MULHERES
21/01/2020 02:00 -03

Por que os 'chás revelação' podem confundir as crianças

'Rosa para meninas' e 'azul para meninos' pode inculcar estereótipos danosos nas crianças pequenas.

Apesar de estarem saindo de moda por causa da reprovação pública, alguns casais ainda fazem chás revelação para descobrir o gênero de seus filhos.

A princípio, não parece nada demais. Muitas famílias começam a falar de gênero desde cedo com as crianças, uma conversa que continua com regularidade conforme elas vão crescendo. Mas não é o caso de todas as famílias. Para as crianças que não têm a chance de ouvir explicações adequadas para suas idades e que incluam todas as nuances do tema, esse tipo de evento pode causar confusão ou, ainda pior, inculcar estereótipos desde a mais tenra idade.

A especialista em educação sexual Nadine Thornton, de Toronto, no Canadá, não condena os chás revelação. Ela diz que, quando estava grávida, sempre tentava visualizar o bebê, e o gênero biológico era parte das imagens. Mas ela diz que os pais devem ter cuidado para que esse tipo de evento não perpetue o mito de que identidade de gênero e biologia são a mesma coisa.

“Acho que há muito condicionamento social envolvido. Descobrimos que o bebê tem vulva ou pênis, e isso vira uma informação decisiva sobre quem será a criança. Na realidade estamos apenas descobrindo algo sobre seu corpo”, diz Thornton ao HuffPost Canadá.

Thanasis Zovoilis via Getty Images
Festas para revelar o gênero do bebê podem confundir as crianças pequenas.

Educação é essencial

Se os pais querem que seus filhos sejam inclusivos, a educação é essencial. Natalie Lelacheur-Romero frequentemente conversa com seus dois filhos sobre gênero. Ela explica que a biologia não indica necessariamente o gênero da pessoa e que ele pode ser fluido e mudar com o tempo.

Lelacheur-Romero conta o que sua filha disse ao ver o vídeo de chá revelação: “Ela perguntou por que rosa representa menina e azul, menino. Adoro que ela não entenda o motivo. Digo para os meus filhos que cor nunca indica gênero.”

Kat Antopoulos, que tem três filhos, diz se esforçar para que suas crianças não adotem estereótipos de gênero. A frase “Cores são para todos” é repetida com frequência em sua casa, e rosa é a cor predileta de seu filho mais velho. Ela também conversa sobre os estereótipos das roupas, e seus filhos entendem que não há nada errado se meninos quiserem usar vestido.

Mantenha a conversa rolando

Thornton incentiva conversas regulares com as crianças sobre gênero. Ela recomenda que, se eles forem a um chá revelação, os pais digam para as crianças que elas podem ver muito cor de rosa para comemorar um bebê com vulva ou azul, caso o bebê tenha pênis.

“Pergunte para seu filho coisas como: ‘Por que você acha que as pessoas preferem certas cores para meninos ou meninas?’”, sugere Thornton. “‘E o que VOCÊ acha disso?’”, afirma ela, ressaltando a importância de ouvir a opinião das crianças.

Esses eventos também podem ser uma oportunidade para conversas que deixem claro que o gênero indicado pelos órgãos genitais nem sempre corresponde ao gênero com o qual a pessoa vai se identificar quando estiver crescendo. As crianças costumam entender essa questão, afirma Thornton.

Diana Whitney, de Brattleboro, teve de se desculpar por não ter explicado para as duas filhas o que aconteceria no chá revelação de uma das ex-professoras deles.

Whitney aproveitou a ocasião para começar um diálogo importante com as crianças, que na época tinham 11 e 13 anos.

“Conversamos como esse tipo de evento público pode causar mágoa, confusão ou humilhar crianças que se identificam como trans, não binárias ou genderqueer, ou então que estejam questionando suas identidades de gênero”, explica Whitney. 

 “Minhas duas filhas já tiveram colegas que são trans ou não binários, então elas entenderam os conceitos rapidamente e por que a celebração pública da genitália não é algo apropriado. Sugeri que seria diferente se os pais tivessem feito uma festa privada, aí os convidados poderiam decidir se compareceriam ou não.”

Como ajudar seus filhos a entender gênero

Whitney assiste programas de TV ou filmes (adequados para as idades das crianças) que mostram a questão do gênero de maneira positiva e servem de base para conversas com as crianças. Ela também usa os exemplos de amigos e colegas para “normalizar” o assunto na família.

Em relação aos eventos de revelação de gênero, Thornton não tem uma opinião definitiva a respeito.

“Acho lindo ter esperanças e fantasias sobre quem será seu bebê. Mas também acho importante reconhecer, uma vez que ele venha ao mundo, que tudo isso deixou de ser fantasia e virou realidade. Estamos falando de um ser humano real e complexo, cujos comportamentos, interesses e gênero podem ser muito diferentes do que os pais idealizaram.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canadá e traduzido do inglês.