Você falou de como ele era ocupado em James Brown, então nem imagino como tenha sido em Pantera Negra, que teve um orçamento de cerca de 200 milhões de dólares. Como o maquinário daquela franquia e o tamanho da produção mudaram a natureza do que vocês faziam juntos?

Bem, o que era necessário significava que eu não precisava de tanto tempo com ele. Mas, em termos de escala, Chadwick nem sentiu. Ainda parecia algo pequeno e pessoal, no bom sentido. Ele tem uma formação teatral, então para ele era uma coisa: “Ei, eu te conheço, tudo certo. Estou feliz por você estar aqui. Ei, olha isso. O que você acha disso ou daquilo?” Ele imediatamente te envolve e te faz esquecer que você está no meio da coisa mais louca e incrível.

Mario Anzuoni/Reuters
Boseman na cerimônia de entrega do Oscar, em 2019.

Acho que ninguém poderia ter previsto que Pantera Negra ultrapassaria 1 bilhão de dólares, embora houvesse muito entusiasmo em torno do filme. Ainda assim, ele tinha que saber que isso o tornaria muito famoso e também que o filme significaria muito para muitas pessoas. Estou curioso para saber se percebeu isso nele e se ele estava se preparando para essa mudança em sua vida.

Com certeza. Ele já se preocupava em ajudar os outros: “Se estou prestes a ir para a estratosfera, não vou sozinho só para fazer novos amigos quando chegar lá. Não, quero que os outros que estiveram comigo experimentem isso.” Ele estava muito bem preparado do ponto de vista espiritual. O filme abordou a importância de permanecer conectado com os ancestrais. Ele já tinha essa linguagem. Ele trazia um djembé [espécie de tambor] para os ensaios de James Brown. Estávamos fazendo um filme de soul music dos anos 60, mas esse era o ritmo que realmente o animava de manhã.

É poético que ele tenha sido escolhido para [o papel do Pantera Negra] porque ele merecia muito. Ele lembra muito um rei, não como “Eu governo”, mas sim como “Sou o rei que traz consigo a comunidade e lidero a partir dessa perspectiva”. Não dá para exagerar esse lado. No nosso primeiro ensaio de James Brown, ele me disse: “Cara, quando era criança sempre quis estar em um filme de ação. Tenho a sorte de fazer todas essas biografias e espero um dia fazer um filme de ação.” E aí anos depois você é a estrela do maior filme de ação do momento. Acho que ele lidou com esse nível de sucesso com muita graça e responsabilidade porque sempre se sentiu responsável e respeitou o que estava acontecendo. Disso tenho certeza.

Alguma história ou lembrança definidora sobre Chadwick que você não tenha mencionado?

Às vezes, são as pequenas coisas que permitem que você conheça o caráter de uma pessoa. Em duas ocasiões estávamos em lugares públicos e ele fez questão de dizer oi. Isso depois do sucesso de Pantera Negra. Uma vez foi num aeroporto. Eu estava entrando, ele estava saindo. Na outra vez, estávamos literalmente na rua. Ele estava sempre mandando amor e enviando vibrações e perguntando como você estava. Tipo, deve haver 10 000 pessoas na sua vida todos os dias, mas você ainda separa um tempo para se conectar com elas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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